31 de março de 2020

Março (parte 2).

Quando o mês de Março começou havia mil casos de COVID-19 em Itália. Eram dois os casos diagnosticados em Portugal. Andávamos na rua com algum cuidado, mas ainda com uma sensação de segurança. Olhando agora para trás, parece-me estranho ter sido este o mês em que fui ao Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, passeei por Lisboa ou voltámos à Fragada D. Fernando II e Glória. Parece-me estranho ter sido este o mês em que fui à festa de Veneza da minha mãe. O tempo tem passado tão devagar que era capaz de jurar que já estamos em casa há meses, mas não: na verdade, nós estamos em quarentena desde o dia 11 de Março. Passaram três semanas. 

Nestas três semanas saí de casa três vezes: uma para ir ao pão, outra para ir ao supermercado (temos mandado vir online mas entre 19 de Março e 1 de Abril não apanhámos datas disponíveis e precisámos de frescos) e outra para ir com a Gabriela ao centro de saúde fazer as vacinas dos quatro meses. Nestas três semanas o Matias não pôs o pé na rua. O Pedro continuou a trabalhar. Os meus amigos foram atirados para a linha da frente nas urgências. O meu irmão voltou da Suíça e ficou em quarentena sozinho. 

Nestas três semanas o mundo mudou. 

Durante algum tempo pareceu-me um bocado surreal continuar a mostrar as fotos do mês ou partilhar as fotos da festa da minha mãe. Mas por aqui aceitámos as novas rotinas com a serenidade de quem sabe que nada mais há a fazer: em Fevereiro passeámos, em Março ficámos em casa, em Abril ficaremos em casa também, tal como em Maio. 


E sabem que mais? No meio disto tudo, eu sinto que tenho mesmo muita sorte. Posso ficar em casa com os meus filhos e não estou a trabalhar no hospital como todos os meus amigos ou em casa a trabalhar como muitas pessoas. Estamos protegidos aqui, dentro do possível, tendo em conta que o Pedro continua a trabalhar. Parte-nos o coração ver a confusão na cara do Matias quando o Pedro chega a casa e não o pode abraçar, mas estamos todos aqui, e estamos bem, nós e os nossos.

Daqui a duas semanas serei eu que não vou poder receber abraços quando chegar a casa. Mas uma parte de mim fica contente com isso: assim, o Pedro poderá vir para casa, ficar mais calmo e seguro e assistir diariamente a este privilégio que é ver os nossos filhotes a crescer. 

E tudo passa. Tudo passa. Como diz o Sufjan Stevens na frase daquela que é possivelmente a minha música preferida e que inclusivamente tenho tatuada no braço, all things go. Como dizem os Bongo Botrako nessa música espectacular que me faz sempre pensar nos dias que passámos a trepar árvores, a comer amoras dos arbustos e a nadar no rio em Arenas, todos los días sale el sol. E se não for em Abril, Maio, Junho, Julho ou Agosto que voltarmos a passear, sei que será um dia. Até lá, estamos juntos. E isso é o mais importante.

Aqui vão as fotos restantes do mês de Março.


24 de março de 2020

Catorze dias de quarentena.

Namorávamos há seis meses quando decidimos começar a viver juntos. Tínhamos dezanove anos. Na altura, as minhas amigas mais próximas fizeram uma intervenção: diziam que dar um passo tão drástico era um grande erro, que nos íamos cansar e que éramos muito novos.

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Foi parecido com isto, mas estávamos no café
Depois disso passámos a estar 24h por dia juntos. Durante o dia estávamos juntos na faculdade (éramos da mesma turma, tínhamos as mesmas aulas), depois voltávamos juntos para casa. Ao fim-de-semana íamos a casa dos nossos pais. 

Sempre florescemos nesse contexto. Somos bons a estar juntos. Somos óptimos, na verdade. Somos uma equipa do caraças. Por outro lado, somos péssimos a estar afastados. Aos fins-de-semana morríamos de saudades, as férias eram difíceis, o estágio do Pedro em São Paulo foi um terror e o estágio em Barcelona pareceu demorar mil anos. 

Entrámos em especialidades diferentes, e pela primeira vez começámos a passar os dias em hospitais diferentes. A nossa rotina mudou e passámos a estar menos tempo juntos, mas continuámos a ter sucesso. Com a chegada do Matias sentimos que ficámos ainda mais fortes e mais apaixonados. Já com a Gabriela não foi tão linear (= foi péssimo), mas depois das primeiras semanas voltou a entrar tudo nos eixos.

Com as gravidezes e as licenças acabei por passar bastante tempo em casa, por isso para mim estar de quarentena não é 'estranho'. Não é algo que adore, claro, mas também não estou propriamente a fritar a pipoca. Tendo a ser muito resiliente em situações muito difíceis (o que é curioso porque muitas vezes faço dramas demoníacos com coisinhas de nada), e a minha preocupação inicial era como iria o Matias lidar com tudo isto. Quando ficámos em casa há catorze dias expliquei-lhe que não íamos poder sair 'durante uns tempos' porque 'havia adultos com febre', e ele nunca mais falou do assunto. Às vezes comentamos que continua a 'haver adultos com febre' e ele percebe.

De resto, tem andado felicíssimo em casa, aos pinotes, a brincar às apanhadas e às escondidas, a ver filmes, a construir com Legos, a brincar com os bonecos, a vestir os disfarces, a ouvir enquanto contamos histórias, a chatear a paciência da Gabi e afins.

E nós continuamos uma boa equipa. E enquanto nos parece que o mundo desmorona lá fora, saber que tudo está seguro cá dentro dá-nos uma tranquilidade imensa.

Tenho feito análises das evoluções de dezoito países em relação ao número de casos e à taxa de mortalidade, e sinceramente acho que para já as coisas cá estão a correr bastante bem. No mesmo dia de evolução do que nós a China tinha 5974 casos, a Itália 3089, os Estados Unidos 3497 e a Espanha 5232 e as taxas de mortalidade eram respectivamente 2.2, 3.5, 1.8 e 2.5 (contra a nossa de 1.3). Não quer dizer que possamos festejar no meio da desgraça dos outros, mas a mim dá-me alguma segurança sentir que, pelo menos para já, parecemos ter a situação relativamente controlada, também à custa de estarmos a cumprir bem as normas de segurança (eu sei que não faltam por aí vídeos e fotos de malta no passeio, mas também há milhares de pessoas fechadas em casa).

E pronto, por aqui a quarentena tem-se feito sem grandes dificuldades à excepção das obviamente inerentes à situação. Temos aproveitado para cozinhar, para fazer exercício, para ver séries, para jogar, enfim, para passarmos tempo juntos.

Para confusão já basta o mundo lá fora.

23 de março de 2020

Quero um insuflável.

Ontem recebi um mail da Insufláveis da Inês a falar das promoções dos alugueres quinzenais e até ouvi sininhos, juro. Já tínhamos tido um insuflável delas no baby shower do Nemo da Gabi e já temos uma reserva para a festa de aniversário do Matias em Maio * fingers crossed *. O Matias delirou com o insuflável na altura e já anda há semanas a falar de brincar no insuflável outra vez, por isso pensei em alugar um insuflável por uma quinzena (fica entre os 130€ e os 160€, dependendo do tamanho do insuflável).

Andámos em medições na nossa sala... E concluímos que não dá. Mesmo assumindo que o insuflável vazio ocupa pouco espaço (e eles enchem e esvaziam super rápido), o insuflável cheio literalmente não cabe no espaço livre da nossa sala. Ainda tentei convencer o Pedro a arrastarmos a mobília e tal, mas mesmo assim não iria dar.

Fiquei cheia de pena mesmo, mas continuo a achar que é uma óptima ideia para quem tiver uma sala grande ou um quintal e por isso aqui vai a dica :)

18 de março de 2020

Quatro meses de Gabriela.

A Gabriela nasceu na madrugada de uma Segunda-feira. Tivemos alta na Terça-feira ao fim da tarde. Na Quarta-feira fomos com a Gabriela à creche buscar o Matias.

Depois disso conto pelos dedos de uma mão os dias em que a nossa Gabi não saiu de casa. Íamos levar o mano, íamos buscá-lo, íamos passear. A Gabriela foi à praia, foi ao parque, foi a museus e a exposições.

Há uma semana que a Gabriela não sai de casa. Hoje fomos as duas para a janela apanhar solinho, e foi basicamente isso. Dias estranhos, estes que vivemos.

Apesar de tudo, sinto que tenho muita sorte. Estou em casa com os meus dois filhotes, sossegadinha, a curtir o crescimento deles. Estar com eles 24h por dia é desafiante, sem dúvida, mas também é tremendamente enriquecedor. E sei que o Pedro dava um bracinho para poder ficar em casa com eles, em vez de sair todos os dias para ir para o hospital. Por isso não me queixo: daqui a um mês terei de voltar ao trabalho, e sei que vou sentir muita falta disto.

Hoje a Gabriela faz quatro meses. Quatro meses complexos. Quatro meses lindos. Os melhores quatro meses das nossas vidas. Assim é a Gabriela com quatro meses :)

* Não fazemos ideia de quanto mede ou pesa: já não a pesamos desde a consulta dos dois meses. Temos consulta no centro de saúde na próxima semana e ainda não sabemos se irá manter-se: liguei na semana passada e disseram que estavam a manter as consultas de saúde infantil, mas pediram para ligar na véspera a confirmar.

* Delira com estar despida. Nunca a vemos tão feliz como quando começamos a tirar-lhe a roupa. Gosta de palhaçadas e de cócegas. Adora ver os disparates que o mano faz.

* Adora estar com as mãos na boca. Nunca usou chucha e também ainda não liga aos brinquedos.

* Gosta de colinho e é muito observadora. Detesta o vento. Gosta imenso de passear, até porque vai sempre na mochila (onde ela adora estar). Já anda na Boba.

* Tem uma rotina bastante consistente já. Toma banho por volta das 19h, normalmente ao mesmo tempo que o mano. Bebe o biberão às escuras (neste momento já com 210ml), deitamo-la e ela adormece. Acorda uma vez entre a meia-noite e as duas, bebe mais 210ml e volta a dormir, geralmente até às sete. Bebe novamente 210ml de leite, volta novamente para a cama e dorme até às 11h ou 12h. Acorda bem disposta e pronta para a brincadeira. Bebe o leite (durante o dia ainda com 180ml) e depois fica cerca de uma hora acordada. Vai dormir a sesta por volta das 13h, acorda às 15h, bebe o leite por volta das 15.30h, volta a dormir às 16.30h e acorda por volta das 18h. Nesta fase o Matias já dormia a noite toda, mas durante o dia era bem mais chatinho para dormir.

* Dorme na caminha dela, no quartinho dela, e adormece sozinha. Está a passar uma fase muito tranquila e o berranço acabou.

* É uma miúda saudável e sem chatices. Não tem pele atópica como o irmão, não tem crosta láctea como o irmão, não fica assada no rabito como o irmão, nunca esteve doente, faz bem cocó e xixi, come bem... Continua a bolçar bastante, mas achamos que é dela mesmo, porque não parece nada maldisposta ou enjoada. Experimentámos o leite anti-refluxo mas ela odiou, por isso passámos do hipoalergénico para o normal e sentimos que o bolçanço melhorou ligeiramente. Bolça bastante quando anda de carro, ainda não percebemos porquê.

* Ao contrário do mano, adora estar de barriga para baixo. Passa imenso tempo no tapete e já se vira bem. Também gosta de estar sentada com apoio e já parece uma senhora :) Já mexe os joelhos para tentar rastejar :)

* Hoje comeu a primeira sopa, mas não curtiu muito a cena. Por outro lado, noto que nisto a experiência ajuda imenso: tive zero problemas, estava super calma, fui oferecendo para ela provar e depois quando me pareceu que ela já não queria mais deixei de dar, tudo muito tranquilo.

E pronto, a nossa menina da canção está a crescer :)

14 de março de 2020

Trabalhar a saúde mental.

Não é difícil para nós ficarmos em casa: são as vicissitudes de estar há tantos anos a viver com um peixe morto e de ter um filho igualmente peixe morto :) O Pedro tem de sair de casa diariamente porque vai para o hospital, nós por cá continuamos sem sair desde Quarta-feira e assim nos manteremos. Ocorreu-nos enfiarmo-nos no carro e irmos até uma mata qualquer a uma hora daqui deitarmo-nos na relva a apanhar ar (cá em casa nem sequer há varanda), mas honestamente acho que não ia estar sossegada: as saídas diárias do Pedro significam que num cenário dramático poderemos estar todos infectados cá em casa, e não quero andar feita histérica a ter a certeza que estou a cem metros do parceiro do lado.

Partilhei nos comentários que estava a pensar nisso e recebi comentários super agressivos, por isso decidi que nos próximos tempos, e como parte do trabalho na minha saúde mental, não vou permitir comentários aqui no blog. Reparem: obviamente eu sempre recebi comentários agressivos. Confesso até que sempre me diverti a recebê-los, apagá-los e imaginar as pessoas a fazerem refresh no blog à espera que o seu comentário fosse publicado, a darem-me visualizações gratuitas e a espumarem de raiva. Mas agora já não tenho paciência. Estou em casa com os dois miúdos, sozinha em 90% do tempo, quero focar-me neles e acho que a malta que vem para aqui mandar bitaites foleiros também se devia seriamente focar nos seus.

Saí de todos os grupos que tinha no WhatsApp. Recebia centenas de mensagens por hora sobre este assunto. Obviamente que estamos todos imensamente preocupados, mas sinceramente eu não posso fazer nada, vou estar em casa com os miúdos durante mais um mês, não estou no terreno ainda e prefiro aproveitar enquanto posso.

Apaguei o meu Facebook. Não me trazia nada útil, estava sempre a ler as mesmas mensagens partilhadas por dezenas de pessoas diferentes.

Temo-nos entretido como sempre fizemos: séries, filmes, bonecada, puzzles, pinturas, receitas, escondidas e apanhadas, Legos, dinossauros dinossauros dinossauros dinossauros, sestas boas, visitas a museus virtuais, publicações constantes no Instagram (desculpem lá o spam), quizzes do Jetpunk, páginas giras da Wikipédia, FaceTime com o pessoal e palhaçadas com a Gabi. 

Continuo disponível pelo mail e, principalmente, pelo Instagram, onde tenho recebido imensas mensagens. Continuo a gostar de trocar ideias, de conversar, de saber os pontos de vista dos outros. Juro que sou muito acessível e que respondo a toda a gente. Talvez continue a escrever aqui no blog, não sei bem, vou ver o que me apetece fazer nos próximos dias.

Até lá, vou divertir-me. Em casa, com as minhas pessoas, a aproveitar para aprender coisas giras e fazer programas engraçados. A focar-me em mim e nos meus. Façam isso também.

13 de março de 2020

E coisas práticas?

Por cá cancelámos tudo até dia 12 de Abril. Havia o plano de ir à Suíça nessa altura visitar o meu irmão, mas não tínhamos oficialmente marcado nada ainda. Há a possibilidade de ter de interromper a minha licença para ir trabalhar, mas aguardamos ainda por informações oficiais.

Dispensámos a nossa empregada da limpeza a partir da próxima semana mas vamos pagar-lhe na mesma (lá está, ela também precisa de ganhar dinheiro). Não temos encomendado comida pelo Glovo ou pelo Uber Eats para minimizar os contactos, e já encomendámos frescos pelo Continente online para Sábado e para a próxima Quinta-feira (fruta, legumes, carne, peixe e água).

Explicámos ao Matias que os amigos estão todos de férias e que a escola está fechada porque 'há adultos com febre', e por isso precisamos de ficar em casa nos próximos tempos. Ele anda divertidíssimo, claro.

Ontem montámos uma caixa de cartão que eu tinha comprado para a festa de aniversário dele e ele brincou com ela durante duas horas. Há mais onze caixas guardadas, por isso há esperança. Também fizemos bolachas, lemos histórias e vimos filmes. Brincámos à apanhada, mas ele deu um trambolhão enorme e fartou-se de chorar (e a Gabriela desatou a chorar também em solidariedade). Temos vários brinquedos novos guardados (sempre tivemos, servem de reforço positivo quando ele se porta bem), é possível que recorra a eles.

E por aí, como se estão a organizar? :)

12 de março de 2020

Continuar a manter a calma:

Vejam informação nas notícias: nós temos usado o Observador.

Não abram o Facebook.

Não acreditem em 'mensagens de médicos' ou em informações dramáticas vindas da amiga da vizinha que até é médica em Santa Maria. Há muita coisa a correr menos bem, mas ninguém anda a aldrabar com números de casos e afins. Não entrem em teorias da conspiração. Não acreditem em nada que não lerem nas notícias de jornais como deve ser.

Protejam-se e estejam atentos às orientações.

Façam uns quizzes do Jetpunk, são fixes e aprendemos coisas úteis.

No meio disto tudo, uma coisa que me tem ocorrido: confesso que me faz alguma confusão que a malta exija o dinheiro de volta das viagens de finalistas, quando estas foram canceladas porque há riscos. Assim de repente, já tenho o espaço reservado para a festa de aniversário do Matias e já paguei uma parte substancial, tal como do insuflável e tal. Não quero o meu dinheiro de volta. Se a festa não acontecer, se nenhuma festa acontecer daqui até Maio (é provável, vamos ver), as pessoas precisam do dinheiro. Já tenho uma parte substancial da viagem ao México paga (também é em Maio), e se não for (choro lágrimas de sangue só de pensar nisto, já nos estava a imaginar a entrar no avião de sombreros e tal), se ninguém for, as pessoas da aviação, dos hotéis, dos restaurantes e afins vão precisar do dinheiro. Se o Matias não for à creche nas próximas semanas, a directora vai precisar de pagar salários na mesma. E não é certamente porque estou a nadar em moedinhas como o tio Patinhas, é porque é decente. Acho que é óbvio para todos que irá haver consequências do ponto de vista económico, por isso todos teremos que fazer a nossa parte. As pessoas pagaram, está pago, se aceitaram seria porque tinham condições para pagar o valor total, agora se não forem é mesmo muito chato mas é o que é.

Quando isto passar tudo juro que vou para Itália destrocar, beber vinho, comer pizzas e gelados, ficar em hotéis fixes e visitar imensos museus. Eles vão precisar. Vamos todos precisar.
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