26 de outubro de 2016

O que é isto da vocação?

Na sequência da situação da mocinha que não entrou no curso de Medicina e escreveu uma carta ao Presidente da República, leio muitos comentários sobre 'a vocação' para ser médico. E sorrio de uma forma condescendente.

Quando eu tinha dezoito anos não podia estar menos preocupada com isto da vocação. Tinha boas notas (tinha óptimas notas, na verdade) e sabia o que queria da vida: viajar. Até queria ir para psicologia, mas o que queria mesmo mesmo mesmo era poder ter uma estabilidade financeira que me permitisse viajar quando eu quisesse, para onde eu quisesse. Na altura, achei que mais facilmente atingiria isso em medicina (o que é verdade, embora tivesse uma perspectiva claramente demasiado optimista em relação ao dinheiro que iria ganhar).



Não queria saber de velhinhos, de criancinhas, de tratar hipertensões ou de salvar vidas. Eu queria era viajar. Conhecer o mundo. Perder-me só para me encontrar a seguir. Tinha o egoísmo (e, digamos, também a inocência) de uma pessoa com dezoito anos. Era uma adolescente irritante, sim, mas não se pode dizer que não soubesse já bastante bem o que queria da vida.

Na altura tive vinte no exame nacional de matemática e quinze nos outros. Abracei a inevitabilidade das coisas: afinal, eu tinha jeito era para a matemática, e claramente pertencia a uma engenharia. Por via das dúvidas, candidatei-me a duas faculdades de medicina: uma no Porto (não me recordo qual delas) e a Faculdade de Ciências Médicas em Lisboa. Depois candidatei-me a engenharia química, bioquímica, engenharia biomédica e ciências farmacêuticas. Entrei na FCML com 18.85 de média.

Tive a média do último colocado nesse ano. Não fui a última a entrar (éramos muitos com 18.85, e o vinte no exame colocava-me em vantagem em relação às outras pessoas com a mesma nota de entrada), mas fui das últimas. E durante meses pensei no que estaria ali a fazer. Eu, que tinha roubado uma vaga a alguém que tinha 'vocação', o que quer que isso fosse. Eu, que só queria ganhar dinheiro e viajar. Eu, que nem queria saber de velhinhos, de criancinhas, de tratar hipertensões ou de salvar vidas.

Costumo dizer que entrei no curso apaixonada por viagens e saí apaixonada por pessoas. A vontade de ir para psicologia transformou-se na vontade de ir para psiquiatria. A vontade de viajar, essa ficou para sempre.

Posso não saber tudo da minha área (caramba, possivelmente nem sei um décimo das coisas que saberei daqui a dez ou vinte anos), mas garanto que dou tudo de mim. Que sou preocupada e atenta. Que gosto genuinamente dos meus doentes, mesmo aqueles que me dão porrada (já aconteceu), que me gritam (é a vida quando se trabalha na saúde mental), que não seguem as minhas indicações, que faltam às minhas consultas e por aí fora. E por isso este discurso da vocação parece-me quase uma idiotice. Afinal, o que é isso da vocação para ser médico?

O Pedro também não queria ser médico. Na verdade, queria ser pianista. Mas não era suficientemente bom (acontece), tinha boas notas, não se queria chatear muito e achou que mais facilmente teria uma vida calma e despreocupada em medicina (mais uma vez, uma perspectiva claramente demasiado optimista). Durante anos ouvi o Pedro dizer que não era isto que queria. Hoje o Pedro é um dos melhores médicos que eu conheço. É um oftalmologista do caraças. E vem para casa cheio de dúvidas, repleto de inseguranças sobre se está a fazer as coisas bem, se está a dar o seu melhor ou se o seu melhor chega.

O Bernardo também não queria ser médico. Queria ir para história. Hoje é um endocrinologista bestial.

A Joana quer ser pediatra desde os quatro anos. Pronto, talvez isso seja a tal vocação de que falam. E é muito boa no que faz. Tão boa como eu, o Pedro, o Bernardo e tantos outros amigos e colegas meus que queriam entrar em medicina desde que nasceram ou que decidiram no último segundo porque até nem se imaginavam em nada de especial e tinham médias óptimas.

E sabem que mais? Todos nos transformámos em médicos bons. Não sabemos ser de outra maneira. Só sabemos dar o melhor de nós: desde o secundário que o fazemos. Diria até que sempre o fizemos. Somos trabalhadores. Somos aplicados. Somos obsessivos. Somos até um pouquinho masoquistas.

Tenho amigos que demoraram dois, três, quatro anos a entrar em medicina. Tenho amigos que demoraram dois, três, quatro anos a entrar na especialidade. Todos têm as suas motivações, mas nunca desistiram (lá está, a tal tendência para a obsessão!).

Eu tive a sorte descomunal (porque sim, foi sorte) de entrar no curso que queria à primeira e na especialidade que queria à primeira. Na altura senti que estava a roubar o lugar a alguém que realmente merecesse, mas hoje sei sem qualquer falsa humildade que sou do caraças no que faço. Tal como teria sido do caraças em engenharia química. Porque a vida é assim: vamos escolhendo os nossos caminhos conforme vamos caminhando.

O resto faz parte de ser pessoa. Empatizarmos com o outro. Preocuparmo-nos com o outro. Gostarmos do outro. Ouvirmos o outro. Ajudarmos o outro. Isso não é ter vocação para ser médico, é ter vocação para ser pessoa. E é uma parvoíce achar que aos dezoito anos isso já existe inegavelmente em nós, acabados de sair da adolescência (vá, ainda na adolescência). É uma parvoíce achar que podemos medir ou avaliar isto em entrevistas.

É uma parvoíce achar que o mundo é tão a preto e branco, onde só existem as pessoas com vocação e os marrões mimados. Porque no mundo real é tudo em tons de cinzento. E ainda bem.

27 comentários:

  1. somos é muito masoquistas. estou outra vez nas minhas crises vocacionais: sinto-me muito burra (aulas em alemão e ter só colegas, de outro plano de estudos, um ano mais avançados não ajuda) e não me consigo imaginar a trabalhar para cima de 40h por semana com apenas 22 dias úteis de férias. não sei que faça :P quando aprenderes o que é ser médica-viajante diz-me :p

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    1. Bem, tenho colegas em Saúde Pública ou Infecciologia que viajam bastante :P E além disso hoje em dia durante o internato é quase 'mandatório' fazeres um estágio no estrangeiro. O Pedro foi para São Paulo, a Joana e o Bernardo vão para Londres, tenho amigos a irem para Madrid ou Nova Iorque... Até tenho uma colega que foi nove meses para Timor :D Há esperança :P

      (A não ser que decidas ter um filho durante o internato, aí é auf wiedersehen estágios no estrangeiro!) :P

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  2. Eu lembro-me de ter 18 anos e estar na turma dos "meninos que iam para medicina". Era uma turma de excelência, onde um era melhor que outro porque tinha tido 19.6 e o outro apenas 19.4. Não faço grande ideia porque é que o destino me quis ali, eu que acabei o secundário com 20 a duas disciplinas, só quer eram duas disciplinas de opção ligadas ao desenho. De resto era uma aluna média. E lembro-me de um dia perguntar aos meus amigos porque é que eles queriam ir para medicina. E a resposta que me davam é que iam porque tinham nota para isso e insistiam comigo que se eu tivesse nota para isso, também iria. Sempre disse que não, eu nunca quis ser médica, eu sei que daria uma péssima médica, odeio sangue, odeio feridas, tenho pouca paciência para algumas pessoas. Acredito que muitos deles hoje sejam bons médicos mas admito que na altura me fazia muita confusão ir para um curso apenas porque se tinha nota para isso e não por gosto. :)

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    1. De certa forma ainda bem que as pessoas não entram para o curso por gosto. Na sua generalidade, o curso é bastante horrível e pouco ou nada tem de médico :P E mesmo a questão de ver sangue é tão relativa... Eu não vejo sangue nenhum durante o meu dia-a-dia :) Há de tudo: especialidades para quem gosta de operar, especialidades para quem gosta de internamento, especialidades para quem gosta de consultas, especialidades para quem quer fazer privado, especialidades para quem quer trabalhar por amor à camisola... Enfim, é uma profissão tão gira e abrangente que não há como não gostar disto sinceramente :D

      Mas sim, também sentia essa pressão e o meu irmão (também aluno de 19s) sentiu. Acabou em engenharia na mesma :)

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    2. Agora sei que nem todos os médicos vêem sangue mas aos 18 anos acho que era essa a minha ideia generalizada. :) De qualquer forma, nem agora aos 32 seria capaz de escolher uma especialidade que eu gostasse de exercer, nada me seduz nesse mundo (digo eu, que até trabalhei num hospital mas na área de estudos genéticos e adorei, isso sim, era o meu trabalho de sonho para o resto da vida :) ).
      Ainda assim, acho que haverá pessoas que entraram em medicina apenas pela nota e não por terem o mínimo perfil para a coisa. Pelo menos, eu conheço vários médicos que se calhar seriam melhores mecânicos, cozinheiros, pilotos de fórmulo 1, qualquer coisa...:)

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  3. Ainda bem que não foste para psicologia. Se o teu objetivo era ter dinheiro para viajar x) (quem vai para psicologia ja fica contente se tiver dinheiro para sobreviver :P )

    Se bem que não estou arrependida. Foi a minha grande vocação e continua a sê.lo, apesar de momento ter de estar a conciliar o trabalho de psicóloga com a de vendedora no Lidl (que é o que acaba por me dar dinheiro, por enquanto). E digo.te, trabalhar com vocaçao sabe bem melhor :) milhentas vezes. Estou no supermercado a passar artigos e a pensar em avaliações! Por isso se gostas agora do teu trabalho, acabaste por descobrir e desenvolver mais uma das tuas vocaçoes :) (porque eu trabalho ha quase 6 meses no Lidl e já deu para perceber que vocação para aquilo se nao apareceu agora, nao vai aparecer já x)
    O importante é estarmos bem com aquilo que fazemos. E mudar, se tivermos alternativa. E trabalhar muito, sem nunca desanimar (mesmo que isso nos custe umas lagriminhas e eventuais porradas de vez em quando). Boa sorte para todas as vocaçoes da tua vida, em especial estas duas (maternidade e casamento) que me fazem sorrir cada vez que visito o tu blogue.

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    1. No fundo gosto de pensar que faço algo muito parecido com psicologia, especialmente porque trabalho com miúdos e temos uma abordagem muito diferente da psiquiatria de adultos :D Mas pronto, acabei por conseguir fazer o que inicialmente queria :D

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  4. Acho esta carta aberta sem sentido nenhum. De certeza que em outros cursos também ficaram de fora muitas pessoas apenas por décimas. E mesmo que existisse um outro modo de avaliação mesmo assim alguns ficariam de fora também por umas décimas e sentiriam na mesma que era uma injustiça.
    A única coisa que tenho pena em relação a medicina é que alguns vão para lá devido À pressão das notas boas. Eu também tinha notas muito altas e sentia essa pressão. Com 18 anos eu não fazia a mínima ideia do que queria ser e a pressão estava sempre lá. Mas isso não significa que quem chega a um curso de medicina sem vocação não possa se tornar num excelente médico. E quero só lembrar aqui o professor Sobrinho Simões que "não gosta de ver doentes" e é uma figura tão importante na medicina em Portugal.

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    1. A minha questão não é a carta. É alguém achar que tem mais direito a entrar em determinado curso porque tem 'mais vocação', como se isso fosse uma certeza de que será melhor médico.

      Tinha imensos colegas que 'não gostavam de pessoas' e hoje são óptimos médicos porque vêm os doentes como uma espécie de desafio e ajudam-nos verdadeiramente. Poderão ter mais ou menos jeito para lidar com eles, mas também têm as suas vantagens. Eu sou absolutamente adorável (na generalidade dos dias) mas tenho as limitações práticas inerentes à minha área. Outras pessoas serão menos adoráveis mas terão uma facilidade maior em seguir e encaminhar os doentes. Há espaço para tudo :)

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  5. Olá Joana!
    Costumo concordar em muitas coisas contigo, mas hoje não totalmente. E não é porque concorde com esta carta aberta (que nem conhecia e tive de ir atualizar-me :)). Acho a carta uma patetice, aí concordo contigo, mas não concordo que o discurso da vocação seja uma parvoíce e muito menos concordo com a "condescendência". A condescendência deve ser uma das palavras que mais me mexe com os nervos e por isso estar a comentar. A condescendência é aquele sentimento de "eu sei tanto mais do que tu, mas vá, dou-te o desconto por seres novo/a, por não teres experiência de vida suficiente ou por outra qualquer razão", que enfim, não nos coloca no lugar do outro (apesar de o condescendente achar que sim) e faz perder todo o sentido de outra palavra que me é muito querida: empatia (sim, sou psicóloga de curso lol). Aos 18 anos nem todos os alunos poderão saber o que querem para a sua vida, mas acredito que alguns sim e que se sintam tristes, desalentados e até mesmo injustiçados. No entanto, objetivamente a carta não faz sentido nesta altura se, até aqui, essa aluna não tiver lutado pelo tal sistema que ela diz ser mais justo e se, só agora, por não ter conseguido entrar, escreve uma carta a criticar o sistema no qual escolheu estudar e que já sabia que funcionaria assim para ela e para todos os outros candidatos à faculdade.
    Acredito que haja excelentes médicos que nunca quiseram propriamente sê-lo e maus médicos que o quiseram ser desde que se lembram...bons e maus profissionais há em todas as profissões. E existem tantas outras licenciaturas em que muitos alunos também não entram (embora medicina seja sempre a que tem maior visibilidade) e portanto não é a única onde essa "injustiça" acontece. Acho uma utopia achar-se que Portugal tem um sistema injusto e blá, blá, blá e que os outros países é que são ótimos. As pessoas esquecem-se que em Espanha, por exemplo, muitos espanhóis não entram em medicina, também porque não o conseguem. Que os portugueses vão para Espanha (ou outro país) com quotas que são disponibilizadas para estrangeiros e que alguns espanhóis não entram no curso. Lembro-me, até, de, há alguns anos, haver uma polémica em Espanha por causa dessas quotas (e, se calhar, ainda continua a haver).
    E porque o discurso vai longo, concordo em muito que o mundo não é preto e branco, que a carta dessa aluna é de uma ingenuidade (e até desconhecimento) brutal, mas não a posso olhar com condescendência. Olho esta aluna como alguém que está completamente desanimada por não ter conseguido alcançar um sonho e, por isso, e porque nalguma altura da minha vida também já me senti assim, sou completamente solidária com ela nos sentimentos, embora não concorde com as suas ações.
    Uma boa semana para ti :)!
    Vânia

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    1. Tens toda a razão Vânia: condescendência é uma palavra muito forte. Nem sequer acho a carta uma patetice, de todo. Mas acho uma patetice argumentar-se que a vocação nos dá mais direito a entrar no curso :) Empatizo perfeitamente com a posição da rapariga, até porque já passei por isso (há dez anos), o meu irmão já passou por isso (no ano passado), a irmã do Pedro passou por isso este ano (foi para um curso que não era o que queria) e tive vários amigos que não entraram em medicina por décimas ou até centésimas. Mas tal como a condescendência te mexe com os nervos, este paleio da vocação mexe com os meus! :D Andei anos (ANOS!) a lidar com as minhas próprias inseguranças por causa disso, a achar que não tinha o direito de estar aqui, que não iria ser boa médica porque era egoísta e por aí fora. E esta conversa da vocação não ajuda. Não há vocação para ser médico, tal como não há vocação para ser advogado ou futebolista. O que há é um conjunto de características que podes ou não ter, muito empenho, brio profissional e seres boa pessoa. Mas é a minha opinião :)

      Não tenho nada contra a carta e acho uma vergonha todo este enxovalhamento público da miúda. Não é isso que pretendo. Mas isto da vocação... Enfim :P

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    2. Concordo muito com esta ideia de que há um conjunto de características que nos tornam mais propícios a sermos melhores numa ou outra área da nossa vida e não tanto nesta ideia da vocação. Há pessoa que certamente terão mais vocação para umas coisas do que para outras e não podemos negar que há pessoas que parece que nasceram para um certo papel, uma certa profissão. Daí a ideia de vocação não ser muito desmedida. A questão impõe-se no facto de as pessoas acharem que, por se sentirem mais vocacionadas para uma dada coisa, essa coisa tem que lhes ser dada. É triste que não tenha entrado por tão pouco? Sim, mas não é só em medicina! Mal de nós se agora todos os estudantes que não entraram no curso que queriam vinham escrever cartas!

      O problema disto, como dizes, é esta moça achar que, por ter vocação para ser médica merece mais que os outros ou deveria ter entrado. Mas assim começava toda a gente a escrever cartas de motivação e vocação e deixávamos de lado os exames de acesso aos cursos... por essa ordem de ideias.

      Outra coisa que me faz uma certa confusão é ela achar que tem vocação para uma profissão que nunca exerceu e com a qual ainda não teve contacto. Eu também achava que tinha vocação para jornalista, mas vai daí e escolhi psicologia por gostar muito da área. Só quando comecei a avançar no curso é que percebi que se calhar é mesmo este o trabalho que queria ter para o resto da vida. Agora dizer que tinha vocação para tal antes de entrar no curso não posso afirmar que tivesse, já que não sabia nada de nada. Só com a prática, com o estágio, nos apercebemos o que gostamos de fazer, se até temos jeito para isto ou não. Lá está, as tais características que nos fazem ser bons numa dada profissão. Mas também acredito que a vocação é algo que se constrói. Enfim, este assunto dava pano para mangas mas o essencial é que cada um, independentemente de se sentir mais ou menos vocacionado para tal, pode escolher livremente que curso gostaria de prosseguir tendo em conta esta história das médias e exames e bla bla bla. Se é um modelo injusto e que pode deixar de fora pessoas que sintam que têm vocação para isto ou aquilo? Isso já são outros quinhentos! :)

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    3. Já eu achei a carta uma patetice pegada, precisamente pelo que nela está escrito. Decerto que ela terá dado a ler a carta aos seus pais antes de a trazer a público, e espanta-me bastante que eles tenham consentido em prosseguir com este desvario. Recorrer ao imaginário infantil (a malinha de médicos de brincar pelo quartINHO cor-de-rosa, o estetoscópio de plástico amarelo, a ênfase no SONHO, qual Peter Pan na Terra do Nunca,...) para apelar a um qualquer sentimento de piedade chorosa no presidente da República é tão baixo, tão manipulador, tão a leste da realidade que me faz pensar que esta rapariga esteve 18 anos com uns óculos cor-de-rosa postos e que agora foi obrigada a tirá-los. O que é muito triste: tanta nota boa, tanta educação, e no entanto nunca ninguém a preveniu que as coisas podem não sair bem à primeira, que nem tudo está sempre ao nosso alcance por trabalharmos muito. E aqui culpo os pais, claro está. Por isso e por desconhecerem o estado do sector da saúde em Portugal, que permitiu à filha vir dizer que há falta de médicos e que as vagas de acesso são poucas.

      E pronto, termino concordando com tudo o que dizes no post. O mito da vocação. Está no mesmo patamar que a motivação. Quando estes termos vêm à baila lembro-me sempre do que disse uma pessoa num estágio que realizei: "sabem quem é que são pessoas altamente motivadas? os tipos da ISIS."

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    4. Eu sei que o teu texto não tem o propósito da crítica, já leio o teu blogue há uns tempos e percebo o teu ponto de vista :). Também não tenho o propósito de criticar-te, só deixar a minha sincera opinião. Eu entendo a vocação (mas esse é só o meu entendimento, claro) como algo que as pessoas se vêm a fazer, do género o "chamamento" ou o "sonho de vida", penso que a rapariga também o disse nesse sentido, mas se têm, depois, perfil ou capacidade para, é outra coisa completamente diferente. Eu também não entrei em medicina por décimas, sei que foi por minha culpa (fiz o exame de química na folha de rascunho lol, mas podia ser por qualquer outra razão, eu sabia como funcionava o sistema)...fui para um curso que não gostei (e onde estavam muitos como eu) e muita gente me dizia que estava a tirar a vaga a quem tinha a tal vocação/sonho e, nessa altura, também me senti um pouco culpada, mais ainda, porque acabei por não concluir essa licenciatura e, de facto, perdeu-se uma vaga. Também me disseram que, como não quis ir para Espanha, ou não tentei até conseguir entrar, que não queria assim tanto ser médica (não tinha a tal vocação ^^)...enfim. O facto é que desisti desse curso e voltei a não conseguir entrar em medicina, mas em psicologia :) e gostei tanto que já não tive essa vontade de tentar outra vez medicina. A vida trocou-me as voltas. Mas, como dizes e concordo plenamente, a vida é mesmo assim, os caminhos não são sempre aqueles que sonhámos, que idealizámos, vamos encontrando alternativas e criando novos caminhos que não têm de ser piores :).
      E é por isso que disse que a carta era uma "patetice", no sentido de ser enviada ao presidente, ser publicada numa revista e todo este alarido, porque acaba por ser um desabafo que eu percebo e respeito, mas acho um desabafo fora do contexto.
      Mas percebo a tua relação com a palavra vocação ^^, eu também tenho cá as minhas coisinhas :p, como toda a gente.
      E gosto de ler o teu blogue porque expões as tuas ideias e opiniões de uma forma muito honesta, franca e humilde. Dá gosto ler e poder discutir.
      Agora nada a ver...pena o Matias ser mais novinho que a minha Beatriz, porque há coisas em que penso "como é que a bloguer Joana lidaria com esta nova etapa?", porque eu, às vezes, não estou a ver como, e penso logo que "a Joana teria uma solução mais desstressada (acho que esta palavra não existe, mas dá para perceber a ideia :p)" eheheh.

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  6. Gostei mesmo muito deste texto! Acho que este e aquele sobre chamar alguém de "doutor"(que me prendeu a este espaço) são os meus preferidos.

    "Vamos escolhendo os nossos caminhos conforme vamos caminhando.
    O resto faz parte de ser pessoa. Empatizarmos com o outro. Preocuparmo-nos com o outro. Gostarmos do outro. Ouvirmos o outro. Ajudarmos o outro. Isso não é ter vocação para ser médico, é ter vocação para ser pessoa."

    É isto. Mesmo.
    E podemos fazer isto e ser bons em qualquer coisa que façamos.

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    1. É muito por aí. Não sou boa médica porque tenho vocação, sou-o porque sou preocupada. E diria mais: isso basta. Porque a partir daí atinges o resto: mesmo que não saibas vais pesquisar, mesmo que não consigas tentas aprender ou encaminhas para quem consegue, mesmo que estejas de trombas num dia compensas no outro :)

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  7. Joana, li a carta de que fala e não me lembro de , em alguma linha, ter lido a palavra " vocação". O que me parece é que a jovem, Maria, salvo erro, sente que tem esse tal " conjunto de capacidades" de que a própria Joana fala e se sente injustiçada por não ter conseguido cumprir o seu sonho. Parece-me legítimo. Afinal, o que faz os bons profissionais é, exatamente, gostarem do que fazem, procurarem saber mais, quererem ultrapassar-se, de alguma forma. Lamento, mas hoje não concordo consigo.

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    1. Se ler as primeiras linhas do texto da Joana vê que ela fala nos comentários que usam a vocação como argumento para se entrar no curso.

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    2. Guida referia-me de facto aos comentários que ia lendo :) Mas a própria Maria fala de vocação numa entrevista que deu à Visão recentemente. De qualquer das formas, e tal como disse, não tenho rigorosamente nada contra a carta. Mas passei vários anos a ouvir comentários sobre isto de entrar em medicina por vocação versus entrar em medicina porque se é um marrão interesseiro, e estou um bocado cansada. Toda a gente está à vontade para discordar e até espero isso porque sei que esta não é de todo uma opinião consensual. Só queria mostrar o outro lado :)

      (Queria ter respondido há mais tempo, mas não estou em Portugal e o acesso à net é limitado...)

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  8. MUUUIIIITTTTTOOOOOOOOO BBOOOOOOOOMMMMMMMMM!!! Texto fantastico que me inspirou para falar com a minha filhota adolescente que só quer é viajar!!!! ;) Adorei!

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  9. Ai Joana,...como te compreendo,....tirei o curso de animadora social e nunca exerci,....em pequena adorava ser fotografa (se calhar veio daí a minha paixão pelo meu blog),...qualquer dia temos que falar melhor, pois como o teu marido é oftalmologista é provável que saiba alguma coisa sobre retinite pigmentar (infelizmente o meu marido tem),..
    Beijinhos e bom fim-de-semana,
    Espero por ti em:
    strawberrycandymoreira.blogspot.pt
    http://www.facebook.com/omeurefugioculinario

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  10. Margarida, foi exatamente por não ter visto a palavra " vocação" na carta da Maria que fiz o comentário acima.

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  11. Olá Joana, não se preocupe com o atraso da resposta, veio muito a tempo.E " da discussão nasce a luz"! Desejo-lhe um ótimo passeio!
    Um beijinho.

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  12. Olá Joana, adorei o seu post sobre vocações, é isso mesmo.
    Muitas pessoas confundem vocação com hobby.
    Temos um hobby e fazemos somente o que gostamos.
    Temos uma profissão fazemos e que gostamos e não gostamos, e quando não gostamos temos que nos dedicar mais, e assim sim poderemos encontrar a descontração no nosso hobby.
    É assim que nos tornamos pessoas completas.
    Beijinho adoro ler o que lhe vai na alma.

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  13. A minha irmã quando saiu do liceu não fazia a mínima ideia do que queria ser. Foi para psicologia e no 4 ano começou a perceber que não era bem aquilo que queria. Está a agora a termina o 5 ano e cada vez tem mais a certeza...Por isso, concordo contigo quando dizes que aos 18 anos sabemos lá a nossa vocação.

    Eu toda a minha vida gostei de escrever e de viajar e sempre, sempre, sempre quis ser jornalista. No 12 ano, devido a uns testes psicotécnincos, uma cadeira chamada introdução ao direito e o convívio com o meu padrasto (magistrado) e com a minha mãe (funcionária do tribunal) e apesar de eles nunca terem exercido qualquer pressão nesse sentido fui para Direito.
    Quando o fiz foi sempre a pensar que queria ser juíza, mas o destino trocou-me as voltas e acabei em Macau, como advogada.
    Claro que há casos que gosto e pelos quais me apaixonei, há áreas que adoro mas não acho ter perfil para a advocacia e cada vez gosto menos do que faço, apesar de graças a deus ser bem sucedida, ter um óptimo emprego, ter tirado um mestrado, ir publicar uma tese.
    Estou neste momento a tirar um curso de health coach e se pudesse largava já hoje a advocacia.Hoje, com 33 anos.
    Pois é, aos 18 não sabia nada!

    http://6800milhas.blogspot.com/

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  14. Eu tive vários colegas que entraram em medicina. Só que entre as duas possibilidades que referes para alguém entrar ainda existe uma terceira e essa, a meu ver, trará muito pouco à vida das pessoas.

    Eu tive duas pessoas da minha turma que foram para medicina obrigadas, basicamente pelo estatuto social que os pais almejavam. E era muito triste de se ver (e ainda é).
    Uma queria seguir advocacia e a outra engenharia civil. No entanto, para os pais estava completamente fora de questão que fossem algo mais na vida do que médicas.
    Uma estudou espanhol desde o 10º ano porque se não entrasse cá ia para Espanha estudar, levava reprimendas da mãe à frente de todos sempre que as notas não eram do agrado dela, era obrigada a ter explicações para tudo e mais alguma coisa e, além disso por a rapariga não era propriamente um ás em Educação Física, os pais conseguiram até arranjar um atestado médico que a dispensasse das aulas práticas (que ela gostava de fazer, diga-se).
    A outra rapariga não podia viver: saindo da escola tinha todos os dias pelo menos 3 horas de explicações. Os 3 anos de secundário foram passados a estudar, não saía, não ia a aniversários, não ia ao cinema...não convivia, nada. Os exames nacionais desta pessoa ainda foram piores que os meus e os pais não a deixaram em paz. Tendo em conta a reacção do pai dela a ver as pautas...nem sei o que o homem lhe fez. E ela era basicamente "programada" pelos pais para ser competitiva, para nunca fazer nada em grupo...tinha de ser sempre a melhor em tudo. Ela não conseguiu entrar à primeira tentativa em medicina e foi forçada a ficar 1 ano inteiro sem fazer nada, só a estudar, para entrar no curso em questão.

    Feliz ou infelizmente ambas entraram em medicina. Acredito que para elas tenha sido um grande alívio...no entanto, para quem assistiu a estes tristes episódios durante 3 anos no caso de uma e durante 10 ano no caso da outra, acho simplesmente triste.

    Felizmente tenho vários colegas e amigos que estão em medicina por opção própria :)

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    1. Não sei muito bem o que aconteceu com parte do meu comentário inicial. Eu tinha dito que apesar de compreender a frustração dela não compreendo como é que com uma média tão baixa podia sonhar em entrar para medicina.

      A minha média até era superior à dela, mesmo depois do exame de FQ, que me levou a um ataque de pânico e a descer a média a pique e eu nunca sonhei que fosse possível candidatar-me para medicina. É que nem antes da realização dos exames nacionais pensava nisso.
      As médias de medicina desceram assim tanto?!

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