30 de maio de 2017

Santorini com um bebé de um ano - A logística

Dificilmente eu conto como especialista em viajar com crianças, até porque só tenho um filho, que viajou comigo três vezes até agora (para o Alentejo com três meses, para os Açores com quatro e para Santorini com um ano). No entanto, recebo imensos mails que pedem dicas sobre a logística de viajar com os miúdos, e achei que poderia ser útil (para vocês e para a Joana do futuro) partilhar algumas estratégias. Aqui vão:

* Comunicação, comunicação, comunicação

Eu quero ir a todo o lado com o Matias. O Pedro não quer ir a lado nenhum com o Matias. Daqui a um ano vamos ao Pólo Norte (sim, true story, já andamos há dois anos a planear esta viagem), e por mim levava-se o miúdo sem qualquer problema (claro que exigiria um planeamento diferente, mas nada que não se faça). Mas o Pedro não concorda de todo (a sério, a cara dele quando eu sugeri levar o Matias!), e por isso é preciso muuuuuuuita comunicação. Perceber qual é o objectivo de cada um, quais são as expectativas para a viagem, em que é que cada um está disposto a ceder (ou não), etc.



* Adequar as expectativas!

Originalmente tinha escrito 'baixar as expectativas', mas acho que talvez seja um bocadinho pessimista. Na verdade, viajar com um bebé vai obrigatoriamente trazer-vos algumas chatices, mas sinceramente não acho que sejam chatices muito diferentes das que temos em casa. Há que ter em conta os ritmos e rotinas do bebé, o temperamento, o tipo e a cadência da viagem... Dificilmente farão as mesmas coisas com e sem o bebé, mas isso não é obrigatoriamente mau. Sim, não pude alugar uma moto 4 em Santorini e conhecer a ilha, mas pude ver o meu filho a delirar com azeitonas e a gritar de entusiasmo no jacuzzi :)



* Estar preparado para manter as rotinas... Ou não.

Os bebés precisam de dormir e comer a horas certas (e às suas horas habituais), por isso devem ir preparados para manter estas rotinas. Por outro lado, é possível que eles próprios se desorganizem um bocadinho, por isso também devem ir preparados para isso. Passo a explicar: o Matias ainda dorme três sestas por dia, sensivelmente de uma hora e meia cada uma. Eu já me estava a preparar para uns belos banhos no jacuzzi com um copo de gin numa mão e um prato de azeitonas na outra... E eis que o miúdo decidiu dormir só umas duas sestas em cinco dias. Andava entusiasmadíssimo com tudo, super animado, incrivelmente contente, e dormir passou para segundo plano. Adequámos logo o nosso estilo de viagem (demos uma volta a pé no segundo dia, fizemos uma volta de carro à ilha no terceiro e andámos 6h de barco no quarto), e fez-se bem. Mas estar preparado para fazer um estilo de viagem mais calmo (no fundo, adequar as expectativas!) é importante para depois não nos sentirmos desapontados.



* Descomplicar.

Fomos para Santorini cinco dias e o Matias só levou uma mala de cabine. Levei duas mudas de roupa por dia, cinco fraldas por dia, uns trinta babetes (ele tem andado mais aflito dos dentinhos), três ou quatro brinquedos, os produtos de higiene básicos, paracetamol e ibuprofeno em supositórios, um termómetro, espátulas para ver a garganta, pensos rápidos e comida para o primeiro dia (duas sopas, dois pratos, duas peças de fruta, uma papa, leite em pó). Não me faltou nada. No último dia tive de ir comprar fraldas, mas não tive qualquer dificuldade em encontrá-las (até porque há bebés em todo o lado do mundo, tal como as fraldas). No primeiro dia fizemos sopa e comprámos fruta, o Matias ia comendo do nosso prato e lanchava iogurte grego (lambeu um pote de 200g de iogurte grego todos os dias!), por isso a alimentação também foi muito tranquila (e sem ser preciso recorrer a boiões de comida ou de fruta!). Estava preparada para lhe dar banho na banheira 'normal', mas a villa onde ficámos já estava equipada com uma banheira de bebés (bem como com um berço e uma cadeira da papa, tão queridos!). No fundo, é preciso descomplicar.

* Chutem o carrinho!

Levámos o carrinho para os Açores e foi a maior seca de sempre. Tira o carrinho da mala, abre o carrinho, põe o Matias no carrinho, aperta cintos, empurra carrinho, sobe escadas de carrinho, desce escadas de carrinho, passa por piso incerto de carrinho, fecha carrinho, tenta meter o carrinho novamente na mala do carro... Um horror. Para Santorini levei só a mochila e correu lindamente: não tive aquele trambolho atrás de mim, o Matias andava sempre ali pertinho, podia ir para onde quisesse, é muito mais prático... Sinceramente acho que nunca mais vou levar o carrinho para lado nenhum.

(Em alternativa, também nos ocorreu comprar um daqueles carrinhos bengala baratos, mas acabámos por achar que não valia mesmo a pena.)

* Protejam-se.

Na Europa? Cartão Europeu de Seguro de Saúde (para vocês e os miúdos) e/ou seguro de viagem. Fora da Europa? Seguro de viagem. Eu levei o paracetamol e o ibuprofeno (e ainda bem, porque o Matias efectivamente fez febre na viagem de regresso), mas diria que isso se encontra em qualquer lado (a não ser que pretendam acampar no meio da Amazónia). Falem com o vosso médico assistente e perguntem alguns cuidados a ter com os destinos.

* Viagens de avião e hotéis?

Achei mais fácil ir para lá de manhã e voltar à tarde para tentar manter as rotinas do Matias. Ele bebeu o leitinho no avião, comeu o almoço no aeroporto de Roma (pedi num restaurante para aquecerem os copinhos da Avent, sem problemas), lanchou no avião para Santorini (comeu a papa dele e depois comeu o nosso lanche (azeitonas, pão, queijo, tomate) e jantou em Santorini. Para cá o Matias lanchou no avião (iogurte grego), jantou no aeroporto de Roma (repeti o procedimento), bebeu o leite no avião para Lisboa e bebeu mais um bocadinho de leite já em casinha.

Em relação ao hotel, tivemos a vida relativamente facilitada pelo facto da grande maioria dos hotéis de Santorini não aceitar crianças. Fomos para uma villa com dois quartos, uma sala, uma cozinha, uma casa-de-banho, uma varanda e um terraço privativo com um jacuzzi * suspiro *, por isso foi fácil organizar as questões logísticas. Em princípio só vamos fazer mais uma viagem com o Matias este ano, e é possível que escolha uma casinha na mesma (de preferência com varanda e vista, para podermos relaxar enquanto o miúdo dorme).



* (Quase) Toda a gente gosta de bebés!

O meu único receio em relação à viagem era a questão do avião. O Matias é um bebé extremamente enérgico e gosta de andar sempre 'a fazer piscinas', por isso a ideia de obrigar o miúdo a estar quieto ao meu colo parecia-me assustadoramente irreal. Na verdade acabou por correr razoavelmente bem, porque havia sempre várias pessoas por perto a fazer piadolas para o Matias. É claro que também depende muito do temperamento dos nossos bebés (o Matias é extremamente sociável, ri-se para toda a gente, vai para o colo de toda a gente, adora palhaçadas), mas eu diria que é relativamente fácil encontrar alguém que distraia os nossos miúdos.

Quando estávamos na fila para embarcar de Santorini para Roma (foi uma experiência muito sui generis naquele que foi o pior aeroporto em que já estive) o Matias começou a ficar impaciente. Estávamos de pé há uma hora, estava imenso calor, havia pessoas por todo o lado, ouvia-se imensa gente a gritar (a Vueling fez overbooking do nosso voo e as pessoas que ficaram de fora estavam compreensivelmente muito aborrecidas), o miúdo estava com fome (e eu estava a tentar atrasar o lanche para lhe dar enquanto o avião estivesse a levantar, para o ajudar com a transição de altitude)... E eis que o Matias repara que estava um senhor em pé à nossa frente e começa a tocar-lhe no braço e a fazer o jogo do cucu. Por acaso o senhor achou-lhe um piadão descomunal e começou a brincar com ele, e a dada altura eu já tinha o Matias a rir às gargalhadas e a tentar saltar para o colo de um desconhecido :) No fundo a conclusão é esta: não tenham medo que os vossos filhos tenham um nervous breakdown, porque nestas idades há sempre alguém que os distraia (e que compreende o que vocês estão a passar).



* Um dia de férias antes, um dia de férias depois.

Guardem um dia de férias antes da viagem para organizar tudo com calma e um dia de férias depois para voltarem ao ritmo da vida habitual. Por acaso desta vez só tirei um dia de férias antes, mas como o Matias ficou em casa no dia após voltarmos pude fazer tudo com calma: tirei as coisas das malas, tratei da roupa, organizei o regresso ao trabalho... Deprimi-me por ter voltado... :)

* Inspirem-se nos sítios 'certos'

Vejam relatos de viagens de malta que tem filhos. Como é que eles se organizaram? O que fizeram? Que hotéis escolheram? Onde foram? Pessoalmente eu A-D-O-R-O o blog da Adriana Miller (que agora até está em Mykonos!) e já tirei de lá ideias e dicas bem fixes.

* Esperam-vos muitos e bons anos de viagens!

A esperança média de vida em Portugal está nos oitenta anos. Mesmo que decidam não viajar com filhos pequenos, que optem por viajar a dois ou que simplesmente não tenham hipóteses financeiras para viajar agora, a verdade é que os filhos crescem e autonomizam-se e nós vamos sempre a tempo de conhecer o mundo. Por vezes ouço críticas a quem opta por não viajar com os filhos (também ouço críticas a quem opta por viajar com eles!), mas a verdade é que antes dos filhos nascerem existia o casal, e depois de eles se autonomizarem o casal vai continuar a existir (idealmente, claro). Não é preciso ir a correr viajar com os miúdos se não sentirem vontade disso.

Da mesma forma, também acho que posso adequar as viagens agora e fazer (algumas) coisas mais malucas depois. O mundo não acaba amanhã. O meu irmão foi para a Amazónia com cinco anos (e portou-se bem melhor do que eu, que tinha quinze!) e o Matias certamente também terá as suas experiências, mas não há grande razão para não guardar a mega-viagem de autocaravana à volta da Austrália para quando o miúdo for mais crescido e independente. Os filhos não são bebés para sempre :)

(Os meus pais têm cinquenta e sessenta anos e foram para a Gronelândia em Março sem miúdos. A vida continua!).

E pronto, não me ocorre assim mais nada para escrever. Se tiverem alguma dúvida mais específica podem dizer nos comentários ou por mail :) Espero ter sido útil :)

7 comentários:

  1. Olá Joana!

    Obrigado pela partilha das dicas! Uma dúvida com que fico sempre, que pode ser que me consigas ajudar, dada a tua experiência nas viagens (isto por tu falares do overbooking...) - costumas reservar o lugar no avião? Ou confias na altura do check-in online para o fazer?

    Obrigado!

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    1. Não costumo reservar, trato disso na altura do check-in online :)

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  2. Daqui a duas semanas vou viajar de avião pela primeira vez com o meu filho, espero que corra bem , vou aproveitar alguma dicas:)

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  3. Confesso que admiro a tua coragem. A primeira viagem que vamos fazer e a Portugal para visitarmos a familia. O miudo ja vai ter quase 5 meses. Mas depois de um mes na creche (vai com quase 4 meses e um mes depois Sao as nossas ferias) acho que Sao demasiadas mudancas para ele. Tenho imenso receio. Algo que me faz imensa confusao e que nao falaste do fuso horario. A diferenca so sera de 1h, mas deita-lo à hora habitual de ca ou à mesma hora mas na hora ai ? Os seus primeiros dois meses e uma semana de vida foram super complicados. Chegava a chorar de manha ate adormecer à noite e praticamente sem dormir o dia inteiro. A noite para o adormecer as vezes demorava quase 5h e com eles aos gritos. Foram meses muito dificeis e, felizmente quase ha 2 semanas que tudo esta a melhorar imenso. E tenho medo de estragar tudo nas ferias. Acho que uma coisa que complicou imenso foi o facto de amamentar... Ate ha duas semanas atras ele comia quando lhe apetecia sem nenhuma regulariedade... Havia dias que parecia que eu nao fazia mais nada do que isso. Era impossivel sair com ele para onde quer que fosse... Agora ele comeca finalmente a comer com intervalos mais regulares, a adormecer mais facilmente à noite. E so de pensar o quao dificeis foram os dois primeiros meses... Nao tenho vontade de viajar e "destruir" tudo o que foi conquistado. Mas entendo a tua perspectiva. O meu receio nao se prende a ter ferias menos ou mais cansativas, mas sim a alterar todas as rotinas criadas e nao saber quanto tempo depois vou conseguir novamente estabelece-las. Sou a primeira pessoa do meu grupo de amigas a ter filhas... Acho que para Toda a gente sou a maluquinha das rotinas....etc mas digo-te que so eu e o marido sabemos o quao dificil foram os primeiros meses. Sinceramente ate completar um ano de vida so pretendo mesmo viajar esta e provavelmente mais uma vez no natal por causa da familia. Caso contrario, nao sairia da minha zona de conforto. Talvez va tudo correr bem e eu va achar que eram tudo receios sem fundamento. Mas tal como tu tao bem disseste o mundo nao acaba aqui... E sei que poderei continuar a viajar mais tarde, porque ele nao sera sempre bebe. Mas espero que apos a primeira viagem eu perca alguns dos meus medos e perceba que afinal e tudo mais facil do que penso !
    Obrigada pelo texto 😊

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    1. Como eram só duas horas de diferença (e cinco dias) decidimos deitá-lo à hora de cá na mesma :) Na verdade é óbvio que alteras as rotinas, mas pela minha experiência depois volta tudo ao normal :)

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  4. É engraçado que nas 6 viagens de avião que já fiz com a Mini-Tété (de 19 meses, neste momento), não tive ninguém que a entretivesse. :D Não tenho mesmo nada a mesma experiência que tu. Mesmo agora, que ela já se começa a meter com as pessoas (por exemplo, na fila para a entrada no avião), estas apenas sorriem e pronto. :)

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    1. A sério? Toda a gente se metia com o Matias :P Inclusivamente quando fui dar uma volta com ele pelo avião houve uma senhora que pegou nele ao colo :P

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