9 de dezembro de 2019

Três semanas de Gabriela.

Uma semana depois, diria que no geral está tudo mais tranquilo. Não sabemos se a Gabriela está menos chorona ou se nós já estamos dessensibilizados (possivelmente será uma mistura das duas), mas os dias têm corrido de uma forma aparentemente mais pacífica.

A Gabriela adora dormir quando há confusão (gente cá em casa, passeios, barulho, por aí fora), mas também não tem dado noites nada más (come uma a duas vezes por noite, com intervalos entre as 3h e as 6h, riqueza da mamã).

Bebe 120ml de leite em seis ou sete mamadas diárias. Nos últimos dois dias tem andado mais comilona, possivelmente estará a fazer um pico de crescimento. Ao contrário do Matias, que gostava mais dos biberões da Dr. Brown's, a Gabriela gosta mais dos da Avent. Continua sem ser grande fã da chucha, mas sinceramente nós também não a estimulamos muito nesse sentido.

Na pesagem da semana passada as enfermeiras ficaram preocupadas porque a Gabriela só tinha ganhado 17g por dia, e a verdade é que ela passou uma fase em que não parecia assim tão interessada em comer. Entretanto parece-nos que isso passou, vamos ver como corre a pesagem amanhã (que também vai ser o dia da administração da vacina da BCG!). 

O Matias parece cada vez mais crescido. Quer ajudar com tudo. Gosta de dar banho à irmã e até já arrastou um banco para o trocador para poder ajudar a mudar a fralda. Também já acorda menos de noite (houve uma fase difícil em que a dada altura tínhamos os dois miúdos acordados, uma a chorar e o outro porque não conseguia dormir com o choro!).

Enfim, tudo está melhor. Ou então está igual e nós estamos mais habituados. O que quer que seja, não nos podemos queixar :D

É assim, a minha mãe só me veste com estas bodegas de fidalga, quero fatos com dinossauros como os do meu irmão!


Dezembro (parte 1).

Normalmente estes registos são mensais, mas a verdade é que começámos Dezembro em grande e já fizemos um montão de coisas. Vai daí, decidi dividir a foto-reportagem do mês para não sobrecarregar ainda mais a publicação, até porque ainda vem aí o Natal :D :D :D

No início da semana passada fizemos a nossa sessão fotográfica anual de Natal, desta vez a quatro (depois mostro as fotos) :D O Bernardo voltou de Roterdão depois de ter vivido lá três meses (gostou imenso). Também voltámos ao Dote para matar saudades das francesinhas, agora com a nossa Gabi. Enviámos os postais de Natal, e mais uma vez o Matias divertiu-se imenso a colaborar. Fomos à Harry Potter: The Exhibition com a Gabriela, que dormiu no pano o tempo todo. Depois da exposição ainda comemos um belo bife na República da Cerveja, e no fim deste dia fomos ao centro de saúde para a pesagem da Gabi e a vacina do Mati (que fez a Nimenrix). Mandámos vir pizzas da Lucca e matei saudades da minha pizza de trufas. Entretanto comecei a minha operação pós-parto, por isso adeus pizzas todas as semanas (snif). 

No fim-de-semana andámos muito entretidos: no Sábado a Carina, o Miguel e a Leonor vieram cá almoçar (e trouxeram com eles uma mousse de chocolate saudável e deliciosa), passámos a tarde a jogar Risk e depois a Joana e o Bernardo juntaram-se a nós para o lanche, que se prolongou até à hora do jantar. Ontem fomos à Cascais Christmas Village, dormimos uma sesta deliciosa os quatro e à noite fui ao The World of Hans Zimmer - A Symphonic Celebration :D
 
Pequeno-almoço: sumo de laranja, café e torrada com Nutella


5 de dezembro de 2019

Sair com um recém-nascido?

A Gabriela farta-se de laurear a pevide. Nasceu numa Segunda-feira, tivemos alta na Terça ao fim do dia e na Quarta fomos buscar o Matias à escola. A Gabi veio connosco levá-lo ou buscá-lo à escola praticamente todos os dias depois desse, de carro ou a pé. Também já foi ao parque, ao Glood e almoçar ao Dote. Ontem foi à exposição do Harry Potter e depois fomos almoçar à República da Cerveja. Em resumo: todos os dias saímos de casa com a miúda.

Vou mostrando algumas destas rotinas no Instagram, e há imensa malta a mandar mensagens dizendo que os médicos assistentes dos seus miúdos não recomendam sair de casa antes deles terem um ou, em alguns casos, dois meses.

Fiquei em choque, confesso. Pensei que seriam recomendações em relação a locais fechados, mas não: há colegas que recomendam não sair de casa com os miúdos de todo, nem para apanhar ar fresco. Só mesmo ir às consultas e fim.

Por via das dúvidas, voltei a confirmar com a Joana. Já com o Matias éramos super fãs de dar uns passeios, e agora que não se coloca a questão do calor (somos um bocadinho paranóicos com o sol e tal) basicamente agasalhamos bem a miúda e saímos pela porta fora. Mas tendo em conta a quantidade de pessoas que diziam o mesmo, se calhar nós é que estávamos a assumir que não haveria problema.

Afinal, a Joana não tem nada contra os passeios, com as precauções do costume (evitar espaços fechados, agasalhar bem a criançada, etc).

E tem-nos feito um bem do caraças, a sério. Saímos, passeamos e apanhamos sol. Voltamos sempre mais bem-dispostos e relaxados - com a grande vantagem da Gabriela normalmente ficar muito tranquila no pano ou na mochila.

Gabi na alcofa no Dote
Gabi ao colinho da titi Joana / pediatra assistente na República da Cerveja :)
E as doenças? - pergunta a malta no meu Instagram. Bem, no dia em que o Matias foi conhecer a Gabriela estava constipado (aquela constipação da ranhoca amarela e espessa, sabem?). Entrou no quarto, quis pegar nela ao colo e encheu-a de beijos. E nós íamos fazer o quê? Impedir isso? Não é o nosso estilo. Eventualmente a ranhoca passou, mas há dois dias que o Matias tem umas pintas estranhas. E continua a encher a irmã de beijos. E nem nos passa pela cabeça impedi-lo, aliás, por nós ele vai continuar a encher a irmã de beijos para sempre (vá, até à adolescência).

A partir do momento em que o Matias está na creche a apanhar as viroses do costume e nós saímos de casa pelo menos para ir levá-lo e buscá-lo (e daqui a duas semanas o Pedro regressa ao trabalho nesse antro de doenças que é o hospital), a Gabi já está em risco de contágio, agravado pelo facto de ter nascido em segundo lugar. E é verdade que o Inverno é uma altura mais chata, mas no Verão também andam sempre por aí as gastroenterites e afins.

É melhor termos serenidade para aceitarmos as coisas que não podemos mudar, e apanhar ar 'puro' (vá, tendo em conta que vivemos em Lisboa não deve ser assim tão puro) nunca fez mal a ninguém. E quando ela ficar doente, tem aqui os papás médicos para a ajudarem e o irmão para a encher de beijinhos :D

Operação pós-parto.

Quando entrei na faculdade (ou seja, já adulta) tinha um peso entre os 55 e os 60 quilos. Sentia-me bem, achava que estava porreira e tinha uma auto-estima razoável. 

No início de 2008. Já passaram praticamente doze anos :O
Depois vim viver com o Pedro e as coisas descontrolaram-se um bocadinho. Não tínhamos horários fixos e comíamos o que queríamos (ou seja, porcarias), por isso três anos depois já tinha mais dez quilos do que o meu habitual. As fotografias do Inter-Rail foram o catalisador para o início de uma dieta que, esperava eu, me faria perder quinze quilos e voltar aos meus confortáveis 55kg.

Em 2010, durante a viagem de comboio entre Paris e Brugges :)
Não foi isso que aconteceu, e um ano depois fui diagnosticada com uma anorexia nervosa. Perdi trinta quilos, deixei de menstruar, fiquei magra como um espectro e toda a minha vida girava à volta da comida e do peso. Comecei a fazer psicoterapia e recuperei, do corpo e da alma. O meu corpo permitiu-me fazer isso.

Em 2011, nas Maldivas, já em recuperação
Passei os anos seguintes novamente entre os 55 e os 60 quilos. Era o peso que tinha quando casei. Era o peso que tinha quando engravidei.

Em 2014, na Queima das Fitas dos nossos afilhados da Faculdade
Durante a gravidez do Matias ganhei 25 quilos. Fiquei em casa cedo, de repouso por causa da questão cardíaca, comia que nem uma lontra e mal me mexia. Tenho zero arrependimentos sinceramente. Passei a gravidez tranquila nesse sentido, até porque sabia que depois dele nascer tinha tempo para recuperar o meu peso habitual - afinal, se há pessoa com jeito para fazer dieta sou eu, que até fiquei chanfrada à conta disso.

Uma semana depois do Matias nascer eu já tinha menos dez quilos. Sobravam quinze. Um ano depois do Matias nascer eu continuava com esses quilos a mais. Não estava preocupada, não estava motivada e, acima de tudo, não estava disponível. Sentia-me bem. Sentia que o meu corpo me tinha permitido ter uma gravidez de termo, fazer nascer o meu filho e tratar dele. Estava agradecida.

Em 2017, na festa de aniversário do Matias
Quando deixei de estar, fiz dieta. Em Dezembro de 2017 já estava novamente no meu peso habitual, a sentir-me bem e terrivelmente agradecida ao meu corpo por tudo o que me permite viver.

Em 2018, nas Bahamas
No ano passado o Pedro terminou a especialidade, e com isso vieram meses de estudo intensivo, rotinas baralhadas... E muitas refeições aldrabadas. Voltei a ganhar dez quilos... E depois engravidei novamente.

Na gravidez da Gabriela voltei a ganhar 20 quilos. Desta vez tive mais cuidado, mas também não posso dizer que tenha tido muito. Fiz o que quis e comi o que me apeteceu, e mais uma vez tenho zero arrependimentos. Passei a gravidez tranquila nesse sentido. Sabia que depois dela nascer tinha tempo para recuperar o meu peso habitual.

A Gabriela nasceu e eu tenho agora menos 10 quilos. Mas continuo com 20 quilos a mais em relação ao peso com que me sinto confortável. E ontem, quando a Célia mandou as provas da nossa sessão de fotos de Natal (estão amorosas mesmo, depois quando tiver a versão final mostro!), senti-me pronta para começar este percurso.

Há duas semanas e meia :D
Assim sendo, parece que vou passar uma parte de 2020 a fazer dieta. Mas isso sinceramente não me assusta. Há menos de um ano estávamos reunidos na minha cozinha quando bateu a meia-noite do dia 31 de Dezembro, e eu lembro-me de fechar os olhos e desejar com todas as minhas forças engravidar em 2019. Um ano depois, engravidei. Tenho uma filhota. E o ano passou a voar.

O meu corpo permitiu-me crescer, recuperar da anorexia, engravidar duas vezes e ter dois filhos lindos que amo com todas as minhas forças. Só tenho razões para o venerar e para lhe agradecer muito. Também tenho razões para o tratar como ele merece. Por isso, vamos a isto!

4 de dezembro de 2019

Mati e Gabi.

O Matias foi um bebé relativamente tranquilo. Teve ali uma fase entre as duas semanas e os dois meses em que chorava bastante entre as 21h e as 23h (o que frequentemente se acha que serão 'cólicas', mas que nós achávamos que era mais 'azeitanço'), e fora isso era um bebé-come-e-dorme. Como parecia dormir pior no nosso quarto (e nós claramente dormíamos mal com ele lá) passou para o quarto dele com um mês e passou a dormir relativamente bem. Com o tempo foi espaçando as mamadas e por volta dos cinco meses já dormia a noite toda (depois entre os sete e os onze bateu-lhe em cheio o surto de desenvolvimento do andar e acordava umas dez vezes durante a noite, mas quando isso passou voltou a dormir que nem um santo).

A Gabriela já é diferente. É adepta fervorosa de estar de goela aberta a berrar como se alguém a estivesse a matar (juro que penso que vou pôr a miúda nas aulas de canto o mais cedo possível, porque claramente resistência tem ela). Parece preferir o horário do berranço entre as 19h e as 2h, mas na verdade gosta de exercitar as cordas vocais a qualquer altura. Durante horas e horas seguidas.

Eu sempre fui relativamente imune aos choros, quase ali a roçar a psicopatia. Não me faz confusão nenhuma, não me importo, fico como se nada fosse. Conseguia fazer 16h de urgência de pediatria na maior sem ficar com os ouvidos cansados, adormecia naqueles voos tenebrosos em que os bebés choram o tempo inteiro e nunca entrei em pânico quando o Matias chorava. E depois chegou a nossa cantora.

Modéstia à parte, continuo a não entrar em pânico. Mas isso acontece porque claramente não há rigorosamente nada que possamos fazer: quando a Gabriela decide chorar nada a convence a fechar aquela matraca, nem colo, nem leite, nem chucha, nem orações a Deus Nosso Senhor. Por isso resta-nos aguentar, fantasiar com todas as formas de vingança (pessoalmente já tenho gravações do choro dela e planeio pô-las a dar às sete da manhã quando ela for adolescente) e aproveitar o silêncio enquanto ele dura. E torcer para que, tal como aconteceu com o Matias, também isto seja só uma fase.

Matias com um dia
Gabriela com um dia
Matias com quatro dias
Gabriela com quatro dias
Cinco dias
Cinco dias (claramente mais investimento nos outfits agora, isto realmente é um prolongamento narcísico)
Matias com duas semanas
Gabriela com duas semanas (não se iludam pelas fotos sempre a dormir, isso acontece porque quando a cachopa está acordada está praticamente sempre a chorar!)

2 de dezembro de 2019

A aguinha do cu lavado, parte 2.

Lembram-se de quando a minha avó (sim, foi a minha avó!) tentou dar água do banho ao Matias, dizendo que 'a aguinha do cu lavado torna um filho bem-comportado'?

Depois das considerações que conto nessa publicação, surgiram inúmeras. O menino não podia ver-se ao espelho até ter um ano senão qualquer-coisa-que-não-me-recordo, coitadinho do menino que bebe o leitinho frio e isso faz-lhe mal por razões, o menino está sempre muito magrinho e por aí fora.

Mas desde que nasceu a Gabriela temos um conjunto novo de avisos, e temos achado imensa graça a isto. Vejamos:

(Quando comentei que a miúda é chorona): 'A menina chora porque tem dores porque as meninas tomam as dores das mães. Se a mãe não tem dores, tem a filha.'

(Quando disse que ia deixar de amamentar): 'Tens é de ter cuidado por causa do teu peito. Olha quando foi da tua mãe pus dois raminhos de salsa debaixo dos braços para me secar o leite e resulta!'

(Quando me queixei que a Gabi dorme que nem uma morta durante o dia e chora que nem uma desesperada durante a noite): 'Está com os sonos trocados! Quem sabia uma oração mesmo boa para isso era a minha madrinha. Ias para um cruzamento, andavas no sentido dos ponteiros do relógio e dizias aquela oraçãozinha e resultava mesmo! Que pena que a minha madrinha já não está cá...' (aposto que depois disto a minha avó foi perguntar a todas as velhinhas de Leça da Palmeira se conhecem a dita oração) (por acaso não conhecem? Sei lá, mal não faz!) :D

(Quando conto o que vamos fazendo durante o dia): 'Não podes sair de casa Joaninha! Estás no resguardo filha! Ainda nem tens um mês de parto e já andas a passear?'

(Estava a dizer que ia lavar roupa): 'Não dês roupa tua do resguardo para ninguém lavar Joaninha! Conheço quem tenha recebido muito mal por ter dado essa roupa a lavar, olha o mau-olhado!'

E isso sem falar na preferida 'E quando é que baptizas essas crianças Joaninha? Ai coitadinhas dessas alminhas que não entram no céu' :D

Nós achamos imensa graça a isto, confesso, até porque a minha avó não é nada invasiva com estas coisas e diz isto porque gosta de nós, gosta de cuidar e fica preocupada. E pronto, é engraçado e não ficamos nada ofendidos :)

Duas semanas de Gabriela.

Por aqui as rotinas já estão mais instaladas. A Gabriela gosta de dormir, de comer, de estar ao colinho... E de chorar. Às vezes chora porque tem sono, outras porque tem fome, outras porque tem dores de barriga... Mas no geral, gosta de abrir a goela e berrar porque sim. Diva da mamã.

Nós já andamos menos desnorteados. Sabem, às vezes o optimismo que reina nesta casa é um bocadinho chato. Sempre que a malta faz os avisos assombrados do costume * parir é tão maaaaaaau, a maternidade é horríííííível, ter dois filhos é pééééssimo * eu tendo a achar que é tudo um grande exagero. Estava convencidíssima que ter dois filhos ia ser tranquilo e que íamos orientar-nos como sempre fazemos... Mas olhem, realmente é difícil. É óptimo e lindo e ver o Matias a interagir com a irmã enche-nos o coração de alegria, mas também é chato e tremendamente cansativo. Por outro lado, sei que preparar-nos para o pior também não ia acrescentar grande coisa às nossas vidas e que é tudo uma questão de adaptação. Sinto que já tudo flui com mais naturalidade do que na semana passada, e sei que irá correr ainda melhor daqui a um mês. Só é preciso ter calma e ir rezando aos santinhos :D

Também sinto que emocionalmente não estou tão histérica como no pós-parto do Matias (o que é curioso, porque fisicamente estou impecável). Não consigo descansar tanto, e talvez por isso noto que ando mais irritada e chorona. Quando deitamos os miúdos (ela deita-se às 19h e ele às 20h) só me apetece ir dormir também (e muitas vezes até vou) e sinto que estou com pouca paciência para pessoas no geral. Por outro lado, e para diminuir esta vontade de me atirar da ponte, já comecei a planear a festa de aniversário do Matias (tema decidido por ele: o Toy Story), as nossas próximas férias (ideia mais forte até agora: o México) e até ando a pensar em fazer uma festa temática para o meu aniversário daqui a um mês (também tenho direito!).

E pronto, vamos lá a mais uma semana :)

1 de dezembro de 2019

Vinculação obrigatória no SNS para os médicos.

Agora que passo horas a dar colo de madrugada iluminada pelas luzinhas da árvore de Natal (tão bom #not) tenho aproveitado para ler notícias, e invariavelmente deparo-me com notícias sobre questões médicas com comentários de malta. E reparei numa questão: agora a malta parece ter deixado de comentar que somos chulos e incompetentes ou que se devia 'baixar as médias', para dizer que devíamos ser obrigados a vincular-nos ao SNS depois do fim da especialidade.

Os argumentos são essencialmente dois: o nosso curso custa dinheiro aos contribuintes e a nossa formação também.

Ora, vamos lá pensar. Será que o curso de medicina custa mais dinheiro ao Estado do que os outros?

Anda por aí a circular uma imagem sobre o custo dos cursos, que conclui que as engenharias e até a medicina dentária são mais caras para o Estado do que os cursos de medicina. Eu não sei se isto é verdade ou não, mas tendo passado por ele sinceramente não sei bem onde é que o Estado gasta dinheiro. Nos anos teóricos os nossos professores não recebem nada de especial e na sua grande maioria até continuam a exercer em paralelo (ou seja, não me recordo de ninguém que fosse 'só' professor). Também funcionamos muito por 'monitores', ou seja, alunos mais velhos que são convidados a dar aulas (e que, do que me recordo, não ganham dinheiro por isso). Nos anos práticos vamos para os hospitais, os nossos tutores também não são pagos e o nosso treino é feito (lamento informar) nos doentes. As aulas são-nos dadas por outros médicos que o fazem pelo gosto de ensinar, e pronto. Todos pagamos propinas (seis anos delas, na verdade), e juro que não me ocorre onde é que o curso de medicina possa ser mais caro do que outro curso teórico qualquer (porque sim, temos um curso extremamente teórico).

Resultado de imagem para curso de medicina não é o mais caro

Eu não sei se a minha formação custou mais ao Estado do que a formação do meu irmão, que é engenheiro aeroespacial. Mas sei uma coisa: eu estou a dar sete anos de trabalho ao Estado durante a minha especialização, e o meu irmão vai sair do curso directo para uma empresa privada. E se acham que a minha especialização custa dinheiro ao Estado, atentem:

* No meu serviço há mais internos do que especialistas. Cada interno recebe exactamente o mesmo número de primeiras consultas por semana do que um especialista, faz as mesmas horas de urgência e trabalha mais de 40h.

* Os nossos tutores não recebem dinheiro para nos formarem (à excepção de uns modelos específicos do centro de saúde) e muitas vezes não perdem tempo de consulta para isso. Nós também formamos outros internos que assistem às nossas consultas (bem como alunos da faculdade), e não recebemos dinheiro por isso. É uma cena do Juramento de Hipócrates, ensinar a arte aos colegas e tal.

* Os congressos e cursos são pagos do nosso bolso e muitas vezes custam centenas de euros. Já paguei 600 euros para ir a congressos, já paguei 300, o valor normal para um congresso internacional anda por aí. Há quem consiga ter estes congressos pagos pelas farmacêuticas, mas é cada vez mais raro (e na minha especialidade simplesmente não acontece).

Ou seja, eu produzo. Também recebo por isso. O meu ordenado varia com os meses, mas diria que em média anda pelos 1900€ de salário bruto e 1400€ de salário líquido. Ou seja, todos os meses desconto 500€ de impostos. Nada contra, e já escrevi aqui várias vezes que até nem me importava de pagar mais impostos se isso fosse garantia de termos sistemas de educação e de saúde bons e acessíveis para todos. Também não me queixo do quanto recebo: quando comecei a trabalhar ganhava 1100€, agora ganho um bocadinho mais, não conheço outra realidade. Não preciso de contar dinheiro para chegar ao fim do mês, por isso já estou em vantagem em relação a muita gente.

Agora, também não sinto que deva mais ao Estado do que um advogado ou um professor. Acho muito bom viver num país que me permitiu estudar e ter um mestrado sem estar enterrada em dívidas, mas não sinto que tive mais sorte do que um estudante de engenharia ou de direito. E na verdade vinculada ao Estado já eu estou, não há outra forma de fazer o internato.

Obrigar a malta à vinculação é, sinceramente, tontinho. Há uns anos havia umas vagas de especialidade protocoladas que basicamente 'obrigavam' as pessoas a ficarem em hospitais mais pequenos. Resumidamente funcionava assim: o Hospital de (por exemplo) Évora abria uma vaga porque precisava de uma determinada especialidade, mas não tinha capacidades para formar aquele interno. Vai daí, tinha um acordo com um hospital maior (por exemplo, em Lisboa), que formava o interno. Durante os anos do internato aquele interno ganhava mais dinheiro (porque se assumia que tinha de se deslocar para outra área), e no fim era obrigado a vincular-se ao hospital de origem ou a devolver o dinheiro. E adivinhem só qual era a opção da maioria das pessoas, que saíam da especialidade com mais de trinta anos, depois de viverem uns anos num sítio grande e terem lá parceiros, filhos, casas e por aí fora? Pois. Não quer dizer que não haja malta que volte, atenção. Mas não são claramente a maioria.

Não sei mesmo qual será a forma mais rápida e eficaz de cativar colegas para o SNS, porque acho que já estamos longe da fase em que pagar mais ao pessoal resultava. Mas não é certamente obrigando-os, até porque num Estado de direito isto não faz qualquer sentido.

30 de novembro de 2019

Coisas variadas que me ajudam a manter a sanidade mental no pós-parto.

Acho que é uma verdade universalmente conhecida que o pós-parto não é fácil. Mesmo para quem tem sorte de ficar impecável depois do parto (o meu caso), é sempre uma fase de adaptação a novas rotinas, com as hormonas todas baralhadas, um bebé completamente dependente (e no nosso caso mais uma criança cheia de energia), muitas questões para gerir... E a privação de sono.

Ah, a privação de sono. A sério, tinha reprimido por completo estas memórias do Matias recém-nascido sob uma camada de 'pois, mas ele sempre dormiu bem'. Mentiras, claro. É um facto que o Matias dorme bem, mas quando nasceu era um bebé como outro qualquer que acordava de duas em duas ou de três em três horas.

A menina da canção é igual. Nasceu a acordar de duas em duas horas durante a noite, agora já tem feito três e nestas últimas duas noites até fez quatro horas de intervalo (Deus é grande!). Mas é difícil, juro. Não sei se é efectivamente mais difícil ou se eu é que não recordava do quão difícil era, mas sinceramente acho que as minhas expectativas estavam um-bocadinho-para-o-inflaccionadas.

Vai daí, decidi fazer uma lista das coisas que sinto que me têm ajudado nesta fase, para a Joana do futuro que daqui a três anos vai reprimir outra vez tudo (gravidez incluída) e querer ter mais filhos.

Joana do futuro, aqui vai: quando sentires que é mais difícil, não é. Quando achares que não vai melhorar, vai. Quando não souberes o que fazer, lê o que te ajudou desta vez.

Novembro.

Este mês de Novembro trouxe consigo uma nova mudança: o nascimento da nossa Gabriela, a menina da canção, a diva chorona, a carinha de bolacha Maria. Passámos de ter um filho para ter dois, com todas as mudanças que isso traz. Estamos extremamente felizes, embora cansados e por vezes um bocadinho assoberbados. Mas sabemos que a partir de agora todos os meses de Novembro serão especiais, porque vão marcar o aniversário da altura em que a nossa Gabi entrou nas nossas vidas :D

O mês começou com o rescaldo do Halloween. O Matias foi a bruxinha mais querida de sempre, fomos pela primeira vez fazer o trick or treat e divertimo-nos imenso. No dia seguinte fizemos as decorações de Natal a três e também foi uma diversão pegada :D Ainda no primeiro fim-de-semana fomos à KidZania pela primeira vez, mas claramente temos de voltar quando o Matias for mais crescido (e eu não estiver mega grávida). 

Tantos doces :D

27 de novembro de 2019

Público versus privado (a minha experiência).

Na gravidez do Matias fui inicialmente seguida por um colega super famoso no meu hospital. Eventualmente achei que as coisas não estavam a correr muito bem (há a tendência para relativizar um bocado os seguimentos dos colegas, com muitas consultas 'de corredor') e passei a ser seguida só no centro de saúde. A dada altura a minha médica de família disse que não se sentia confortável a seguir-me sozinha por causa da questão cardíaca, e comecei a ser seguida por uma obstetra no Hospital da Luz que foi recomendada pela minha amiga Joana (interna de obstetrícia).

Nunca houve propriamente grande empatia com esta colega, até porque não havia muito para fazer: eu tinha uma relação muito fixe com a minha médica de família e com as enfermeiras do centro de saúde, era acompanhada pela cardiologista e já sabia que o meu parto ia ser feito pela minha amiga, por isso sentia que a obstetra estava ali um bocadinho 'a mais'.

O Matias nasceu no Hospital Garcia de Orta. Não tenho qualquer razão de queixa do hospital, muito pelo contrário: fui bem recebida e bem tratada (e ninguém sabia que eu era médica ou amiga da Joana) e as enfermeiras do bloco de partos eram fantásticas (embora demorassem algum tempo a darem os reforços da epidural, mas na verdade tudo parece interminável quando estamos com dores). O meu parto correu lindamente e tive imenso apoio nas primeiras horas (uma das enfermeiras até ficou do lado de fora da banheira e depois ajudou-me a vestir). Fiquei num quarto partilhado com mais duas pessoas e a única chatice era o facto dos miúdos delas chorarem (o Matias não chorava porque já estava para lá de Bagdad, mas eu não sabia ainda). Não havia muito espaço para as minhas coisas, mas também achei pouco importante.

A minha única queixa foi mesmo o pouco apoio que tive em relação à amamentação. De dia as coisas ainda iam correndo, com os filmes do costume: espreme mamilo para ver se sai colostro, diz à mãe 'não faça essa cara de dor porque o seu filho sente', esmaga mama e enfia na boca do bebé, diz que bebé tem fome, diz que bebé não tem fome, diz que bebé tem de ser acordado, diz que bebé não pode ser acordado, diz que bebé tem de ser aspirado, diz que bebé está enjoado e por aí fora. Mas à noite as coisas pioravam consideravelmente: sempre que eu chamava (que era basicamente em todas as mamadas porque era uma naba gigante) lá vinha uma senhora auxiliar com cara de frete, despachava-me em três tempos (e mal) e pronto, eu ficava na mesma (nada contra caras de frete à noite, possivelmente eu própria faço caras de frete à noite, mas acho que tento ser simpática e prestável, até porque se for eficaz é mais provável que aquela pessoa fique satisfeita e desampare a loja). Ninguém pesou o Mati à saída (se pesassem nunca teríamos tido alta) e depois foi a trapalhada que já toda a gente está farta de ler.

Desta vez as circunstâncias eram diferentes.

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