11 de junho de 2018

As reflexões que antigamente antecediam receitas.

(Banda sonora)

No intervalo da peça de teatro do Harry Potter And The Cursed Child dei por mim a questionar-me se a J. K. Rowling ainda se sente assoberbada pelo seu sucesso tantos anos depois. E perguntei à Joana, ao Bernardo e ao meu irmão se às vezes não tinham momentos em que olhavam para trás e ficavam fascinados por aquilo que já tinham conseguido atingir na vida.

A resposta foi igualmente surpreendente e deprimente, porque aparentemente nenhum deles pensa isto. E logo vieram as teorias: que eu me sinto assim porque escrevi um livro, tenho um filho, estou há mais de dez anos com o Pedro, etc etc etc, enquanto que eles * inserir aqui chorice sobre a vida deles *.

Fiquei em silêncio durante alguns minutos, e depois disse-lhes que não acho que seja por isso. A verdade é que ainda me recordo demasiado bem de mim própria com quinze anos, a achar que ninguém me amaria, a escrever no meu diário com canetas com cheirinhos que odiava a minha mãe, sem ter amigos a sério como os adolescentes dos filmes, a sentir-me incompreendida, a pensar que era uma merda e a sentir que nunca iria a lado nenhum na vida.

Há umas semanas estávamos a falar sobre umas situações do meu passado (nada de especial, coisas que para mim são banais) e o Pedro ficou pensativo e disse de repente 'no fundo, tu és uma sobrevivente'. E eu fiquei um bocado em choque. Acima de tudo porque não penso em mim dessa forma - e o Pedro só pensa porque não trabalha na mesma área do que eu, onde os sonhos morrem um bocadinho todos os dias.

Acima de tudo, lembro-me demasiado bem de mim própria com quinze anos a pensar todos os dias 'amanhã vai ser melhor'. Às vezes era. Muitas vezes não era. Até que um dia foi mesmo. 

Antes da minha cirurgia, um dos enfermeiros perguntou porque tinha 'all things go' tatuado no braço. Encolhi os ombros. A história é demasiado longa e o tempo era pouco. Mas é esta a razão: porque tudo passa. Tudo vai. Tudo se resolve. Amanhã vai ser melhor.

Esta semana fiz urgência com uma interna do primeiro ano que passou lá pelo serviço no ano passado, em plena crise existencial gigante minha, quando quis desistir de tudo e dedicar-me a criar a minha empresa de organização de eventos. Aparentemente não fui eficaz a convencê-la, porque ela entrou na especialidade na mesma. Aparentemente não fui eficaz a convencer-me, porque aqui estou na mesma.

Tudo passou. Tudo foi. Tudo se resolveu. O dia seguinte não foi melhor. A semana seguinte também não. O mês seguinte também não. Mas eventualmente amanhã foi melhor.

All things go.

E espero honestamente nunca perder esta capacidade de olhar para o presente e de me sentir não só assoberbada, mas também terrivelmente agradecida. E naquele momento, em Londres, a realizar um sonho com os meus melhores amigos no mundo inteiro, senti muita, muita tristeza por eles não saberem o que é esta felicidade.

Um dia vão saber, espero eu. E eu vou estar lá para assistir da primeira fila.

11 comentários:

  1. Percebo exatamente o teu sentimento. No outro dia alguém comentava a propósito do Bourdain que ele tinha "uma vida de sonho". E eu pensei, o que é para mim uma vida de sonho? Uma vida de sonho é ter um trabalho que se adora, um marido que se ama e um filho lindo e saudável, e no meio disto as coisas banais como passear, ir de férias, fazer viagens, etc. Parece simples, mas só eu sei o que lutei para aqui chegar. ;-)

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    1. Acho engraçado porque nunca acho que essas pessoas têm 'uma vida de sonho'. Ainda hoje na Feira do Livro vi uma cantora famosa e pensei 'coitada, que horror, não pode nem sequer vir à Feira do Livro sem ser reconhecida'. Quando vejo malta famosa nas consultas penso na mesma coisa. Acho que a fama pode trazer muita coisa boa, mas dificilmente traz 'uma vida de sonho'. Não que sejam mutuamente exclusivas, mas pronto.

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    2. Também acho. Esse tipo de "vidas de sonho" só existem na nossa cabeça... ;-)

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  2. De facto, tudo passa! E a única certeza que temos é a do momento presente....e o foco deve ser sempre esse. Obrigada!

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    1. Também temos a certeza que o sol vai nascer amanhã, e que quando as coisas não podem piorar só podem melhorar :)

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  3. Posso estar a interpretar isto da forma errada, mas talvez eles não se sintam fascinados e assoberbados pela presente e por aquilo que conquistaram porque não tiveram a tua vida e as tuas crises existenciais. :) Eu também me lembro de mim aos 15 anos mas não tinha esses receios todos, não tinha essas dúvidas todas, não duvidava assim do meu futuro. Tinha até vários planos e certezas e quanto muito posso é sentir-me deprimida por não ter conseguido realizar alguns deles, ahah. :D
    Eu gosto daquilo que tenho, do que conquistei mas não me sinto propriamente fascinada porque nunca tive verdadeiras dúvidas de que o conseguiria ter. :) Talvez seja esta a diferença. :)

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    1. Também é isso, sim. Mas essencialmente também é uma desvalorização do que já se conseguiu, do género 'ah yah somos médicos e vivemos bem e temos amigos e saúde e vidas fixes e viajamos e tal mas isso não é nada de especial'. Sei lá, se eles vissem o que eu vejo nas minhas consultas agradeciam todos os dias :P Mas sim, também está muito relacionado com as expectativas claro. Se tinhas expectativas altas talvez fiques desapontada com a realidade :) Embora, agora que penso nisso (este texto está a fazer imenso sentido), também tem a ver com uma questão de personalidade. Eu consigo sempre preparar-me simultaneamente para os piores e os melhores cenários. Ainda na viagem a Svalbard dizia ao Pedro que sempre que pensava em ver animais imaginava duas coisas diametralmente opostas (até dei o exemplo das baleias): imaginava que não víamos baleia nenhuma, que tragédia, adeus, ou imaginava que via uma baleia a saltar para fora de água, quase a cantar como nos filmes da Disney :D Quando a realidade aconteceu (tipo ver três baleias a deitar repuxinhos de água, nice, mas não a cantar) fiquei momentaneamente desiludida, mas depois sinto-me sempre agradecida por tudo. E certamente não foi porque não estava preparada para o pior :P

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    2. Eu acho que também pode ter a ver com aquilo com que já te confrontaste. Em 2012, em menos de 2 meses ficámos 3 pessoas doentes numa casa de 4. Nada de constipações, mas sim coisas graves que meteram exames complicados, suspeitas horríveis, IPO, mãe e irmão operados, enfim...O meu pai, o único "saudável" nem sabia para onde se virar pois a cada dia um de nós tinha um exame, uma consulta, um resultado a chegar. Não foi fácil, agora estamos os 3 bem mas aquilo marcou-me. E nisso sei que sou agradecida: estamos bem, caramba. Eu já só peço saúde para os meus e já fico contente.
      Tu tens as tuas consultas, ainda por cima com crianças, imagino que vejas um pouco a podridão do mundo que muita gente não vê. Talvez isso, o veres o outro lado mesmo que não o experiencies, te torne também mais agradecida pelo que tens. :)

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    3. Sim, estas fases terríveis deixam sempre a sua marca, nem que seja porque depois nos sentimos quase invencíveis :)

      E sim, as minhas consultas ajudam. Digo muitas vezes ao Matias que ele tem muita sorte nos paizinhos que têm e que nós temos muita sorte no filhinho que temos :P

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  4. Joana, fizeste-me chorar. Gosto tanto da essência; do pedaço de ti que mostras no blog. Eu tenho 27 anos e confesso que no primeiro ano do meu filho também passei por uma crise existencial. Ainda nem "Tudo passou. " nem "Tudo foi." nem " Tudo se resolveu. " mas acredito que eventualmente amanhã será melhor.

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    1. Eventualmente tudo passa. Eu não senti isso com a maternidade, mas senti isso com o 'crescimento'. No fundo não foi uma questão a nível profissional, foi mesmo a noção de que a vida também tem coisas que não dependem de mim, e que há situações em que o melhor de mim não deixa de ser uma merda. Foi duro e difícil. Mas pensei muito, falei muito, chorei muito, queixei-me muito, gritei muito, fui para as aulas de Krav Maga dar uns murros e olha, passou. Meses depois, mas passou :)

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