24.10.14

Mousse de chocolate paleo (sem açúcar) para uma vilã dos filmes :D

I cheated myself like I knew I would.
I told you, I was trouble, you know that I'm no good.

Amy Winehouse


Adoro ter a casa cheia de amigos. Seja para lanchar ou para jantar, para encomendar umas pizzas ou para eu fazer um dos meus jantares temáticos rebuscados, para celebrar um acontecimento especial ou para passar horas a aparvalhar, tudo é válido quando queremos estar com aqueles de quem gostamos.

Ao longo do tempo tive de aprender a lidar com as especificidades alimentares dos meus amigos, e na hora de organizar jantares é preciso pensar em alternativas para quem não come carne, peixe, ovos, soja, chocolate, feijão, tomate, picante, natas, cebola, manga, coco ou frutos secos. Não é fácil, mas seguramente que não é impossível: basta ter um acompanhamento consensual, uma sobremesa de limão ou frutos vermelhos e Bongo de oito frutos e garanto que ninguém fica com fome.

Apesar disso, confesso que foi verdadeiramente refrescante ser a minha vez de ficar esquisitinha.


A meio da nossa paleo week a Joana e o Bernardo vieram jantar cá a casa. Avisei-os logo que o jantar seria paleo e que não esperassem propriamente folhadinhos de alheira ou sobremesas decadentes, e eles lá aceitaram contrariados as minhas condições.

O jantar foi Boeuf Bourguignon (sempre um êxito) acompanhado de uma bela salada. E na hora da sobremesa decidi pregar-lhes uma partida. Retirei do frigorífico a mousse paleo extremamente gulosa (mas saudável) que tinha feito, e logo o Bernardo disse:

'Para paleo nem tem mau aspecto.'

Eu retorqui:

'Isso é porque não é paleo. Inicialmente fiz uma mousse paleo, mas ficou tão horrível que foi para o lixo e depois fiz a nossa receita de mousse normal. Foi exactamente como daquela vez em que tentei fazer mousse de chocolate saudável só com abacate, cacau e mel (inserir aqui longa história sobre este episódio deprimente da minha aprendizagem culinária).'


O isco estava lançado, por isso restou-me esperar e esconder o nervosismo. E tanto a Joana como o Bernardo caíram direitinhos na armadilha.

Eu disse-vos que era maquiavélica.


Seguiram-se vários 'mmmmm' e a garantia de que a mousse estava deliciosa, intensa e docinha q.b. E depois eu fiz o meu ar triunfante e exclamei orgulhosa:

'É uma mousse paleo!'.

Muahuahuahuah. Acho que tinha jeito para ser vilã dos filmes.


Pois é, esta mousse foi tão gabada que só consegui surripiar um bocadinho para poder fotografar no dia seguinte. E foi um remate perfeito para um jantar deliciosamente saudável.

Nessa noite ficou decidido que esta receita de mousse iria a partir de agora substituir a nossa tradicional mousse de chocolate do Natal. Talvez nessa altura volte a fotografá-la. Ou, como sou maquiavélica, talvez a coma toda de seguida.

Afinal, ser vilã tem de ter as suas vantagens :D


Mousse de chocolate paleo
(outra receita não paleo aqui)

Ingredientes (para quatro copinhos):

* 200g de chocolate negro com 70% de cacau e sem adição de açúcar (comprei da marca Continente);
* Quatro colheres de sopa de manteiga;
* Duas colheres de sopa de mel;
* Cinco ovos;
* Uma colher de chá de tequila.

Confecção:

* Derreter o chocolate com a manteiga no microondas;

* Bater as gemas com o mel e juntar lentamente o chocolate derretido;

* Bater as claras em castelo e juntá-las ao preparado anterior, mexendo sempre de cima para baixo bem devagar;

* Juntar a tequila (em alternativa podem usar rum, café, raspa de laranja, coco ralado ou canela);

* Levar ao frigorífico durante algumas horas antes de servir.



Que tal experimentarem esta receita no fim-de-semana? :D

23.10.14

A dieta paleo vai ao nutricionista... Por Maria João Fialho (Guest Post)

Olá! Eu sou a Maria João, sou nutricionista e com base na minha formação a Joana pediu-me para vos dar a minha opinião informada sobre a dieta do paleolítico.

Antes de mais devo esclarecer que não sou uma especialista neste tipo de dieta e não sou apologista da sua utilização - especialmente para fins de emagrecimento -, uma vez que não é uma dieta apropriada para toda a população (como por exemplo grávidas, diabéticos, doentes renais, entre outros).

Pelas minhas pesquisas fiquei a perceber que a base da dieta paleo é a ingestão de carne e peixe à vontade, frutas, frutos secos e raízes. Se falarmos em nutrientes a dieta é adequada, pois todos os nutrientes essenciais estão presentes, como as proteínas e gorduras na carne e peixe e os hidratos de carbono complexos nas raízes e simples nas frutas.

Vou já dar a minha opinião do ponto de vista nutricional e talvez umas recomendações para quem faz este tipo de dieta.

* Relativamente à carne e peixe, não existia no paleolítico a criação de gado ou viveiros, por isso a procura de alimento promovia um dispêndio de energia brutal que tinha que ser compensado com elevadas quantidades de proteína e gordura - uma realidade bem diferente da de hoje em dia e que não se enquadra nas recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde). A única recomendação que faço é para darem preferência às carnes magras e peixe e restringirem a carne vermelha a duas a três vezes por semana devido à gordura saturada associada.

http://cdn1.sph.harvard.edu/wp-content/uploads/sites/30/2013/04/HEPApr2013-1024x800.jpg

* Alerto para o consumo excessivo de fruta, pois alguma frutas têm um índice glicémico elevado e o seu consumo deve ser moderado. Recomendo também que o seu consumo seja o mais variado possível para que não haja défices de vitaminas.

http://www.2ndacthealth.com/wp-content/uploads/2012/05/Fruit-Nutrition.png

* Na era do paleolítico não existia agricultura, por isso o acesso a hortícolas como a couve e a alface que consumimos no nosso quotidiano não era possível, mais não seja devido ao seu consumo por parte dos herbívoros. No entanto, eu defendo o consumo regular e variado de hortícolas.

* Penso que do ponto de vista nutricional só faz sentido restringir as farinhas refinadas e não todos os cereais e farinhas, pois esse processo elimina todas as propriedades nutricionalmente interessantes e protetoras desses alimentos (como as fibras e gorduras insaturadas).

 http://realfoodandrealfitness.com/wp-content/uploads/2014/02/grains.gif

* Relativamente às gorduras, o azeite é a gordura de eleição, embora não existisse no paleolítico. As gorduras provinham essencialmente do peixe e da carne, sendo que a gordura da carne é saturada e o seu consumo como já referi deve ser leve a moderado. Se não utilizarem gorduras refinadas para tempero e confeção, uma boa opção são os frutos secos e sementes para atingir as doses recomendadas.

No entanto, a minha opinião é de que esta dieta não se adequa à realidade dos tempos de hoje. Durante a era do paleolítico o homem era um caçador-coletor, e embora já tivesse descoberto o fogo não há evidências de que o utilizava para cozinhar - por isso quem faz esta dieta de forma restrita deveria ingerir alimentos crus e evitar alimentos que tenham sofrido processos industriais como o azeite, os óleos alimentares, o sal, entre outros alimentos em que a confecção é benéfica pois permite a melhor absorção de alguns nutrientes.

Eu penso que hoje em dia existem outras 'dietas' que são nutricionalmente equilibradas e atingem os mesmos objetivos da dieta do paleolítico: consumir os alimentos da forma mais natural possível, sem aditivos e sem processos industriais. Não sou uma defensora, mas se esse é um dos motivos então a dieta macrobiótica e a dieta alcalina são uma boa opção.

http://www.informedmeateater.com/wp-content/uploads/2013/10/macrobiotic-diet-chart.jpg

Maria João Fialho é licenciada em Ciências da Nutrição pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa e encontra-se actualmente a frequentar o Mestrado em Biotecnologia e Inovação. Dá consultas na VilarClínic e na Casablanca, em Vila Nova de Gaia.

Bolachas de Nutella paleo (sem açúcar) para um dia feliz! :)

Happiness hit her like a train on a track.
Coming towards her, stuck still no turning back.
She hid around corners and she hid under beds,
She killed it with kisses and from it she fled.
With every bubble she sank with her drink
And washed it away down the kitchen sink.

The dog days are over, the dog days are done.
The horses are coming so you better run.

Florence + The Machine


Há dias que passam a voar.

Há dias em que acordo às 7.30h, saio de casa às 8.00h, chego ao trabalho às 8.30h, saio do trabalho às 18.30h, chego a casa às 19.00h, adianto o jantar, saio para a aula de canto às 20.00h, volto às 21.00h, janto, namoro um bocadinho e às 23h já estou na cama estourada.

Há dias em que a vida se resume a comer, dormir e trabalhar (e a questionar-me como é que vou conseguir manter este ritmo de vida quando tiver filhos).


Mas depois há dias em que acordo às 7.30h, saio de casa às 8.00h, chego ao trabalho às 8.30h, saio do trabalho às 16.30h, chego a casa às 17.00h e faço umas bolachinhas de Nutella rápidas, saudáveis e deliciosas para o lanche. Depois faço uma caneca de chá reconfortante e sento-me no sofá coberta com a minha mantinha de Natal nova.


Há dias em que as horas parecem não passar. E ali estou eu, completamente relaxada, irremediavelmente feliz, a ver os minutos mudarem lentamente. Leio, respondo a mails, ponho o blog em dia, actualizo-me, vejo séries, vou correr, tomo um longo banho cheio de espuma e visto um pijama quentinho.


No que parecem ser mil horas depois faço um jantar caprichado, janto com o meu marido, namoro um bocadinho, como mais uma bolachinha e às 23h já estou na cama. Mas agora, em vez de estourada, estou simplesmente satisfeita.

Há dias em que a vida se resume a comer, dormir, trabalhar e ser muito, muito feliz. E são esses dias que valem mesmo a pena.


Bolachas de Nutella paleo (sem açúcar)

Ingredientes (para dez bolachas):

* Três colheres de sopa bem generosas de Nutella (receita aqui);
* Um ovo;
* Uma chávena de chá de farinha de amêndoa (amêndoa moída);
* Pepitas de chocolate (opcional, eu usei da Vahiné).

Confecção:

* Misturar todos os ingredientes;

* Amassar bem com as mãos até obter uma massa homogénea;

* Juntar mais farinha de amêndoa, se necessário;

* Formar bolinhas, espalmar um pouco e colocar num tabuleiro forrado com papel vegetal;

* Colocar no forno pré-aquecido a 180ºC durante doze minutos;

* Retirar e deixar arrefecer sobre uma grade.




Até amanhã! :D

22.10.14

Workshop 'Queques que enchem o Natal' :)

Conto convosco para este workshop delicioso no Porto? :D


Até amanhã :D

A dieta paleo e o acne... Por Pedro Rodrigues (Guest Post)

Há mais de uma década que faço tratamentos médicos para o acne e a dermite seborreica apenas com sucesso temporário. Embora a terapêutica de carga com antibióticos como a minociclina tenha geralmente resultados francamente bons, a verdade é que mal inicio o tratamento de manutenção com cremes e champôs os sintomas voltam a aparecer rapidamente.

Um dia decidi ir ao Pubmed (um dos principais sites de artigos médicos) pesquisar quais eram as últimas recomendações a nível do tratamento do acne. E o que descobri não foi particularmente animador.

Em primeiro lugar, embora a minociclina continue a ser na prática usada como primeira linha no tratamento do acne, a sua toma é desaconselhada de forma crónica porque ao longo das últimas décadas têm vindo a ser detectados casos de resistência aos antibióticos nas bactérias causadoras de acne (Propionibacterium acnes) e noutras bactérias mais perigosas (ora bolas!).

Em segundo lugar, e bastante assustador: o acne tem sido apontado como potencial marcador de risco cardiovascular.

Como se pode ver neste artigo, o acne foi associado a dois hábitos dietéticos: o aumento da carga glicémica (calculada a partir da quantidade de hidratos de carbono e do seu índice glicémico) e dos lacticínios insulinotrópicos (isto é, estimuladores da produção de insulina).


Neste artigo os autores apresentam algumas das possíveis explicações moleculares para este fenómeno, às quais eu vos vou poupar. Depois apresentam um conceito a que chamam os 'Milk Giants', aqui abreviados como MG. Os MG são os seguidores da dieta ocidental (nós, portanto) e caracterizam-se por:

* Maior altura;
* Maior IMC;
* Maior frequência de miopia de início juvenil;
* Maior resistência à insulina;
* Maior incidência de diabetes do tipo 2.
* Maior incidência de síndrome metabólica (obesidade, hipertensão, aumento do colesterol e triglicéridos, esteatose hepática, entre outros).

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Em contraponto, indivíduos de tribos que consomem uma dieta do tipo paleolítico (sem cereais ou lacticínios) parecem não ter as características supracitadas dos MG. Foi aqui que comecei a interessar-me pela 'dieta paleolítica' e decidi estudar mais sobre o tema. 

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A partir de 2010 começaram a aparecer artigos relacionando o acne com a dieta, ligando-o não a alimentos específicos (como antes se pensava) mas antes a 'tendências' alimentares. Actualmente a dieta com alta carga glicémica e com consumo de lacticínios (em particular o leite) parece já ser aceite como um factor a ter em conta (não necessariamente causal) no aparecimento e agravamento do acne.

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No sentido de descobrir mais sobre o assunto comecei a fazer pesquisas mais específicas, sempre relacionando com o efeito no acne. É claro que há estudos sobre os efeitos deste tipo de dieta em várias entidades diferentes, mas não era esse, pelo menos de momento, o meu objectivo.

A ligação entre a insulina e o acne parece ser confirmada por esta revisão, concomitantemente com a relação do acne com a hormona de crescimento (influenciada, teorizam os autores, pelos componentes do leite). Deparei-me também com este artigo, que discute as vantagens de dietas muito pobres em hidratos de carbono (<50g por dia).  Mais uma vez o acne está na lista de condições com potencial melhoria com a adopção desta dieta.

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É claro que estes dados ainda não são absolutos, seja porque se tratam de estudos pequenos como este - que mostra a diminuição do acne após dez semanas de dieta pobre em hidratos de carbono - ou porque são estudo restrospectivos (isto é, baseados em dados colhidos anteriormente e com outros objectivos que não esta pesquisa).

Em conclusão, citando este extenso artigo de revisão:

* Nos últimos quarenta anos foram feitos múltiplos estudos sobre a influência da dieta na patogénese do acne. Falta, contudo, a publicação de um estudo intervencionista, aleatorizado, duplo cego, com um grupo de controlo.

* Como ponto de partida, há uma tendência para estudar populações não ocidentalizadas visto estas não terem acne. A sua dieta não inclui alimentos processados, lacticínios, açúcares e óleos refinados e é essencialmente constituída por frutas, vegetais, carne e peixe.

* Os estudos apontam para o aparecimento do acne após a adopção da dieta ocidental nestas populações, eliminando a etnia como o único factor importante da etiologia e reforçando a hipótese da relação dieta-acne.


Fazer estudos científicos credíveis na área da nutrição é extremamente difícil. Idealmente, são precisas centenas ou milhares de pessoas, a seguir estritamente uma determinada dieta e um determinado programa de exercícios (para não ser um factor de confundimento) durante anos ou mesmo décadas. Sem estas características é difícil afirmar peremptoriamente que uma determinada dieta tem ou não benefícios.

No entanto, a verdade é que a pirâmide dos alimentos clássica tem vindo a sofrer alterações consecutivas e a aproximar-se, até certo ponto, das características da alimentação paleo, com a recomendação do aumento do consumo de gorduras e da diminuição do consumo dos produtos lácteos (bem como da ingestão de hidratos de carbono refinados).


Passando à minha experiência em particular durante estas já três semanas de dieta:

Esta não é uma dieta particularmente fácil de seguir. Se por um lado a ideia de comer carne à vontade e ovos ao pequeno-almoço me agrada, por outro eu sempre adorei hidratos de carbono - não necessariamente os doces, mas o pão, o arroz e a massa.

Se eu tivesse fome, coisa que acontecia com alguma frequência, era só fazer um pão com queijo ou uma taça de cereais e o problema ficava resolvido (o que para alguém preguiçoso como eu era perfeito). Esta dieta não me permite fazer isso. Tenho de ter algum planeamento para não ser apanhado desprevenido sem nada para comer (os frutos secos dão-me uma grande ajuda nisso) e tenho de me dar ao trabalho de preparar e planear as refeições com algum cuidado. Uma seca!

Não sinto que tenha ficado com menos ou mais energia e o meu peso manteve-se até agora estável. A nível do acne notei uma grande melhoria na primeira semana. Contudo, concluo agora que foi pura coincidência porque de momento estou absolutamente na mesma. No entanto, tendo em conta que habitualmente se considera que o tratamento do acne (mesmo com comprimidos) demora cerca de seis semanas, essa questão ainda não é particularmente conclusiva.

Só me resta continuar esta experiência por mais algum tempo e pensar que mesmo que não obtenha resultados ao nível do acne ando a fugir dos alimentos processados (que são maus com toda a certeza). It's something!


Pedro Rodrigues tem o mestrado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Está actualmente a integrar o ano comum do internato médico. Encontra-se na terceira semana de dieta paleo e começa a notar algumas mudanças consistentes no seu acne.

Chips de maçã para 'A' dúvida.

Não consigo dominar este estado de ansiedade.
A pressa de chegar para não chegar tarde.
Não sei de que é que eu fujo, será desta solidão?
Mas porque é que eu recuso quem quer dar-me a mão?

Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar,
Porque até aqui eu só quero quem quem eu nunca vi.
Porque eu só quero quem quem não conheci.

António Variações


A consulta começa. Estou no centro de saúde a fazer os três meses de medicina geral e familiar incluídos no meu ano comum do internato médico.

O doente senta-se e olha para mim com um ar inquisitivo, certamente a perguntar-se se terei idade suficiente para ser médica ou se serei um qualquer prodígio da ciência que terminou o curso aos dezoito anos. Olho para o processo e vejo que o senhor é acompanhado pela minha tutora desde 1987. Eu nem sequer tinha nascido e a minha tutora já era médica de família.

O barulho das gotas de chuva que batem contra a janela do gabinete distrai-me. Que horas serão? Quantos doentes faltarão?


Olho em volta e penso como deve ser recompensante ser a médica de família de alguém durante trinta anos. Como deve ser bom assistir do gabinete aos casamentos, aos nascimentos dos filhos e às vitórias pessoais, como uma espécie de anjo da guarda de bata. Como deve ser comovente tratar famílias inteiras, conhecer bem as pessoas e saber as suas histórias e ter o consultório cheio de fotografias dos bebés cujas gravidezes segui.

No hospital é diferente. No hospital não terei um gabinete meu, e o objectivo será dar alta ao doente na primeira segunda ou na terceira consulta. No hospital terei dez ou quinze minutos para cada pessoa e não haverá tempo para histórias. No hospital não serei 'a doutora nome-e-apelido que já me acompanha há uma data de anos e que tem dois filhos e vive ali ao lado do Modelo' mas sim 'aquela médica que anda sempre de bandelete, ai, agora não me lembra o nome dela, também só estou com ela de meio em meio ano'.

No hospital é diferente, mas é lá que tenho que trabalhar se quero ser psiquiatra. E a pouco mais de um mês da escolha continuo perdida e assustada.

Qual é o meu caminho? O que é melhor para mim? Não sei.

Não sei. E tenho muito medo.

E para quem sempre teve a mania que sabia tudo, sentir-me assim é uma grande caca.


Esta insatisfação, não consigo compreender,
Sempre esta sensação que estou a perder.
Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar
Vontade de partir para outro lugar.

Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar,
Porque até aqui eu só estou bem aonde eu não estou,
Porque eu só quero ir aonde eu não vou.

António Variações


A consulta acabou, o doente sai do gabinete. A minha tutora levanta-se e começa a beber um iogurte, eu abro a caixinha que tenho no bolso e começo a mordiscar as minhas chips de maçã com um ar pensativo.

A pouco mais de um mês da escolha eu continuo indecisa entre a psiquiatria e a medicina geral e familiar. Longe de me deixar mais esclarecida, este ano só me deixou ainda mais confusa.


Eventualmente terei que decidir e tudo ficará resolvido. No hospital ou no centro de saúde, em psiquiatria ou em medicina geral e familiar, sei que vou apaixonar-me todos os dias por aquilo que faço. Enquanto esse dia não chega só me resta ouvir o barulho das gotas de chuva que batem contra a janela do gabinete e mordiscar as minhas chips de maçã com um ar pensativo.

Tudo ficará bem.


Chips de maçã

Ingredientes:

* Três maçãs Pink Lady (ou outras);
* Três maçãs Granny Smith (ou outras);
* Canela em pó (opcional).

Confecção:

* Lavar as maçãs e cortá-las em rodelas finas com uma faca ou um utensílio próprio;

* Colocar as fatias de maçã em vários tabuleiros cobertos com papel vegetal;

* Polvilhar com a canela em pó;

* Levar ao forno previamente aquecido a 120º e com a ventoinha ligada durante uma hora e meia;

* Deixar arrefecer completamente e guardar numa caixa hermética.

* Em alternativa podem fazer as chips de maçã na Actifry - eu fiz metade delas e é bem mais rápido, embora fiquei menos bonitas :)

Até amanhã! :D

21.10.14

Paleo para totós... Por Francisco Silva (Guest Post)

Em primeiro lugar, devo dizer que ainda não percebi exatamente porque é que a Joana me convidou a escrever aqui neste espaço. Na verdade não sou especialista de nada, não sou nutricionista nem médico, não sou chef de cozinha nem blogger. Também por isso, peço desde já desculpa se cometer, durante este texto, alguma imprecisão medico-científica, mas estou ainda a aprender.

Há cerca de dez meses fiz a 'Dieta dos 31 dias' e perdi oito quilos. Nessa altura percebi rapidamente que não é boa ideia focar a nossa atenção apenas na perda de peso - se não há resultados imediatos (e estes são difíceis de conseguir) o mais certo é desanimar e desistir. O objetivo principal tem que ser melhorar a nossa saúde e qualidade de vida.


Estando já numa fase de manutenção de peso, e aproveitando para conhecer melhor o meu organismo e criar novas rotinas e hábitos, fui-me cruzando com adeptos de várias dietas até alguém me falar numa que parecia coisa de malucos: a ‘dieta do Paleolítico’.

O mais curioso é que aquilo que esta dieta dizia para eu comer era basicamente aquilo que os médicos sempre me disseram para não comer. Sendo eu um homem de ciência, resolvi que a coisa merecia alguma investigação e comecei a pesquisar estudos, documentários e entrevistas, acabando por reunir alguns argumentos que considero válidos:

1. Se esta é mais uma dieta da moda, é uma moda com 2 milhões de anos, pois foi responsável por grande parte da evolução humana (a mais significativa).

2. A relação entre o consumo de gorduras animais e o aumento do colesterol tem sido posta em causa em vários artigos mais recentes, bem como a relação destes com o aumento das doenças cardiovasculares (O Pedro irá explorar esta parte quando vos falar das bases científicas da alimentação paleo).

3. Nas últimas décadas assistimos a um aumento do consumo de hidratos de carbono, bem como  à subida drástica dos casos de diabetes mellitus e de doenças auto-imunes.


Enfim, deparei-me com imensos argumentos (e quase todos os dias vão surgindo mais). Em particular, destaco um livro que me marcou bastante: ‘Cérebro de farinha’. Fala sobre a relação entre o consumo de certos alimentos comuns no nosso regime alimentar e as doenças do foro neurológico como o Alzheimer. Tendo eu história desta doença na família (na minha avó) estava alertado para esta questão e senti-me, também por isso, motivado para aprender mais.


Vamos então detalhar o estilo ‘paleo’. Baseia-se num aumento do consumo de gorduras e uma diminuição do consumo de hidratos de carbono, aproximando-se da dieta dos nossos antepassados - rica em carnes, peixes, legumes e frutos. O objetivo é reduzir os ‘maus’ hidratos de carbono e ingerir os ‘bons’, com fibras, que atrasam a transformação em açúcar e não causam picos de insulina. Não é absolutamente necessário comer de três em três horas, embora o objetivo não seja de todo passar fome. Implica comer comida de verdade, pelo que há que evitar alimentos processados, embalados e com aditivos nas mais variadas formas.

Notem que uso a palavra evitar e não abolir, erradicar ou algo parecido. Não vejo o paleo como um regime alimentar rígido porque não acho que deva ser, embora haja quem defenda que sim. Na minha maneira de entender este modo de vida, há espaço para derivados de leite (porque não me dou mal com eles e reconheço os seus benefícios para a saúde), é possível comer um arroz ou uma massada se um amigo nosso nos convidar e for esse o prato determinado… Ou seja há espaço para errar, mas de forma consciente.


Enfim, as bases da ideia estão lançadas e cada um pode decidir aprofundar mais esta questão se estiver interessado. Pela minha parte apenas tenho a dizer que nesta ainda curta experiência me sinto muito bem, o meu peso continua controlado, e apesar de ter cortado a maioria dos hidratos de carbono que consumia antigamente (bolachas, barras e cereais, massas, bolos, pastéis) não me sinto fraco ou sem energia (inclusivamente quando pratico desporto).


Para ficarem com uma ideia mais concreta, deixo uma lista de alimentos que são considerados admissíveis neste plano alimentar (podem encontrar-se várias listas na internet):

Vegetais: de preferência orgânicos, como espinafres, couves,  brócolos, espargos, pimentos, quiabo, abóbora, courgette, couve-flor, alface, pepino, salsa, cebola, tomate e alho, entre outros.

Cogumelos: todos!.

Frutos secos: caju, amêndoa, castanha do pará, avelã, noz, pinhão, pistachio e muito coco. Quase todos podem transformar-se em farinha.

Sementes: sementes de girassol, chia, linhaça e abóbora.

Fruta: todas as frutas frescas e não processadas. Há correntes que aconselham o consumo moderado de frutas como a banana ou a maçã, mas eu pessoalmente não corto nenhuma fruta.

Cereais e leguminosas: arroz, feijão, lentilhas e quinoa podem consumir-se com moderação, bem como os amendoins (que são uma leguminosa e não um fruto seco). Aveia integral, de preferência sem glúten, com moderação.

Carne e peixe: tudo! Se pudermos saber a origem da carne melhor: gado alimentado em pasto é o ideal, pois a carne tem mais ómega-3, ácidos gordos, vitamina E e ácido linoleico. De igual modo para o peixe.

Leite e derivados: laticínios integrais e sem açúcar como leite, queijo, requeijão, nata... Usar sempre manteiga de boa qualidade. Para quem tem intolerância à lactose o leite de coco ou de amêndoa são boas opções! Evitar o leite de soja.

Óleos: óleo de coco, azeite, óleos de frutas e óleos de nozes. O ideal é cozinhar apenas com azeite, óleo de coco, manteiga ou banha.

Ovos: um super alimento! Preferir os ovos orgânicos.

Bebidas: café, infusão de frutas, bebidas alcoólicas destiladas (desde que não tenham açúcar, como vodka, cachaça ou gin). Vinhos com moderação, bem como água de coco. Evitar a cerveja.

Farinhas: farinha de amêndoa, de coco, de linhaça e de castanha de caju vão substituir as outras farinhas. Além de serem muito saborosas, estas farinhas têm um alto teor de fibra e são muito nutritivas.

Adoçantes: os adoçantes permitidos são os adoçantes à base de stevia (planta) e o mel.

Evitar: 

Em regra, comida processada está fora do cardápio. Comida processada é fácil de identificar: vem em embalagens, tem conservantes, tem produtos químicos adicionados, tem coisas cujo nome custa até a pronunciar e tem longa duração fora do frigorífico.

* Grãos como o trigo, o milho, a soja e a cevada;
* Gorduras vegetais como o óleo de milho, de girassol ou de soja;
* Molhos como o molho de soja;
* Pão, massas, bolachas e biscoitos, bolos;
* Refrigerantes;
* Sumos.


Francisco Silva tem 39 anos, é licenciado em Geologia Aplicada e do Ambiente e trabalha atualmente na área do acompanhamento e gestão de resíduos urbanos. Além do tempo que habitualmente dedica às redes sociais, gosta muito de fotografia e recentemente desenvolveu este interesse pela alimentação e estilos de vida saudáveis.

Nutella caseira paleo (sem açúcar) para uma criança apaixonada por... Tulicreme! :D

When I was young
It seemed that life was so wonderful,
A miracle, oh it was beautiful, magical.
And all the birds in the trees
Well they'd be singing so happily,
Joyfully, playfully watching me.

But then they send me away
To teach me how to be sensible,
Logical, responsible, practical.
And then they showed me a world
Where I could be so dependable,
Clinical, intellectual, cynical.

There are times when all the world's asleep,
The questions run too deep for such a simple mind.
Won't you please, please tell me what we've learned?
I know it sounds absurd please tell me who I am...

Supertramp


Quando eu era criança não havia ainda a cultura dos docinhos, por isso cresci a comer coisas estranhas como açordas variadas, farinha de pau e sopa de miolos de vaca, e só comia guloseimas no Natal, no meu aniversário ou nas festinhas dos meus amigos.

Compreensivelmente, fazia uma festa dos diabos sempre que podia comer um doce fora das situações previamente descritas. Devia ser a única criança da história que adorava ir ao médico (nunca me vou esquecer dos queques da pastelaria em frente ao meu oftalmologista), gritava de alegria quando ia fazer análises (nham nham croissants mistos da confeitaria na rua da igreja) e adorava passar longas tardes a visitar familiares (mesmo aqueles que me apertavam dolorosamente as bochechas).


De todos os meus familiares, a que eu gostava mais de visitar era a minha tia Mila: ela tinha sempre Tulicreme guardado no frigorífico e costumava fazer-me umas sandinhas absolutamente deliciosas a transbordar deste creme de chocolate. E aquilo sabia-me de tal forma bem que me lembro que fiquei vagamente desapontada da primeira vez que comi Nutella porque esperava que fosse semelhante a Tulicreme.

Manteiga de avelãs
Entretanto o tempo passou. Eu cresci, e infelizmente com a minha mudança para Lisboa deixei de visitar a minha tia Mila. A Nutella passou a fazer parte da minha lista de compras, das minhas receitas e da minha vida, e nunca mais comi Tulicreme.

Há duas semanas fui visitar a minha tia. Tudo nela continua igual, eu estou incrivelmente diferente. Cresci. Sou médica, tenho um blog e um livro, sou casada e sou de Lisboa. Mas dentro do meu coração ainda bateu silenciosamente aquela expectativa infantil: será que aí vinha uma deliciosa sandes de Tulicreme?

Não veio. Parece que crescer tem destes aborrecimentos.


À falta de melhor, tentei combater o desconsolo comendo Nutella caseira. E tal como há uns anos fiquei vagamente desapontada. Porque a Nutella sabe bem, mas nada sabe tão bem como as memórias felizes da infância :)


Nutella paleo (receita adaptada do blog 'Nem acredito que é saudável!')

Ingredientes:

* Uma chávena de chá de avelãs;
* Quatro colheres de sopa de cacau em pó;
* Duas colheres de sopa de manteiga;
* Três colheres de sopa de leite de amêndoas (ou de avelãs);
* Duas colheres de sopa de mel;
* Uma pitada de sal;
* Meia colher de chá de essência de baunilha natural.

Confecção:

* Levar as avelãs ao forno durante quinze minutos e esfregar com um pano para retirar a pele;

* Picar durante cinco minutos até se formar manteiga de avelã;

* Juntar os ingredientes restantes e passar tudo novamente até obter um creme suave;

* Colocar mais mel ou leite, se necessário;

* Conservar no frigorífico.



Até amanhã! :D

20.10.14

Paleo week - a minha experiência :)

Antes de mais, julgo ser necessário fazer aqui um pequeno esclarecimento. Cá em casa a nossa alimentação é por norma bastante saudável e diversificada, rica em coisinhas que sabem bem e fazem ainda melhor. Não recorremos por hábito a alimentos processados, nunca temos em casa doces ou bolos industrializados, barras de cereais ou bolachas de pacote e não bebemos refrigerantes. Assim sendo, na verdade esta semana paleo não foi assim tão diferente da nossa rotina habitual, com algumas peculiaridades que passo a listar:

* Deixámos de ingerir leite e derivados, à excepção da manteiga. Passámos a beber leite de amêndoa.
* Deixámos de comer cereais como o trigo, a aveia ou o centeio. No global, deixámos de ingerir glúten.
* Deixámos de comer açúcar refinado nos docinhos que eu fazia em casa, bem como farinhas processadas.

A minha experiência paleo durou uma semana, e tirando a tarde do primeiro dia (quando tive a maior sugar craving de sempre) tudo correu bem. A corrente paleo que decidimos seguir era muito abrangente, o que nos ajudou bastante: era permitido comer chocolate negro sem açúcar ou arroz em pequenas quantidades, por exemplo.

Começámos a semana com a elaboração de uma ementa e com a posterior ida às compras. E confesso-vos que ficámos ambos surpreendidos: nunca tínhamos comprado ao mesmo tempo tantas frutas, legumes e frutos secos! Pessoalmente não senti uma diferença estatisticamente significativa no valor final do nosso carrinho de compras em comparação com o que costumamos gastar, mas tal como vos disse de facto esta alimentação não é assim tão diferente da que costumamos seguir.

Mostro-vos abaixo a ementa da semana.


Algumas considerações:

* Onde se lê 'pão' refiro-me obviamente a pão paleo, que fiz seguindo uma receita do blog 'Sem Aditivos'. Não amei o resultado, confesso.
* Os queques também são paleo (mostrei a receita esta manhã), bem como a nutella, as bolachas de nutella e a mousse de chocolate.
* Onde se lê 'castanhas' refiro-me a castanhas do pará, um dos nossos frutos secos preferidos :)
* Todos os batidos foram feitos com leite de amêndoa, ao qual juntava várias frutas. Já mostrei inclusivamente um exemplo na semana passada :)
* Tanto o almoço como o jantar eram antecedidos por sopa (caldo verde sem batata, receita aqui) e sucedidos por uma peça de fruta.
* As refeições a laranja foram feitas fora de casa ou com convidados. O frango no churrasco foi acompanhado apenas com salada, o Boeuf Borguignon (receita aqui) teve direito a um bocadinho de arroz e o hambúrguer do Honorato foi a celebração do nosso primeiro mês de casamento (pedimos o hambúrguer no prato).
* Lanchar fora foi um drama. Não fui prevenida propositadamente porque queria ver como me sairia, mas foi muito difícil adaptar-me e no fim o iogurte, a salada de fruta e o sumo de laranja foram o que se arranjou.

No geral nunca senti fome ou fraqueza e andei sempre bem disposta. Não era de todo o meu objectivo perder peso, mas no fim da semana (e apesar de me ter fartado de petiscar frutos secos) perdi quase um quilo e um por cento de massa gorda.

Confesso que me custou bastante não comer pão ao pequeno-almoço ou hidratos como acompanhamento ao almoço e ao jantar, razão pela qual não decidi seguir restritamente esta alimentação no fim da semana. Mas reconheço que desde então diminuí as doses destes ingredientes e julgo que é uma questão de hábito :)

Ficam algumas fotos das comidinhas da semana. Espero que gostem :)

Pequenos-almoços










Lanches



A levar bolachas de Nutella para o jogo do Sporting, somos mesmo badass :D


Refeições


 

  







Não é a foto do jantar, mas é a da receita original :)

Até amanhã! :D
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