19 de outubro de 2019

Esta questão das urgências fechadas.

É assustador ler as notícias sobre o SNS ultimamente. Para nós médicos não é nada de novo, e há anos que andamos a queixar-nos da degradação daquele que foi em tempos um dos melhores sistemas de saúde públicos do mundo. Mas ultimamente andamos ainda mais frustrados e assustados, talvez porque os problemas chegaram a áreas como a obstetrícia e a pediatria, que foram nos últimos anos as áreas mais investidas e mais desenvolvidas da medicina no nosso país (não é à toa que temos uma das menores taxas de mortalidade infantil do mundo, à frente de países como o Reino Unido, a Holanda ou os Estados Unidos).

Ler as notícias sobre o encerramento das urgências de obstetrícia e de pediatria deprime-me. Ler sobre colegas que cometem erros grosseiros por razões que aparentemente ninguém compreende muito bem deprime-me. Saber de coisas que não passam para os jornais deprime-me. Ler comentários da malta deprime-me. Perceber que há uma enorme desinformação sobre aquilo que se passa deprime-me.

'Andamos aqui a pagar-lhes o curso e depois vão ganhar rios de dinheiro para os privados.' - dizem.

Bem, em nossa defesa nós pagamos propinas, tal como o resto do pessoal. Além disso, presumo que a esmagadora maioria das pessoas tire o curso (subsidiado também pelo Estado) e vá trabalhar para empresas privadas, por isso também seria válido para toda a gente que não fosse funcionário público. Dizem que medicina é um dos cursos mais caros, mas para ser muito sincera não percebo muito bem porquê. Os nossos tutores não são pagos, temos aulas como as outras pessoas, assim na loucura na minha faculdade havia dissecções mas com pessoas que tinham doado o corpo, os hospitais já lá estão a funcionar sem nós, não estou a ver onde pode estar esse investimento tão grande.

Em relação ao facto de irmos 'para o privado', vou falar do assunto abaixo.

'Era obrigarem as pessoas a saírem das grandes cidades e a entrarem no público no interior.'

Nos últimos anos a grande maioria das vagas da grande maioria das especialidades é em hospitais pequenos, precisamente na tentativa de atrair mais médicos para locais mais carenciados. O problema é que nesta fase da vida (o fim da especialidade) as pessoas já têm mais de trinta anos, muitas vezes são casadas, os companheiros têm empregos fixos, têm casa, têm filhos. Conheço alguns colegas que arriscaram e mudaram toda a sua família para outro local, mas a grande maioria opta por desvincular-se do público e ir trabalhar para o privado. Não por dinheiro, mas porque quer ficar no sítio onde já vive, às vezes onde viveu durante a vida toda. Anos após ano, o concurso começa e simplesmente não há vagas nas grandes cidades, que estão a ficar também cada vez mais carenciadas (os colegas reformam-se, ou saem, os internos vão segurando as pontas mas acabam o internato e vão à vida deles).

'Mas os professores saem de casa, às vezes sem a família!'

Saem, e eu acho um escândalo. Mas nós não precisamos. Se não existissem privados, obviamente que tínhamos de fazer o mesmo (pessoalmente eu até acho que não deviam existir, mas isso é a minha educação comunista a falar), mas existem, há alternativas não controladas pelo Estado e por isso ninguém nos obriga a aceitar um contrato no público longe de casa.

'Só querem dinheiro.'

Sabem quanto oferecem aos meus colegas da pediatria para irem fazer bancos para o Garcia da Orta? Muito dinheiro mesmo. E as urgências continuam a estar fechadas. Acham que é porque não queremos dinheiro? Asseguro que queremos. Não queremos é más condições de trabalho e estar sozinhos numa urgência com a responsabilidade de assegurar tudo o que vier (emergências, traumas, coisas complicadas). Não há dinheiro que pague a insegurança de estarmos sozinhos com a vida de um miúdo nas mãos, e é por isso que todos trabalhamos em equipas nos serviços de urgência. Além disso, também sabemos que aceitar este tipo de condições, por mais apetitosas que pareçam do ponto de vista financeiro, não resolve o problema de base, e ninguém quer compactuar com isso.

Nos últimos anos saíram imensas pessoas da pediatria do Garcia (os jornais dizem que foram treze) e este ano só abriram quatro vagas para assegurar o trabalho de treze pessoas. Essas vagas ficaram vazias, porque ninguém quer correr o risco de entrar sozinho. E a culpa não é nossa. Pensem no seguinte:

Passam a vida inteira a estudar. Tiram médias altíssimas no secundário. Passam mais seis anos num curso super frustrante, que tem pouco de médico e muito de teórico, com maior ou menor competitividade com os colegas consoante a faculdade, com professores pouco disponíveis e estágios muitas vezes sofríveis. Entram numa especialidade de quatro, cinco ou seis anos onde é esperado que saibam automaticamente o que é para fazer, que estudem, que façam mil artigos e apresentações científicas em congressos, que vejam doentes em quinze ou vinte minutos e que façam dois bancos por semana, às vezes de 24h, muitas vezes sem direito a folgas compensatórias (volto a dizer que o Pedro em dias de banco trabalhava das 8h às 15h, entrava novamente às 20h, saía às 8h e ia operar até às 15h, e isto estava contemplado no horário de trabalho dele e não ganhava mais por isso, e na esmagadora maioria das vezes não conseguia descansar mais do que duas horas. Sentem-se seguros por saber que um médico que nas últimas 24h trabalhou dezanove e dormiu duas vai operar um dos vossos olhos?). Quando acabam a especialidade querem mesmo ir enfiar-se sozinhos num hospital e fazer dois bancos de 24h por semana a ganhar mais mil euros? Não há dinheiro que pague trabalhar 24h seguidas em más condições, acreditem em mim. A prova disso é o facto das urgências continuarem a fechar.

(E os zunzuns da obstetrícia terminaram, mas as urgências continuam a fechar. Ainda na semana passada um serviços de urgência dos maiores hospitais da zona de Lisboa fechou durante o dia porque não tinha obstetras suficientes para assegurarem o bloco de partos. As pessoas foram encaminhadas para outros hospitais, que já de si estão a rebentar pelas costuras, com prejuízo das grávidas e dos seus bebés.)

A par disto, é inegável que os privados e os público-privados oferecem contratos muito mais apetecíveis: muitas vezes com 30h, sem urgências, com horários flexíveis e com salários iguais aos oferecidos no público. Já falei aqui do caso do Pedro, que ganha sensivelmente o mesmo que ganharia se tivesse ido a concurso para ficar no público (até um bocadinho menos) mas tem uma vida infinitamente melhor. Não é uma questão de ambição ou de falta de vontade de trabalhar, simplesmente queremos boas condições de trabalho. Ou razoáveis, pronto. Não me choca nada que os colegas da pediatria façam exactamente a mesma coisa.

O que nos traz a questão: então o que fazer para resolver a questão gritante do Garcia? Talvez levar para lá uma equipa inteira, ou seja, contratar dez pessoas ao mesmo tempo (ou mais)? E dar-lhes benefícios específicos por estarem num hospital mesmo carenciado? Não sei. Não sei mesmo. E isso deprime-me.

Quase que tenho inveja das pessoas raivosas que comentam que o problema é sermos todos uns cabrões, mandriões e chulos. Ao menos, essas sabem todas as respostas. Eu não sei nenhuma, e não conheço médicos que saibam. Só nos resta mesmo olhar à nossa volta e ficar deprimidos.

64 comentários:

  1. Obrigada pelo texto, Joana!

    "'Andamos aqui a pagar-lhes o curso e depois vão ganhar rios de dinheiro para os privados.' - dizem."

    Desde que comecei a registá-las, em Março, e excluindo as pausas, já contabilizei 970 horas de estudo para a Prova Nacional de Seriação (e faltam algumas!). Isto não é nada de extraordinário, há certamente colegas que estudaram mais horas... Queria bem saber quem as anda a pagar, que na conta não me cai nada!
    Aconteça o que acontecer (e só hoje já fui do otimismo moderado ao pessimismo), terei de agradecer aos meus pais e restante família pelo apoio e a mim própria, que ando aqui a desperdiçar a vida a olhar para isto sem saber se vai compensar. Aos senhores que comentam notícias de jornais online, lamento, mas não lhes devo nada :)

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    1. Quem é que regista as horas de estudo mulher? Que deprimência :P Agora a sério, nem me lembrei dessa questão de estarmos sem conseguir trabalhar (embora já tenhamos o curso feito) durante seis meses. Acho que reprimi o Harrison :P Tenho um amigo que fez o exame quatro vezes e tinha sempre que cancelar o ano comum, por isso só ganhava até Abril ou Maio e depois passava o resto do ano a estudar. QUATRO VEZES. Que pesadelo, a sério.

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    2. oh, tenho de ter alguma maneira de monitorizar, para saber que não exagerei nas pausas :p
      opá, 4 vezes não, nem sei se tinha coragem de ir à segunda vez. mas também não lido bem com ficar em "segundas escolhas". mas também já sei qualquer coisa de alemão... mas, mas, mas. enfim, nem vale a pena pensar, agora é estudar e pronto :p

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    3. E o pior foi que ele queria mesmo uma determinada especialidade (daí as quatro vezes, estávamos na fase em que entrávamos todos se bem te recordas), à quarta acabou por ficar numa especialidade mais 'podre' e gosta daquilo. E tinha entrado à primeira. Isto a vida tem cada coisa, acho mesmo que acabamos nos sítios onde devíamos estar. O meu ano foi o único em que a pedopsiquiatria fechou com média mais baixa do que a psiquiatria, noutro ano qualquer teria entrado em psiquiatria (mas não em pedo) e no meu não entrei em psiquiatria (fechou antes de mim!) e entrei na pedo. Há mesmo coisas do caraças :) E isto com 53%, e a Joana entrou em pediatria com 56, o Bernardo em endocrino com 70 e muitos e o Pedro em oftalmo com 82! Agora para entrares em oftalmo tens de ter para aí 95! Muito estranho mesmo :P

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    4. (Também diga-se que no nosso ano ter 95 era raríssimo, não sei se agora o Harrison é mais fácil ou a malta é que é mais esperta mas as notas são muito melhores!)

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    5. a malta não deve ser mais esperta :p entretanto as empresas de preparação desenvolveram-se e criaram materiais de estudo cada vez melhores. Por outro lado, o aumento de competitividade e a pressão de eventualmente nem vaga se ter faz com que as pessoas comecem cada vez mais cedo e de forma mais intensa... as aulas de preparação para 2020 já começaram, e quando o estágio permite os alunos do atual 6.º ano já vao para a biblioteca estudar...

      não sei :( quando vejo as vagas do que quero a ir-se embora, mais me dá a sensação de que se não conseguir essa especialidade esse amargo ficará lá sempre. e agora que vou fazendo perguntas e afins (o novo exame será semelhante aos americanos) e estou a perceber que, em condições normais, não vou ter uma nota péssima - mas também não vou ter uma nota excelente, e isso vai limitar-me... e, eu sei, agora é que não vale mesmo a pena stressar com estas coisas, é dar o meu melhor nas próximas semanas e depois logo se vê, mas pronto, as pausas também servem para as queixinhas :p

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    6. Sim, no meu ano nem sequer fiz curso, estudei pelos livros e pelos slides. Agora até já me falaram de umas tabelas que se vendem a 50€ e tudo :O Nós até começávamos cedo, no meu ano lembro-me que comecei em Novembro e fui das últimas... Mas claramente tínhamos outra calma :P

      Não acho que seja um amargo que fica para sempre. Acho que fica uns tempos, mas depois acabas por a) gostar do que ficaste a fazer ou b) não gostar e mudar. Conheço malta que já vai na terceira especialidade! Tenho uma amiga que entrou em Medicina Interna, passou para Gineco e agora está em Anestesia :)

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    7. se existem tais tabelas, eu não sabia :p os materiais passam de amigos em amigos, é um bocadito chato (e se repetir, já sem os meus amigos, não sei como seria.)

      bem, mas mudar é grande investimento de tempo! sao mais uns 2 anos, e tirar notas excelentes para fazer essas escolhas...

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    8. Sim, eu nunca na vida repetia o Harrison, mais depressa ia para Saúde Pública e arranjava forma de me apaixonar 😋 Mas eu sou muito assim, as pessoas são todas diferentes 🙂 Mas pronto, depende da tua postura. O Pedro nem sequer quis tirar a licença alargada quando o Matias nasceu para não se atrasar mais seis meses no internato porque detestava aquilo, e sinceramente agora que faço contas e percebo que só acabo em 2022 (e se não decidirmos ter mais filhos entretanto) só me apetece atirar da ponte 🙄 Já pensei várias vezes em mudar, mas só a ideia de estar ainda mais tempo nisto demove-me logo!

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  2. "'Andamos aqui a pagar-lhes o curso e depois vão ganhar rios de dinheiro para os privados.' - dizem.

    Eu acho que quando as pessoas dizem isso é na vertente de ser um curso mais longo q outros em que é lógico q pagas tanto de propinas como outro curso qq mas o valor das propinas não pagam mais que um professor e secalhar nem isso (não sei se me faço entender).

    Quanto aos outros cursos tb irem para o privado, a diferença é que por norma não nos afecta porque não temos que recorrer a eles, a não ser na educação em q muita gente tb não tem escolas ou infantários com disponibilidade para receber mais crianças, tendo q recorrer a privados. Os médicos precisamos sempre deles desde q nascemos até morrer e se o SNS não trabalhar em condições, teremos que recorrer ao privado e é aí q eu acho q as pessoas dizem que andamos (tb) a pagar para depois ir para o privado ganhar dinheiro (seja lá isso o q for).Eu interpreto assim o que se diz, não sei. É mau esses comentários, eu própria tb já tive nesse lado em q na empresa onde estava "pagava taaaaaao bem" mas para quem nunca lá esteve ou nem tinha ideia do que se fazia.

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    1. Bem, a grande maioria dos nossos professores não trabalha a tempo inteiro porque continua a exercer 🙂 Temos um colega que recebe duzentos euros por mês para ser professor na nossa faculdade. Eu acho que a partir do momento em que o Estado subsidia o ensino superior (parcialmente) a toda a gente, temos o direito de ir trabalhar para onde quisermos a seguir. Eu até posso tirar o curso e a seguir ficar sem trabalhar se me apetecer 🙂

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  3. Hoje fui a uma consulta de especialidade e em conversa com o médico, que me segue há anos, fiquei a saber que a mulher dele, também médica, não está a trabalhar porque não compensa. Fiquei chocada quando ouvi isto... "Como assim não compensa?!"
    Segundo ele, o dinheiro pago pelas consultas (principalmente com seguradoras e ADSE) não lhe compensa as deslocações e a falta de condições. Achei mesmo chocante ouvir isto, não imaginei que fosse uma realidade.

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    1. A mim não me choca nada, conheço colegas que recebem 5€ por consulta de psiquiatria, sendo que cada um lá dura pelo menos uma meia hora. Por dez euros por hora eu também preferia ficar em casa honestamente. É claro que não é a regra, mas diria que com os seguros não compensa mesmo aos médicos trabalharem no privado se for uma especialidade não cirúrgica.

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  4. Tudo muito bonito, mas tenho um familiar que é auxiliar num hospital e quando faz noite, os médicos têm a lata de o ir mandar (nem se faz favor pedem) fazer-lhes a cama às 22h e ainda reclamam quando lhes telefonan porque os doentes precisam, por isso, essa de trabalharem 24h é treta
    Para além disso, não fazem a especialidade a receber salário e em horário de trabalho? Eu para fazer o meu curso, foi em horario pós laboral e paguei tudo, a trabalhar 40 horas numa empresa do sector privado, fora as extra que não me pagam e que se não faço vou para o olho da rua. Os pilotos da FA depois de receberem formaçao paga pelo estado (ou por nós, os contribuintes), têm que dar anos à casa onde forem necessários antes de poderem sair para o privado, e os médicos não deviam ser diferentes.
    Se fazem falta médicos e especialistas, aumentem as vagas, mas aí não convém porque podiam começar a sobrar e perdiam poder...
    É por serem tão beneficiados e protegidos que depois acontecem estas coisas como o sr dr que tem não sei quantas queixas na ordem há anos e só quando aparece na TV é que pedem inqueritos urgentes

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    1. Bem, que médicos? Todos os médicos com quem o familiar se cruzou? Nenhum pede se faz favor? Custa-me muito a crer honestamente, não perdemos o hábito de dizer se faz favor no curso :) Em relação a reclamar porque telefonam, eu também reclamo. O conceito de 'doente a precisar' é muito relativo, já tive vários doentes a virem à urgência às quatro da manhã para pedirem uma receita por isso sim, eu cá reclamo. Mas também reclamo quando o meu filho me acorda às quatro da manhã, acho que ainda está para nascer a pessoa que acorda satisfeita de madrugada. Não é treta absolutamente nenhuma trabalhar 24h, muitos de nós o fazem. Quando eu faço 12 nocturnas (na minha especialidade não se faz 24h) às vezes consigo dormir 8h, outras vezes 4h, outras vezes zero, depende da quantidade de doentes que aparecem. Mas eu sou de uma especialidade pequena, especialidades maiores como a pediatria e a obstetrícia (que fazem 24h) têm muito mais volume de doentes. Do que vou vendo dos meus amigos nessas especialidades (internos e recém-especialistas) uns conseguem dormir por turnos (dormem tipo da 1h às 5h ou das 5h às 9h), outros não. Ir deitar às 22h nunca vi, mas tenho inveja de quem faz por isso gostava muito de saber qual é a especialidade e o hospital para poder recomendar ao pessoal que me pergunta se recomendo a minha especialidade :) E também não nos pagam as horas extra by the way. O Pedro fez o internato todo a trabalhar 52h por semana, eu faço 44h porque faço 8h diárias e 12h de banco semanais. Tenho 'sorte' porque na minha especialidade fazemos saídas após a noite, mas na grande maioria das especialidades as pessoas vão trabalhar depois da noite.

      Acho uma grande falácia essa tentativa de argumento de que começamos a perder poder. Mas que poder? Já me bateram três vezes durante o meu horário de trabalho, os meus miúdos tratam-me por tu, no geral não me sinto minimamente idolatrada por quem quer que seja (nem o esperava, não sou esse tipo de pessoa). Já sobramos imensos porque nos últimos anos só abrem vagas de especialidade para metade dos alunos que saem, por isso o resto acaba por emigrar, fazer urgências (saídos da faculdade sem saberem nada de prático) ou continuar a insistir até conseguirem entrar (o que pode demorar anos, sem ganhar dinheiro).

      Supostamente o argumento das vagas não poderem aumentar é porque faltam médicos para nos tutorarem. Ou seja, não há especialistas para nos orientarem, por isso não pode haver muitos internos. Mas continuamos a assistir à fuga dos recém-especialistas do público, por isso eu acho que sim, devia haver um aumento das vagas ou uma melhoria das condições para os especialistas, que poderiam depois ter mais internos. Não temos médicos a menos, temos médicos mal distribuídos e com más condições de trabalho. Não conheço um único colega que ache que devíamos ser poucos para açambarcarmos o trabalho todo, quem nos dera sermos mais e trabalharmos bem menos.

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    2. Por último, não acho nada que sejamos beneficiados ou protegidos. Mas acho que há coisas muito, muito, muito bizarras na nossa área. Este caso mais recente é só mais um, e concordo perfeitamente consigo: é escandaloso como anda tudo a assobiar para o lado durante tantos anos. Nos casos que conheço as pessoas acabaram por ser afastadas, mas nada as impede de trabalharem noutro sítio (nomeadamente no privado) e isso é uma falha do Ministério Público (que também anda a dormir e a arquivar casos) e da Ordem (para a qual desembolsamos obrigatoriamente umas centenas de euros por ano e que dá sempre esta sensação que está a varrer tudo para debaixo do tapete). Caramba, um caso ou outro, sei lá, a obstetrícia é uma especialidade imensamente passível de erro. Mesmo na nossa especialidade isso pode acontecer, eu posso achar que não há risco na urgência e uma hora depois o doente faz mal a si próprio. Pode acontecer. Não somos infalíveis. Mas não sei quantos casos, em não sei quantos anos, todos parecidos? E agora anda tudo cheio de pressa a fazer averiguações? É bizarro, é grave, é triste e é uma vergonha enorme para todos nós, e só lamento pelas pessoas que foram acompanhadas e a quem estas situações aconteceram ou são acompanhadas e agora estão com o coração nas mãos e com medo dos seus bebés não estarem bem.

      Aproveito só para reforçar uma coisa: percebo tudo o que disse, mas acho que se expressou de uma forma relativamente agressiva. Podemos concordar ou discordar com os outros, mas não precisamos de vir com pedras na mão para provar o nosso argumento.

      E por último, na nossa área os auxiliares são mesmo mesmo muito importantes e temos um respeito enorme por eles. Lamento se noutras áreas que não a psiquiatria isto não acontece, até porque não é de todo uma profissão fácil.

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    3. Acabei o secundário com media de 19, entrei na faculdade com media de 19,4 e acabei o curso com media de 18. Todas as pessoas me chateavam que devia ter ido para Medicina, que com as minhas notas era desperdicio ir para Gestão e que se fosse medica tinha a vida assegurada financeiramente. Nunca, mas nunca na vida entraria em Medicina. Acho de uma responsabilidade brutal ter uma vida de alguem nas maos, nao imagino como seria dormir à noite sem pensar se errei o diagnostico na pessoa X ou Y que por minha causa podia morrer. E alem disso acho um disparate completo os turnos de 24h ou 12h, nunca consegui perceber qual o motivo de ficarem a trabalhar tanto tempo, perdem a concentração, ficam exausto, nao percebo mesmo a logica. Porque nao trabalham as mesmas horas mas em turnos de 8h?
      Nunca me arrependi da minha decisao, e cada vez mais quando vejo estes "filmes" menos percebo porque consideram os medicos como previligiados. Alguem lhe bater no trabalho? Ter de atender chamadas e mails fora das consultas? Credo...
      Eu tenho emprego das 9h-18h, ganho relativamente bem e se cometer um erro no meu trabalho a empresa pode perder algum dinheiro mas ninguem morre por isso.

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    4. Esse discurso faz-me sempre rir feita histérica. O meu irmão também entrou na faculdade com 19 e toda a gente de fora vinha com o discurso do 'desperdício'. É claro que eu sempre lhe disse para não meter os pés em medicina e os meus pais também :P Acabou por entrar em engenharia aeroespacial e agora eu sou a burrinha da família (ainda por cima psiquiatra não é?) :) E sinceramente pelo que vejo o curso dele é muito mais difícil do que foi o meu, e continuo a achar que ele teria sido muito infeliz em medicina (quer no curso quer na profissão).

      Li a questão de não dormirmos a pensar nos doentes e lembrei-me de uma história curiosa cá de casa. Uma vez tivemos cá a minha cunhada a jantar. Na altura ela estava em engenharia informática (entretanto mudou de curso). Eu estava super triste porque nesse dia um dos miúdos da minha consulta tinha sido apanhado a traficar droga, depois de um período relativamente longo de estabilidade clínica (miúdo esse com treze anos). Lá estávamos nós a comer sushi, e eu a chorar, a dizer que este miúdo não ia a lado nenhum na vida, que não o ia conseguir ajudar, que não conseguia ajudar ninguém, blá blá blá deprimência e lágrimas. A dada altura fechei a matraca e o Pedro disse 'hoje operei uma senhora de 40 anos e tenho quase a certeza que ela vai ficar cega'. Ficámos todos em silêncio e a minha cunhada comentou algo do género 'bolas, ainda bem que não fui para medicina'. Acabámos todos a sorrir, até teve o seu lado cómico, mas a vida de médico é muito assim - pelo menos a nossa. Não lidamos directamente com a morte, mas lidar com a vida é muito, muito difícil. É difícil para o Pedro, que opera e por isso tem nas mãos uma responsabilidade enorme, e é difícil para mim, que lido com miúdos com patologias difíceis de gerir numa área com muito pouco investimento no nosso país.

      Eu acho um disparate os turnos de 24h. Os turnos de 12h nem tanto, mas 12h diurnas não têm comparação com 12h nocturnas. Ou seja, de noite tudo custa, mesmo que fossem 'só' 8h. A dada altura fazia bancos à segunda à noite e era terrível porque passava a terça comatosa, a quarta ainda a recuperar e a quinta ainda meia abananada. E volto a reforçar que em dias bons nós até conseguimos dormir qualquer coisa, mas nunca é o mesmo dormir num hospital aos solavancos com um telefone a tocar ou dormir em casa na minha caminha.

      Eu não acho que tenha privilégio rigorosamente nenhum. Gosto muito do que faço, mas é difícil, e não tenho uma vida melhor do que os meus vizinhos do lado. Tenho uma vida segura do ponto de vista financeiro (aparentemente preciso de fazer coisas gravíssimas para alguém me despedir!), estável, não me vai faltar trabalho, etc. Mas tenho amigos com essas condições fora da medicina que não têm de fazer contenções de adolescentes psicóticos, não gramam com borderlines às quatro da manhã e não atendem chamadas de professores às 20h. E eu faço tudo isto porque quero e porque gosto, não me estou a queixar, mas também não acho que tenha uma vida assim tão espectacular. É a vida que eu escolhi... Mas se fosse hoje, não sei se a tinha escolhido :P

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    5. Essa história que contas do jantar com a cunhada lembra-me outras profissões: tenho familiares juízes, procuradores do Ministério Público, polícias e as situações com que têm contacto através do trabalho são surreais e felizmente inimagináveis pelo cidadão comum. Impacta na tua vida de uma forma brutal. A maneira como passas a ver o outro, a sociedade... Não é um trabalho em que picas o ponto às 18h e possas desligar. E não têm vidas de luxo, têm empregos estáveis e não ganham mal, mas são pessoas com gestões da casa e da família perfeitamente normais.

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    6. Eu continuo a contar a história: antes de entrar na especialidade achava que o Correio da Manhã inventava as notícias! Agora não só sei que são verdade como acho que muitas delas nem lá chegam. Não sinto que eu esteja diferente, mas sou claramente uma mãe diferente, tenho a pancada que os meus filhos podem ser abusados e afins. Mas pronto, os meus pais tinham a paranóia dos raptos, pelos vistos é de família :)

      Eu acho que o desligar vem com algum treino. Não diria que desligo desligo, mas também já não fico a pensar nas coisas como ficava quando entrei. Tem dias :)

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    7. Eu sou psicologa e já aceitei que não vou desligar nunca. Eu vivo tudo, e vivo muito tudo. Sou assim. Felizmente conduzo muito, e aquelas horas no carro vão sendo aproveitadas para chorar e deprimir e pensar e sentir que o mundo é afinal horrível. Mas quando chego a casa desaparece quase tudo.
      Essa do correio da manhã xD agora estou sempre a dizer: nós achamos que as novelas são super exageradas, mas a realidade acaba por ultrapassar a ficção! Posto isto, estagiei 11 meses num centro de apoio à familia, em parceria com a CPCJ, e só se estiver mesmo na míngua é que volto para aquilo. É duro que se farta.

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    8. Quando entrei para a especialidade, mal saía do serviço ligava à minha mãe e relatava as minhas consultas. Depois chegava a casa e relatava as minhas consultas ao Pedro. Precisava daquilo para elaborar o dia, não sei bem porquê, ajudava-me a pensar. Agora até agradeço nem falar do assunto, tirando uma ou outra situação mais marcante positiva ou negativa 🙂 Mas pronto, a minha directora tem mais de trinta anos de carreira e ainda conta que às vezes fica sem dormir por causa de determinados casos. Que me lembre nunca me aconteceu (mas também não me lembro de alguma vez ter ficado sem dormir por estar a pensar!), mas farto-me de sonhar com os miúdos 🤷🏻‍♀️

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    9. Desculpem intrometer-me nestes comentários. Sou Psicóloga, de formação e Coração, mas não exerço. No entanto, lembro-me que, enquanto trabalhei na área (estágio em Centro de Saúde, clínica com crianças e adolescentes, apoio a mães em luto e viúvas e até recrutamento) muitas vezes "levava" aquelas pessoas comigo, não no sentido de me deixarem deprimida ou chorosa, mas não conseguia desligar. E lembro-me de muitas delas ainda hoje, muitos anos depois.
      Não acho, nunca achei que isso fosse defeito ou falta de profissionalismo. Só revela humanidade, empatia e que no fundo, somos gente e não gelo.

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    10. Eu também não acho que seja defeito, mas acho que ao longo dos anos vai pesando. Eu ainda tenho a particularidade de ter uma memória extremamente selectiva, por isso lembro-me de coisas do além mesmo. Ontem encontrei um miúdo a quem dei alta há dois anos e lembrava-me do nome dele, do nome da mãe dele, do nome das irmãs dele, da medicação dele, de onde viviam os avós dele, enfim, de imensas coisas mesmo. Mas acho que há em mim talvez um frieza, não sei bem explicar. Um pragmatismo talvez. Hoje morreu o gato da minha avó e a minha mãe não lhe conseguia dizer. Eu liguei e disse. Depois liguei ao meu irmão e disse-lhe. Fiquei triste? Claro. Mas já estou habituada a dar más notícias, a ajudar as pessoas a lidarem com isto, já sei o que dizer e o que fazer. Não fico bloqueada nem chorosa. Sinto muito isso no trabalho também. O episódio que falo em cima, do miúdo que foi apanhado a traficar, foi a última vez que me lembro de me ter sentido mesmo impotente. Lembro-me que no ano passado estava em Viena e ligou-me uma mãe porque o filho dela (que eu já nem seguia porque já tinha 19 anos e estava nos adultos, mas continuava a falar com a família e a acompanhar a situação) tinha feito uma tentativa de suicídio. Eu fiquei uma hora a dar voltas à mesma praça a tentar agilizar a situação (ligar para o hospital, saber quem estava de urgência, falar com os colegas, falar com o miúdo, tranquilizar a mãe, encaminhar, etc) e depois de tudo orientado desliguei a chamada e continuei com o meu percurso, a tirar fotografias a tudo, a passear e a parar para comer strudel. E isto sim, sinto que veio com o tempo. Não sinto que seja mau, muito pelo contrário: acho genuinamente que não aguentaria estar tão envolvida nas coisas como já estive. Mas deixa-me algo preocupada, não nego.

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  5. Olá Joana!
    Já comentei por aqui, mas hoje faço-o como anónimo para preservar o anonimato das experiências que tenho vivido, nesta área.
    Raramente utilizo o SNS. Já usei, não tive razão de queixa. Mas a conveniência do privado leva-me a optar mais vezes por esta solução, nos dias que correm.
    A experiência com o SNS (hospital com gestão privada) é pelo acompanhamento de um familiar, na área da psiquiatria, e é um verdadeiro tormento. Consultas de 6 em 6 meses ou anuais, numa situação que se descontrola facilmente. Recentemente, tivemos de recorrer ao Delegado de Saúde Pública para resolver a situação, porque, no hospital, não intervieram, apesar dos pedidos frequentes. Ao falar com os médicos percebemos que a situação é bastante crítica: falta de recursos humanos e materiais e ordens superiores da administração para que se marcam consultas com o maior espaçamento possível.
    E nesta situação, o SNS é fundamental por uma simples razão: este familiar recusa-se a ir a consultas e só o SNS tem mecanismos que nos permitem, a nós familiares, controlar a doença.
    Além disso, os médicos são profissionais como outros quaisquer: há os bons e os maus. No acompanhamento deste familiar já experenciei as duas situações: o médico que o acompanha é muito prestável, responde até por e-mail e sabemos que não faz mais, porque não pode. A médica que o substituiu nas férias, não percebo como está nesta área. O SNS é também os médicos, mas há médicos que, realmente, não fazem o SNS. E não podemos pôr todos no mesmo saco, nem culpar os médicos (e outros profissionais) pelo estado do SNS. Essa é a forma mais simplista de olhar para o estado a que chegou a saúde pública, em Portugal.

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    1. Pela minha experiência depende mesmo muito dos hospitais com gestão privada em questão. Vou dar o exemplo da minha especialidade.

      O médico de família encaminha para nós (ou a urgência, ou outra instância) e há uma lista de espera. Em 2015, quando entrei na especialidade, uma primeira consulta demorava cerca de um mês. Agora demora três ou quatro. O volume de consultas na nossa área aumentou imenso, e os profissionais são os mesmos (talvez um bocadinho mais, mas depois as infraestruturas são as mesmas, por isso não quer dizer que consigamos dar mais consultas porque nem sempre há gabinetes disponíveis). Eu tenho miúdos que vejo todas as semanas, outros de quinze em quinze dias, ou de mês a mês ou de três em três meses. É muito raro espaçar mais do que isso, mas confesso que é provavelmente insegurança minha. Com os especialistas é mais difícil porque têm um volume de consultas maior, e efectivamente ter consultas de quatro em quatro meses não é assim tão raro (dependendo dos quadros e da agenda do médico). Acabamos por procurar estar disponíveis de outras formas: por mail, por telemóvel no meu caso, porque de facto há situações que se descontrolam facilmente e nem sempre as nossas agendas têm espaço para permitir vermos os casos com a frequência que gostaríamos. Além disso, nem sempre os casos são iguais: há fases muito calmas e outras de grande agravamento, e não conseguimos prever se aquele doente vai precisar de uma consulta mais cedo ou não.

      Diria que no geral na área de Lisboa todos os serviços de pedo funcionam assim, alguns com maior facilidade em marcar consultas e outros com menor. Mas nos público-privados é de facto mais difícil e há uma lista de espera maior, bem como uma maior dificuldade em marcar consultas próximas. É claro que há outras vantagens (geralmente há maior facilidade - na pedo pelo menos - em aceder a recursos da psicologia ou da comunidade). Também tinha ideia que seria por pressões administrativas sinceramente, mas o Pedro não nota nada disso no serviço dele - muito pelo contrário, há uma abertura que não existia no sítio público onde ele estava anteriormente.

      Ainda agora estava a ver uma cena de standup com o Chris Rock e ele fala de como quando algum polícia mata alguém de raça negra os superiores dizem 'em todas as áreas há maçãs podres'. Ele comenta que há áreas em que não podem existir maçãs podres, e dá o exemplo dos pilotos de aviões. É claro que isto é tudo muito simplista porque obviamente que existirão maus pilotos de aviões (o meu irmão diz que os aviões praticamente andam sozinhos por isso nem é preciso ser muito bom, não sei), mas de certa forma fiquei a pensar que sim, há áreas em que não podem existir maçãs podres e a medicina é uma delas. Também já contactei com colegas francamente maus (quer do ponto de vista de utente quer profissionalmente), e acho que são também estes colegas que minam o nosso SNS. Porque no geral as pessoas percebem. Salvo raras excepções de malta que é, vá, ranhosa, diria que a grande maioria dos meus utentes percebe que eu só não faço mais porque não consigo. Inclusivamente ando sempre a incentivá-los a fazer queixas no livro de reclamações, porque acho mesmo que essa é uma forma da situação melhorar. Mas de resto acho que só lá vamos mesmo com uma injecção brutal de capital que permita contratar mais pessoas (não só médicos, mas todas as profissões da área da saúde), investir em material, remodelar serviços, aumentar blocos operatórios, fomentar a exclusividade dos profissionais e etc.

      Noutro ponto: já lidei do outro lado com situações como a que referiste e são mesmo tramadas. Espero sinceramente que a questão se tenha resolvido e que o tratamento ou o internamento tenham sido rápidos.

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  6. (Continuando, que o espaço é sempre pouco)
    Como disse, raramente, recorro ao SNS. Mas cada vez menos recorro aos grandes grupos de saúde privados. O meu parto foi nos Lusíadas e não foi uma experiência que classifique de fantástica. O acompanhamento foi pouco pessoal (em 3 dias, fui sempre vista por enfermeiras diferentes, cada uma com opiniões diferentes, que me baralharam e me deixaram ainda mais insegura) e não me queriam dar analgésicos após a cesariana (perguntaram-me, depois de acabar o soro da cirurgia, se tinha dores?!!!). Tive a sensação que fazia-se tudo para gastar o menos possível, mas para cobrar o mais possível. Não gostei, enquanto paciente, de me ter apercebido disso. Senti muito show-off para pouco sumo. Posso ser eu que tinha as expectativas muito altas, não sei. Passei a frequentar menos esses hospitais (só urgências e só depois de contactar a linha saúde 24) e a gota de água foi a questão da ameaça de boicote à ADSE: vergonhosa a posição desses hospitais e "cão que morde a mão do dono" foi o BIG NO.
    Para mim, estes são os grandes culpados do estado a que chegou a saúde pública, em Portugal. Não falo dos médicos, enfermeiros, técnicos que lá trabalham, mas das administrações desses grupos. Aliás, quando uma das gestoras desses grupos diz que a saúde privada é mais lucrativa que o tráfico de armas (ou qualquer coisa do género), acho que está tudo dito. A saúde é um negócio muito rentável, há que mantê-la ou torná-la cada vez mais rentável. E penso que isso se tem feito à custa do SNS, dos doentes e dos profissionais de saúde.
    Felizmente, e porque ainda sou nova, não preciso de muitas consultas médicas, exames ou tratamentos. Quando vou, recorro aos consultórios privados, porque posso, obviamente. O meu centro de saúde é caótico e o tempo que perco a tentar arranjar consulta, esperar pela consulta e pagar consulta, desanima-me, não é opção (tiro férias para doença, só para não perder UM dia a tratar de atestados). Mas preocupa-me não ter a opção do SNS, preocupa-me que quem só tem essa opção se sinta desanimado ou pouco acompanhado e com pouca perspectiva que as coisas melhorem. E com o teu discurso (e do que ouvi dos médicos que acompanham o meu familiar) também me preocupa que já nem os profissionais que trabalham no SNS tenham esperança que as coisas melhorem.
    Enfim, estou pouco optimista, vejo a balança público vs privado muito desequilibrada.
    Beijinho

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    1. Eu também não tive como utente experiências particularmente agradáveis nos grandes privados. Nunca fui muito frequente, diga-se, mas cheguei a recorrer à urgência na Luz e na Cuf e tive péssimas experiências. Muito melhor opinião tenho das urgências do SNS. Fui sempre bem tratada, de forma rápida, e nem sempre com colegas que sabiam que era médica. Há dois meses fui à urgência de otorrino do Egas Moniz porque estava há mais de 48h a fazer antibiótico e não melhorava, estive quinze minutos à espera, o colega viu-me em cinco minutos e nem deu ao Pedro tempo para estacionar o carro e vir ter comigo. Desta vez não precisei da urgência de obstetrícia, mas quando precisei na gravidez do Matias fui super bem atendida, quer no São Francisco quer em Santa Maria (agora parece que já não é bem assim). Quando parti o braço e fui à urgência de ortopedia em Santa Maria fui muito bem atendida. Em nenhuma destas situações os colegas sabiam que era médica e fui tratada como uma utente normal. Já em relação à pediatria, tive uma experiência mesmo tenebrosa em Santa Maria (a roçar o criminoso), uma experiência francamente boa na Estefânia e uma experiência muito boa também no São Francisco. É claro que tendemos a recorrer à urgência quando estamos quase a falecer, por isso geralmente somos atendidos depressa. Isto para dizer que a minha experiência com grandes privados é a nível de urgência, e que aí não há nada como o SNS, inclusivamente a nível internacional (já tivemos de ir à urgência em Espanha e em França e nem tem comparação).

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    2. Em relação ao parto, percebo perfeitamente. A minha obstetra só faz partos na Clisa (que agora pertence aos Lusíadas), já fui visitar e aquilo faz-me uma comichão que nem consigo descrever. Não há nada ali que goste: o foco nas condições (não preciso de um quarto onde cabem trinta pessoas, thanks), o trato pseudo-queque, a protecção de si próprios (os bebés não podem andar nos corredores ao colo da mãe, não vão cair e a responsabilidade ser deles!?), etc. Mas assumo que também tenho a antítese deste estilo, e só ouvir a colega auxiliar a dizer 'mas oh mamã isto oh mamã aquilo' cheira-me logo a paternalismo :P Se a Gabriela nascer antes das 38 semanas não vamos para lá, se nascer depois é muito provável que sim porque queria mesmo que fosse a minha obstetra a fazer-me o parto, mas não é de todo uma opção com a qual me sinta confortável honestamente. Pior, sinto mesmo que estou a trair algo em que sempre acreditei. Mas depois lá está, tenho amigas que tiveram bebés agora no público, e tirando o Garcia os outros hospitais também parecem andar pelas horas da morte na obstetrícia.

      A saúde privada é mesmo, mesmo muito lucrativa. É impressionante. E os seguros então, é uma coisa abismal. Eu tenho Multicare desde que vim viver para Lisboa e pago 15€ por consulta! Quem é que vai para o público nestas condições? Só mesmo quem não tem alternativa. E eu acho mesmo muito mal tudo isto. O Hospital da Luz agora está ainda maior, tem imensas sucursais, e nos nossos hospitais do SNS há pouco espaço, chove, está tudo a cair e mais não sei o quê.

      E por acaso eu tenho mesmo a ideia que o que ainda vai safando a coisa são os centros de saúde, embora também sinta que o meu centro de saúde já funcionou bem melhor. Mas não tenho razão de queixa dos médicos ou dos processos administrativos, por exemplo. Se preciso de um atestado basta-me mandar um mail à minha médica e ela passa e deixa na secretaria, se preciso de consulta também, por aí. Inclusivamente já cheguei a recorrer ao centro de saúde em vez de ir à urgência e fui sempre bem atendida. Mas conheço pessoas com experiências diferentes, depende muito do centro de saúde.

      Eu acho que nós continuamos com esperança que as coisas melhorem, mas é porque somos todos uns idealistas. No geral, a malta acha que é o cheirinho a dinheiro que nos atrai para a medicina mas acho que até é mais a questão de 'vou salvar vidas e ser especial e ajudar pessoas', e esse tipo de inocência não se perde de um momento para o outro. Mas vai-se perdendo um bocado todos os dias, principalmente quando vemos que os anos passam, nada melhora e cada vez temos um pior serviço a oferecer aos nossos utentes.

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    3. E tem médica de família em Lisboa, Joana? Eu mudei-me para cá há 8 anos e ainda não tenho médico de família. Sempre que vou ao centro de saúde tenho de ser atendida por um médico que nesse dia esteja a atender os que não têm médico (e há sempre imensa gente na fila para essas consultas).

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    4. Tenho, mas foi uma trapalhada. Basicamente tinha médica de família no Porto e quando engravidei quis passar o processo para cá. Fui ao meu centro de saúde grávida de cinco semanas e marcaram-me a primeira consulta para as 17 semanas! Quando perguntei como fazia para ter a eco e as análises, o senhor da secretaria respondeu 'pensasse nisso mais cedo' (é um senhor particular, há uns meses o meu centro de saúde mudou de sítio e quando fui parar ao sítio errado este mesmo senhor disse 'então mas não sabia que mudou de morada? Até apareceu a Ministra da Saúde nas notícias a inaugurar!' -.-). Vai daí, pedi o livro de reclamações e escrevi uma reclamação por só ter consulta às dezassete semanas e depois telefonei e pedi para falar com a enfermeira chefe e expus a situação. Arranjaram-me logo consulta, e na primeira consulta a médica perguntou se eu queria ficar na lista dela (deve ter pensado 'são médicos, novos, não dão grandes chatices'). Aqui acho que tive sorte por ser médica honestamente, não sei se teria acontecido o mesmo se não fosse (não a parte das consultas, mas a parte de ter ficado logo com médica atribuída).

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  7. Boa tarde, gostei imenso do seu post relativamente ao encerramento das Urgencias, escreveu de uma forma direta e clara , penso pelo facto de ser tão realista e esclarecedor deveria ser publico. todas as pessoas entenderiam e deixariam de mandar bitaitadas
    Bem haja por toda a informação .

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    1. Obrigada :) Eu acho que no geral as pessoas sabem disto, mas optam por focar-se noutras questões, não sei bem. Mesmo quando fizemos greve senti mesmo que os meus doentes perceberam que estava a fazê-lo por eles, para defesa deles. Acho que ninguém gosta de sentir que não está a fazer um bom trabalho, principalmente quando as razões para isso não dependem de nós. Mas pronto, depois leio comentário e perco um bocadinho a fé que estejamos todos do mesmo lado :)

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  8. Este é um assunto que me entristece imenso. Não sou médica, nunca quis ser, mas tenho grande respeito por pessoas q colocam, muitas e muitas vezes, o outro à frente das próprias necessidades.
    Sempre fui apoiante fervorosa do SNS, tenho pena que as pessoas não percebam quão maravilhoso é ter um sistema de saúde público com a qualidade que era atribuída ao sns. No entanto, ultimamente, o que vejo são médicos sobrecarregados e desmotivados e isso preocupa-me muito.
    Numa consulta de obstetrícia, no CMIN, tive um obstetra maravilhoso que me chamou com algum atraso e me disse “Francisca, peço desculpa pelo atraso, mas aqui estamos a fazer limonada sem limões e às vezes temos de usar laranjas”. Eu não sou das que reclama pelo atraso, agradeço que se um dia precisar, que atrasem a próxima consulta p perderem um pouco de tempo comigo, mas aquele médico tinha 3 consultas para o mesmo horário!!! Como é possível?! A não ser que ele se dividisse em três, nunca conseguiria atender as 3 pessoas ao mm tempo e isto choca-me, pq apesar dele ser interno é um óptimo médico como é difícil de encontrar e via o esforço que fazia por ser atencioso, profissional e empenhado e mesmo sobrecarregado, nunca me tentou apressar ou me fez sentir como um estorvo.

    Na mha última consulta no CS a mha médica tb me disse que ia embora no final do ano. Tem o exame de especialidade em Abril e depois pode ser colocada em qq lado, sendo que gostava muito de ficar no Norte. Uma médica maravilhosa, cm nc vi. Criei um laço tão forte com ela q me desmanchei a chorar enquanto ela ouvia a bebé. Uma médica q nos abraça com o olhar (e com os braços), que é empática e muito competente, que cuida dos mais novos aos mais velhos sempre com um sorriso na cara (não q seja obrigado a isso mas pq faz parte da sua essência), é de valorizar. Não concordo que as pessoas só vão para medicina pq querem ganhar rios de dinheiro, pelo que tenho visto, pelo menos nos médicos mais novos, são pessoas com mta vocação e amor pela profissão. Já tive outras experiências diferentes c médicos mais velhos e, por isso, tenho medo e muita muita pena de perder a minha médica tão querida.

    Isto tudo para dizer que estou bem preocupada com o rumo que o sns vai seguir com o fecho de especialidades tão importantes como obstetrícia e pediatria (não q as outras não sejam, claro) e pergunto-me se terei de desistir e procurar um privado (do qual não sou propriamente fã pq nc senti que fosse melhor atendida no privado do que no público). Espero que sejam fortes e nunca desistam*

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    1. Porque tem x vagas e não chegam, por isso marca as pessoas para a mesma hora como extras. No meu serviço isso é muito raro acontecer (somos mais adeptos de sair às 21h ou, no meu caso, de ficar sem almoçar dias e dias seguidos), mas nas minhas consultas de cardiologia é frequente chegar lá e a colega estar duas horas atrasada. Depois entro e ela está furiosa, a queixar-se de tudo, a dizer que qualquer dia desiste e enfim. Mas é uma óptima colega, faz uma coisa super específica (cardiologia da grávida) e vai ser uma grande perda para o nosso hospital. Lá está, é o que nos está a acontecer a todos.

      Eu acho que durante algum tempo as pessoas talvez fossem para medicina pelo dinheiro ou pelo facilitismo de ter sempre trabalho. Mas agora isso acabou. Na geração do meu irmão já ninguém acha que vem para medicina ter dinheiro, prestígio, vagas garantidas ou o que quer que seja, por isso sobram os totós idealistas. Mas lá está, até esses perdem a vontade depois de levarem porrada hipotética e às vezes real.

      Eu em princípio vou parir ao privado e nem consigo descrever o quanto essa ideia me transtorna. Mas faço o quê? Santa Maria está péssimo, o São Francisco está péssimo, o Garcia está óptimo na obstetrícia e péssimo na pediatria, o Amadora Sintra está mais ou menos mas depois leva com a malta dos outros hospitais... Sobra Loures, de onde tenho poucas referências (embora as que tenho sejam positivas). Não é mesmo fácil, e nem consigo expressar o quanto isto me deixa triste.

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    2. E a MAC? Tive a minha filha lá em fevereiro deste ano e uma excelente experiência. Mas estava muita gente, urgências sempre cheias (fui lá 4 vezes no espaço de 24h e só na última fiquei internada, tinha contracções muito frequentes e dolorosas mas dilatação que não acontecia) e muita gente a ter os bebés também (no meu quarto éramos 5 mulheres e a enfermeira estava a dizer que estavam quase cheios). No entanto, fui muito bem atendida e nunca senti essa pressão ou pouca importância ao meu caso por estarem cheios.

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    3. A MAC... Fiz o meu estágio de obstetrícia na MAC. Adorei. Tenho imensas amigas que tiveram os filhos na MAC e adoraram. É sem dúvida uma óptima escola de obstetras. Mas depois não sei, parece que não me consigo desligar das coisas a que assisti, que não sendo de todo graves eram chatas (enfermeiras a destratar o pessoal, anestesistas inexistentes e por isso epidurais inexistentes, quartos com oito puérperas e bebés sempre a chorar, condições sofríveis...). Sei que entretanto as coisas melhoraram bastante (isto foi em 2011!), mas continuo traumatizada :P

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  9. Concordo com o que dizes e assusta-me esse cenário negro traçado por toda a gente que conheço que trabalha ligada à saúde. Sou de uma área completamente diferente (direito) e assumo sem problemas que quem trabalha em saúde (especialmente médicos e enfermeiros) devem sim ganhar mais que a generalidade dos profissionais qualificados e devem sim ter boas condições para trabalhar. São pessoas que literalmente têm a nossa vida nas mãos, porque deveríamos achar que merecem trabalhar cansados, mal remunerados, descontentes? O meu trabalho também implica muita responsabilidade, mas se eu fizer asneira quanto muito uma empresa perde uns milhares de euros, ninguém morre. O mesmo não se pode dizer de um médico ou enfermeiro.

    Tenho imensa pena do que está a acontecer, o meu pai é doente cardíaco seguido no público onde lhe salvaram a vida há 14 anos atrás e tenho imenso medo de como será atendido se tiver de ir a uma urgência agora (para já é só seguido nas consultas/exames de rotina e de forma muito profissional). Também tive o meu parto este ano no público e só posso dizer maravilhas. Os profissionais foram excelentes e aplaudo todo o dinheiro dos meus impostos que seja para melhorar o SNS. Espero mesmo que as coisas melhorem para vocês e acreditem que deste lado há muitos cidadãos agradecidos pela vossa dedicação.

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    1. Bem, se nós fizermos asneiras geralmente também ninguém morre. Aliás, reformulando, é preciso sermos mesmo muito maus para pormos a vida de alguém em risco, até porque trabalhamos em equipas com vários técnicos (até de áreas diferentes) e por isso raramente decidimos sozinhos. Este caso do tal obstetra é estranhíssimo por isso mesmo: é preciso ser muito mau para cometer erros destes, e sinceramente uma parte de mim até acha que o colega sabia e optou por não dizer nada (por ser objector de consciência, não sei?). Caramba, até eu que sou psiquiatra olho para a eco da minha filha e percebo o que lá está, não é assim tão difícil. Não consigo ver se tem o cérebro bem, mas consigo contar os rins e ver se tem nariz.

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    2. Eu nem fui para ciencias no secundário, mas sim para Linguas e Humanidades, e também consigo ver nariz e cerebro e muita coisa. Concordo contigo a 100% e foi a primeira coisa em que pensei, quando ouvi a noticia (aliás, a segunda. A primeira foi "essa noticia é inventada, não pode ser verdade!")

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    3. Eu pensei logo nisso. É preciso ser mesmo muito mau, portanto ou o senhor teve uma travadinha qualquer (três vezes nesta situação, fora as outras para trás) ou sabia o que estava a ver e não disse nada, o que é igualmente criminoso. Ou então não sabia mesmo o que estava a ver, mas isso parece-me no mínimo bizarro. Qualquer obstetra sabe o básico de ecografia, mesmo que não seja especialista na área. A minha obstetra mandou-me logo fazer as ecos com outra colega, disse que não era de todo das áreas em que era melhor, e mesmo assim quando tive a travadinha 'será que a minha filha não vai ter uma ventriculomegália como estes miúdos que vejo nestas consultas de neuropediatria?' ela conseguiu ver os ventrículos e dizer que estavam bem :P Mas enfim, é uma história muito estranha mesmo.

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  10. Olá Joana, obrigada pelo texto que, acredito, reflecte as tuas preocupações como médica consciente da realidade. Acredito que não estejas sozinha nessa tua análise e que muitos dos teus colegas de acompanhem. O problema, do meu ponto de vista, é que essa vossa posição não tem rosto público. Aquilo que as pessoas vêem, é o rosto da Ordem, preocupada em esconder, e do Governo preocupado em mascarar os números, fugir à realidade e apontar o dedo. Nenhum serve as pessoas. É triste...

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    1. Eu tenho com a Ordem uma relação muito má. Pagamos 200€ por ano para aquilo (somos obrigados) e sinto que não defendem os meus interesses, não trabalham como deve ser, estão a dormir nestas situações de colegas que deviam ser afastados... O Ministério Público também não sei bem o que anda a fazer sinceramente. Uma coisa é um erro, caramba, acontece, principalmente em especialidades dadas a isso (obstetrícia, cirurgias no geral, pediatria, etc). Mas todos sabemos que NUNCA acontece nada. Tenho casos de negligência médica na família e foram precisos ANOS para serem apuradas responsabilidades, e quando nos foi dada razão já o meu familiar tinha morrido...

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    2. Caramba, é vergonhoso mesmo. Estamos entregues ao diabo, como se costuma dizer!

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    3. Estamos é todos a funcionar mal! A saúde, a justiça... A educação... ☹️

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  11. Nem sei por onde começar, depois de ler o teu post e todos os comentários.

    Ando há que tempos para escrever sobre o SNS no meu tasco, mas ainda não consegui.

    Eu sou defensora acérrima do SNS, mas só o conheço na óptica do utilizador, e de relatos que vou lendo e ouvindo de amigos e conhecidos que o conhecem por dentro. É triste. É deprimente. Quando nos falta a saúde, o que nos resta do papel do Estado? Nem a educação se salva, neste momento...

    Eu sou daquelas que não entende os ordenados dos médicos. Não entendo. E acho que os médicos deviam exigir ainda mais! Pegando no exemplo dos pilotos, que surge nos comentários: não há maçãs podres nos pilotos (ou é muito difícil que haja, mas não esqueçamos aquele que há uns anos atirou um avião contra as montanhas...). Mas há exames físicos regulares, e há exames às competências também regularmente. Fazem cursos, reciclagens, e fazem revalidações das certificações, com bastante frequência, para se garantir que eles sabem o que lá andam a fazer. Porque em cada vôo eles levam dezenas, ou centenas, de vidas nas mãos (além de um brinquedo de muitos milhões que é chato estragar...). E eles recebem rios de dinheiro. Sim, recebem. E têm limites super rigorosos quanto ao número de horas seguidas que podem trabalhar. Porque se reconhece que ninguém consegue manter elevados níveis de concentração durante demasiadas horas.

    Se os pilotos estão protegidos, se são "controlados", se ganham bem, porque é que os médicos, que todos os dias salvam vidas nos nossos hospitais, não têm o mesmo tratamento? É porque não pagaram um curso de 50 000 euros para poder pilotar? É porque têm regalias como a ADSE (Lol)? É porque não interessa?

    Não sei. Faz-me uma confusão tremenda. Não estou assim tanto por dentro do tema. Mas há uma Ordem dos Médicos... Se há áreas em que as greves funcionam e se consegue alguma coisa, façam mais greves! Lutem pelos vossos direitos! Caramba! Vocês precisam tanto de melhores condições! Vocês merecem tanto!

    É mesmo das coisas que mais mexe comigo... E olha que ainda há um ano atrás, eu cheguei à MAC às 10h da manhã para ser internada e operada e mandaram-me para casa por não haver anestesistas. Claro que isto me causou um transtorno imenso, além de todo o stress e logística associada (e a fome que eu passei, já agora...), mas em momento algum eu critiquei os médicos.

    Critico, isso sim, este governo e este sistema, que nos enganam com medidas populistas, mas que deixam a saúde definhar... Que deixam os hospitais sem médicos e enfermeiros, que deixam os equipamentos avariados porque não há dinheiro para os mandar arranjar, que deixam muitas e variadas especialidades com 1 ano ou 2 de espera...

    Um dia destes, ainda te mando um e-mail a pedir uma opinião, porque ando mesmo perdida, mas não quero desistir do SNS.

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    1. Mas muito sinceramente eu não acho que nós ganhemos mal. Quer dizer, acho que ganhamos porque acho que no geral todos ganhamos mal, e acho que todos devíamos ganhar melhor. Não acho que seja uma prioridade que isso aconteça já, e também não sinto que isso iria atrair mais médicos precisamente porque não é uma questão de dinheiro, é uma questão de condições de trabalho. Óbvio que se me atirassem mais cem ou duzentos euros ia ficar toda contente, mas ia ficar ainda mais se contratassem mais colegas, aumentassem o meu serviço, os miúdos deixassem de esperar quatro meses por uma consulta, contratassem mais psicólogos, diminuíssem o volume das turmas permitindo aos professores fazerem um trabalho mais dirigido a alguns miúdos da minha consulta que muitas vezes só precisam de mais atenção/limites, por aí fora.

      No geral não sinto que achemos que ganhamos mal, temos as dificuldades que toda a gente tem (dificuldade de vagas em escolas públicas por isso pagar escolas privadas, casas caras, etc). Também não me importava de ganhar cinquenta mil euros, mas acho que seria insustentável para o Estado :P

      Fazer mais greves é muito complicado. Admiro muito os enfermeiros por aquilo que fizeram nesse aspecto, mas acho que nós tendemos a ser uma classe muito 'queixa-se e depois deixa andar'. Até agora fiz greve SEMPRE, mas a verdade é que sentimos que não se chega a lado nenhum e no fim acabamos por estar a prejudicar os nossos doentes.

      Os anestesistas estão mesmo pelas horas da morte. Quando o Pedro foi assinar o contrato dele eu também fui, e o senhor dos recursos humanos perguntou logo 'Também é médica? É anestesista?' com um ar quase esfomeado. Tenho amigos internos a quem fazem propostas milionárias quase, mas depois lá está, é sempre com condições muito estranhas. Não sei muito bem o que se passa na anestesia, se há poucas vagas, se há poucas contratações, não sei.

      E eu até acho que a questão das listas de espera já esteve bem pior! A dada altura, com a abertura das áreas de referenciação, o hospital do Pedro via doentes em dois meses, o que para oftalmologia é óptimo. Agora mudou de hospital e nunca na vida isso acontece, mas até na minha área temos sítios com oito meses de espera... É mesmo mau, e lá está, não é certamente porque andamos todos sem fazer nenhum...

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    2. Mas ganham, Joana. Ganham muito mal, face à exigência e ao nível de responsabilidade do vosso trabalho.

      E quando eu falava de lutarem por melhores condições, não falava apenas de dinheiro. Falava disso tudo que tu referes. Falava de contratarem mais médicos e reorganizarem os serviços, para que ninguém tenha de fazer turnos de 24 horas. Se os controladores de tráfego aéreo não trabalham mais de 6 horas seguidas, porque é que vocês hão-de trabalhar?

      Se vos atirassem mais 500 euros por mês, e vos garantissem que ia haver mais gente nos serviços, não teriam a tentação de voltar ao público? Eu gosto de acreditar que sim... O dinheiro não é tudo, mas ajuda. E se houvesse 1, 2, 3 médicos em cada serviço a querer voltar, e se abrissem as vagas necessárias em cada serviço, as coisas podiam ir melhorando a pouco e pouco. Assim, só há cada vez mais gente a sair (ainda há pouco tempo soube de mais uma pessoa da tua especialidade que deixou o país)... É triste.

      Há especialidades em que os tempos de espera continuam assustadores...

      Uma dúvida: num comentário lá em cima falas em vários opções de hospitais públicos, mas não na MAC. Não é opção para ti?

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    3. Bem, também não comparemos um controlador de tráfego aéreo com um médico :P Mas sim, acho que turnos de 24h são um escândalo, e ainda é pior em algumas especialidades. Há uns anos houve toda uma polémica por causa da neurocirurgia, mas na altura eu tinha lá um amigo que fazia 48h de banco seguidas! Na neurocirurgia! A operar cérebros! Há sítios onde tenho amigos (vá, eram meus amigos, agora são meus conhecidos porque nunca os vejo) que fazem 100h semanais. CEM HORAS. Bastava fazermos todos 40h semanais com 12h de urgência incluídas nessas 40h e sem bancos extra que já ficávamos todos satisfeitos, não é preciso muito.

      Eu tenho vários colegas que deixaram o país. E malta mais nova então, nem se fala. No ano comum entrámos 24 e só saímos 16, o resto das pessoas emigrou. Um terço. É imenso.

      Tenho um bocado trauma da MAC sinceramente. Do estágio que fiz lá fiquei com a ideia que são óptimos do ponto de vista técnico, mas um bocadinho complexos do ponto de vista humano. Entretanto sei que as coisas melhoraram porque conheço várias pessoas que tiveram lá bebés recentemente, mas acho que ainda não fiz as pazes com aquilo :) Mais depressa vou para Loures, que tem uma equipa que foi da escola da MAC :)

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    4. Só falei mesmo no sentido de serem profissões de muita responsabilidade e stress (umas especialidades mais do que outras, bem sei), mas em que queremos as pessoas focadas e com toda a sua capacidade de discernimento. Eu não quero ser vista por um médico que trabalhe 100 horas por semana!... Nem um taxista, nem um padeiro, sequer!...

      Não entendo. A sério. Mesmo em termos económicos, não saía mais barato contratar mais médicos, em vez de pagar horas extra aos poucos que há?... É daqueles coisas em que a função pública ainda está demasiado obsoleta, e depois resulta nestes disparates...

      Vou-te chatear no insta :)

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    5. E o SIGIC? Uma cena que o Estado criou, em que basicamente paga mais dinheiro à malta para ir trabalhar fora de horas e ao Sábado para fazer mais consultas e cirurgias? Com aquele dinheiro contratavam-se mais médicos, que depois por sua vez faziam mais cirurgias e consultas :P Não compreendo mesmo a gestão destas coisas sinceramente. Quer dizer, compreendo, é uma forma de rentabilizar o espaço. Mas a longo prazo (o SIGIC tem uns quinze anos já!) ficava mais rentável aumentar os sítios e contratar mais pessoas...

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  12. Grande texto!! Muito bom!! Tínhamos um SNS que era modelo para muitos países e ano após ano é vê-lo a cair, é triste, muito triste!!

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  13. Ainda hoje tivemos consulta com o Pediatra e ele diz que a Estefânia também está mal, saíram 2 otl ficando outros 2 e os únicos oftalmologistas também se reformaram. Sabes o que eu acho? Acho que se paga pouco pela saúde em Portugal. Por exemplo eu não me importo de pagar o seguro na Holanda, só me chateia os maus profissionais que eu e montes de pessoas à minha volta apanham, e por isso tenho cá pediatra e venho cá fazer análises de rotina porque uma colega com 64 anos vai, pela primeira vez na vida fazer análises ao colesterol e triglicéridos, porque tem uma calcifiação numa das membranas de uma válvula cardíaca. A mulher de um colega do meu Marido, 28 anos nunca fez uma citologia até ter dores, cancro do colo do útero, tem metástases nos ossos e pulmão, porque citologias só aos 30 de 5 em 5 anos...
    ah mas quem recebe mal tem comparticipação do estado total ou parcial do seguro e afins.

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    1. Eu sou totalmente contra seguros :P Mas acho que não há investimento suficiente na área há muito tempo. Não é por-nos a ganhar mais, é investir nos hospitais como deve ser.

      O Pedro está aqui a dizer que acha improvável que os oftalmologistas se tenham reformado todos porque não tinham todos idade :P Acha que talvez uma possa ter-se reformado. Talvez os outros tenham saído? Não estou na Estefânia desde Março, não sei como andam as coisas. Por acaso diga-se que dos hospitais por onde passei ainda era dos que funcionava melhor, mas também mau era sinceramente.

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    2. És contra seguros pq? Eu acho que quem pode ter, deve ter e assim libertar o SNS. Eu por exemplo, tenho seguro de saúde pago por mim e nunca vou ao SNS. Se posso pagar, para que hei-de eu ir entupir o sistema? Pode parecer parvo, mas a mim faz-me sentido. Aliás, há uns anos, tive 2 amigas grávidas que, apesar de terem seguro faziam questão de ser acompanhadas no publico. Se fossem pessoas com dificuldades eu percebia, assim faz-me confusão... Sei que até, ver é um direito, mas dá-me a sensação de estar a roubar quem mais precisa :-)

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    3. Não sou contra os seguros por si, mas sou contra os sistemas de saúde que se baseiam em seguros. Quer dizer, na verdade se eu mandasse não havia hospitais privados e por isso os seguros também seriam redundantes, mas sei que isso não está minimamente adaptado à realidade das coisas. Acho que haver muita gente que opta por ser seguido no privado (e eu percebo estas opções, atenção!) passa a ideia que as coisas no SNS não estão assim tão mal. Se fôssemos todos seguidos no público as listas de espera aumentavam ainda mais, e depois ia mesmo ser necessário fazer algo em relação a isso. Mas mais uma vez, sei que isto é uma ideia utópica e que obviamente que quem tem possibilidades vai ao privado. Só acho que não devia. A saúde é um direito de todos nós, e devia ser fornecida pelo Estado gratuitamente (é aquilo em que eu acredito, obviamente que outras pessoas terão ideias diferentes).

      Eu sou acompanhada no centro de saúde e no hospital (na cardiologia), e se as coisas não estivessem péssimas também tinha a miúda no público, mesmo tendo possibilidades para tê-la no privado (e, ironicamente, um seguro de saúde feito pelos meus pais quando saí de casa aos dezoito anos que eles continuam a renovar). Mas lá está, eu também teria possibilidades para ter o Matias numa escola privada a partir da pré (com esforço financeiro, mas teria) e queremos passá-lo para a pública, precisamente porque acreditamos que a educação também deve ser fornecida pelo Estado. É roubar uma vaga a quem pode menos? Sim. Mas não é culpa nossa, é culpa de quem não cria vagas suficientes para todos.

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    4. Mas Joana, aqui na Holanda não há hospitais privados. Apesar de ter seguro não me podem rejeitar mesmo tendo alguma condição porque é obrigatório. Não sei se é um bom sistema só queria dizer que acho que se se pagasse mais para ter melhor serviços eu não me oporia. O Problema é quando se paga mais e não se vê melhorias!
      Acho que em Portugal vocês são mal pagos para as condições em que têm de trabalhar muitas vezes. Mas isso não se resolve aumentando ordenados mas sim melhorando as condições de trabalho.

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  14. Olá Joana.
    Vou seguindo o teu blog e nunca fiz um comentário, mas hoje não resisti.
    Ouço muitas vezes, muitas pessoas, a criticarem o SNS por tudo e mais alguma coisa, e, não sendo eu médica, e não tendo consciência de nada do que se passa nos hospitais e centros de saúde, tenho que dizer que nem tudo é mau. Pelo menos os profissionais de saúde com quem me cruzei e ainda cruzo..caramba, admito que não são todos iguais, mas que os há bons há.
    Tenho seguro de saúde, mais por pressão do meu marido que acha que devemos nos precaver para qualquer eventualidade, do que por opção própria, mas tenho e recorro muito poucas vezes.
    Quando era criança, sofri de Leucemia Linfoblástica Aguda, fui tratada no IPO do Porto, e acho mesmo que aquelas pessoas que estavam ali, naquela pediatria (médicos, enfermeiros, auxiliares...) foram escolhidos a dedo. Pessoas maravilhosas, profissionais como eu nunca vi, com um cuidado enorme com os doentes e com as famílias. Mesmo exaustos, faço ideia dos horrores que viam, tinham sempre uma palavra de esperança e conforto connosco.
    Não tenho rigorosamente nada de negativo a dizer de lá.
    Da minha gravidez fui acompanhada no CS, também nada mas mesmo nada a dizer de mal, assim que soube que estava grávida dirigi-me lá marcar consulta, priorizaram a marcação de modo a não falhar nenhum rastreio importante, fui sempre bem atendida e assim continuo até hoje, também com a minha filha seguida lá e sempre com nota positiva.
    O parto foi no Pedro Hispano, que a par do que disse acima do IPO, subscrevo totalmente.
    Toda a gente naquele serviço é maravilhosa. Não me esqueço do carinho com que fui tratada, das enfermeiras tão meigas, tão queridas, tão cuidadosas comigo e com a minha bebé.
    Agora estou grávida novamente e pretendo ter o parto novamente no Pedro Hispano e espero poder dizer o mesmo, que tudo corra bem.
    Antes desta gravidez, tive ainda outra, que infelizmente não correu bem e abortei :( entrei no Pedro Hispano, ainda sem saber (ou sem ter a certeza) que estava a abortar, e claro que a minha reação naquele momento em que soube foi de choro, gritos, revolta, enfim... não me vou esquecer nunca da maneira como fui tratada pela médica e pela enfermeira. Posso dizer que pude gritar à vontade, chorei o que me apeteceu, que elas choraram comigo, deram-me a mão, abraçaram-me e embora não pudessem evitar o que estava a acontecer, senti mesmo que estava com pessoas boas, que gostam muito daquilo que fazem, que se preocupam com mais do que aquilo que cai na conta bancária.
    O SNS de saúde é muito bom, temos profissionais maravilhosos, e só peço ao universo (ou seja lá quem for) que no dia em que os meus filhos precisarem, sejam sempre tão bem tratados como eu fui.
    Casos como este terrível (que nem tenho palavras) que sirvam para alertar a Ordem que no meio destes profissionais tão bons, não podem e nem têm lugar srs como esse, que mesmo após tantos erros continuou a exercer sem nenhuma represália.
    Adorei o teu post.
    Beijinho

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    1. A questão é que as represálias também não vão acontecer agora. Ainda ontem falava disto com o Pedro e ele dizia que mesmo dentro das averiguações e afins não vai haver consequências como deve ser, tal como nunca há nestas situações. É suspenso, ok, daqui a x meses está de volta. Todos conhecemos casos assim. Enfim, estas situações entristecem-nos e enfurecem-nos de uma forma que nem consigo descrever.

      Nós continuamos a ter profissionais óptimos mesmo, e sinto mesmo que salvo raras excepções estamos mesmo todos a fazer o nosso melhor. Às vezes o nosso melhor não chega, às vezes o nosso melhor é maldisposto porque são duas ou três da manhã, mas continuamos na luta 🙂 Obrigada pelo comentário, sabe bem ler que há quem tenha óptimas experiências 🙂

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  15. Li este post nas minhas férias e não consegui comentar, por isso vai agora :D Fico mesmo contente que alguém traga este assunto à baila porque é algo que já me preocupa há muito tempo: os horários de trabalho dos médicos. Eu não me sinto segura de ir a uma urgência e pensar que a pessoa que me está a tratar está a trabalhar há 16 horas sem descansar. Não acho razoável que os médicos façam estes turnos ridículos e em algumas especialidades nem sei se a jornada de trabalho não devia ser inferior a 8 horas. Não é que os médicos não sejam seres em geral competentes, está cientificamente provado que muitas horas de trabalho levam a cansaço e cansaço torna mais provável erros. Um erro para o comum dos mortais resulta muitas vezes em dinheiro perdido para a empresa, para um médico há uma maior probabilidade de resultar na perda de uma vida - e se o dinheiro e os clientes perdidos se recuperam, uma vida perdida é irrecuperável.

    Não sei se haverá médicos a ganhar assim tão bem no SNS, eu conheço alguns em início de carreira e não penso que ganhem bem. Não morrem à fome, e ganham melhor que a maioria das pessoas em início de carreira noutras profissões, mas tendo em conta o que estudaram e o esforço que a profissão exige, eu não acho que ganhem bem. Se decidem ir para o privado ganhar o dobro e trabalhar metade, acho muito bem. Os médicos não são mártires, não têm de ficar no SNS a aturar condições de trabalho sub-humanas para bem da sociedade. Qualquer pessoa, sentindo-se insatisfeita no seu trabalho, tem o direito de procurar um emprego novo e se não o faz, é porque é tonto/a.

    O que eu gostava mesmo, mesmo, era que o governo investisse num dimensionamento adequado do pessoal dos hospitais (médicos, enfermeiros, auxiliares). E de onde vem o dinheiro para contratar essa gente toda? Ora todos nós pagamos impostos. Quanto aos outros não sei mas eu gostava de ver os meus impostos aplicados em serviços públicos e não no pagamento de subvenções vitalícias nem salários para as centenas de deputados que "trabalham" na Assembleia (muitos deles sinceramente não sei o que lá fazem). São apenas dois exemplos de coisas nas quais não gosto de ver os meus impostos aplicados, há muitas outras. Mas como ninguém nos dá a escolher, lá vamos nós continuar a gramar com tempos de espera de meses para marcações de consultas e médicos exaustos nos hospitais públicos.

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    1. Lá está, eu acho que os nossos erros não são assim tão dramáticos porque a ideia de que trabalhamos sozinhos é falaciosa. A partir do momento em que um doente entra num hospital passa por uma equipa multidisciplinar com vários médicos com níveis de experiência variados, enfermeiros, auxiliares e técnicos de diagnóstico. Para correr alguma coisa mal era preciso toda a gente fazer bodega. A excepção a isto são as cirurgias claro, onde um médico pode efectivamente errar e fazer porcaria. Às vezes a malta questiona porque é que eu tenho medo de cesarianas, pronto é mais ou menos por isto :P

      Dito isto, não tem comparação passar oito horas diárias num internamento, a dar consultas (o meu caso) ou na urgência. São exigências completamente diferentes, níveis de cansaço diferentes, responsabilidades diferentes. No nosso caso, uma ideação suicida mal avaliada pode levar a um suicídio, por exemplo (embora, mais uma vez, trabalhemos sempre em equipa com um enfermeiro e pelo menos outro médico, quando não são mais). No internamento os quadros tendem a ser mais estáveis. Na consulta há um grande desequilíbrio, às vezes tenho consultas super tranquilas em que nada se passa, noutras miúdos extremamente agitados e agressivos (as vezes em que fui agredida aconteceram todas em contexto de consulta, com miúdos que já conhecia) (e com isto não quero obviamente dizer que levei porrada a sério nem nada que se pareça atenção, uma vez levei um pontapé nas costas enquanto fazia uma contenção física de um miúdo agitado, outra levei um murro num braço, etc).

      No início de carreira, no meu tempo, ganhava 1100 euros limpos com tudo. Foi o meu salário durante todo o ano comum, em 2015. Quando entrei na especialidade passei a ganhar 1200, e agora ganho entre 1300 e 1400, dependendo dos meses e se faço urgências à noite ou não (ganhamos mais uns vinte ou trinta euros por banco à noite). Não é mau, mas também não é brilhante. Um especialista no SNS ganha uns 1800 euros, depois vai dependendo de outros factores (bancos extra, grau de especialista, por aí). E por incrível que pareça conheço imensa gente que se mantém no SNS por amor à camisola, até porque sejamos sinceros: 1800 euros não é um salário assim tão mau, e o privado tem as suas chatices. Mas cada vez conheço menos gente assim sinceramente. Lá está, agora a malta opta mais por ter menos trabalho, mesmo que isso envolva menos dinheiro.

      Eu não me importava nada de pagar mais impostos se isso implicasse injectar dinheiro no SNS, juro. Mas era injectar dinheiro a sério, com aumento dos hospitais (contratar mais médicos serve de pouco se eles não têm sítio onde trabalhar, no meu serviço temos esse problema por exemplo), aumento dos técnicos não-médicos (não me adianta nada fazer mil primeiras consultas se depois só tenho duas psicólogas a quem referenciar), melhoria dos exames complementares, aumento dos blocos operatórios e por aí fora.

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