16 de novembro de 2015

Queques de chocolate e feijão (sem glúten, sem açúcar) para um acidente.

My tea's gone cold,
I'm wondering why I got out of bed at all.
The morning rain clouds up my window,
And I can't see at all.
And even if I could it would all be gray.
But your picture on my wall,
It reminds me that it's not so bad,
It's not so bad.

Eminem




Vivo perto de um cruzamento relativamente grande onde é frequente existirem acidentes de carro. De facto, não é raro estarmos sossegados no sofá e ouvirmos algo bastante semelhante a 'iiiiiiiiii pum!'.

Vamos sempre espreitar à janela, não vá alguém precisar de auxílio médico imediato - e porque, como bons portugueses, somos pessoas com alguma curiosidade mórbida - mas a verdade é que há oito anos que cá vivemos e nunca foi necessária uma intervenção da nossa parte.

Até agora.


Na semana antes de eu ir para Nova Iorque, estávamos a conversar na cama. Era Sábado à noite e o relógio batia já a uma da manhã. Sinceramente já nem me recordo sobre o que falávamos, mas sei que a conversa foi interrompida por um som seco, diferente do que já tínhamos ouvido até então. Ficámos na dúvida se teria sido um acidente, e abrimos a janela.

Estava um moço estendido no meio da rua.


Cedo se tornou óbvio que o rapaz não estava lá muito bem. Juntou-se um grupo de pessoas à volta dele, mas ninguém parecia estar a fazer grande coisa. Por isso nós levantámo-nos na cama, vestimos os casacos e saímos de casa.

E foi assim que cheguei à minha primeira assistência médica: com um pijama com ovelhinhas coberto com um casaco com biscoitinhos.


É claro que nós não percebemos um bacalhau do que se deve fazer nestas situações. Eu sou psiquiatra, o Pedro é oftalmologista. Nenhum de nós está habituado a lidar com urgências que não sejam adolescentes agressivos e areias no olho. Mas continuamos a ser médicos, e temos a obrigação ética de tentar ajudar como conseguimos quando é necessário.

Pegámos em toalhas molhadas, quais parteiras do século XIX, e lá fomos. O moço tinha sido atropelado, o carro em questão fugiu. Ele estava deitado no chão, cheio de sangue por todo o lado. Tinha pelo menos um dedo da mão partido (provavelmente mais) e queixava-se de dores na perna. E tinha uma laceração enorme na cabeça, de onde jorrava sangue.


Ajoelhei-me no chão e tratei de pressionar a cabeça dele com uma das toalhas, enquanto limpava a cara com outra para ver se havia alguma lesão visível (à excepção de uma laceração no sobrolho, parecia estar tudo bem). Ao mesmo tempo, ia fazendo perguntas para perceber se estava consciente e orientado (estava). Ao lado dele, o irmão tremia de preocupação.

Passaram loooongos minutos até chegar a ambulância.


Quando a ambulância chegou, afastámo-nos. Uns minutos depois, o rapaz estava a caminho do hospital e nós de casa, pijama sujo de sangue e de sujidade da rua, sensação de impotência a dominar os nossos corações. Espero sinceramente que tudo tenha corrido bem. Espero sinceramente que o rapaz tenha ficado bom. E espero sinceramente ter feito a diferença.

Sonhei com isso durante a noite. E no dia seguinte, com uma dor de cabeça literal e uma dor no coração metafórica, fui fazer queques para me animar.

Porque às vezes toda a diferença que podemos fazer... Não é assim tanta quanto isso.

 

Queques de chocolate e feijão (sem glúten, sem açúcar) (receita adaptada do blog 'Ambitious Kitchen')

Ingredientes (para doze queques):

* Uma lata pequena de feijão preto, sem o líquido;
* Três ovos;
* Meia chávena de xarope de seiva de ácer;
* Duas colheres de sopa de óleo de coco derretido;
* Uma colher de chá de essência de baunilha;
* Meia chávena de cacau em pó;
* Uma colher de chá de bicarbonato de sódio;
* Uma pitada de sal;
* 100g de pepitas de chocolate (mais algumas para polvilhar os queques).

Confecção:

* Juntar o feijão preto, os ovos, o xarope de seiva de ácer, o óleo de coco e a essência de baunilha e triturar bem até ficar uma mistura homogénea;

* Acrescentar o cacau em pó, o bicarbonato de sódio, o sal e as pepitas de chocolate e envolver bem na mistura;

* Colocar a massa em forminhas para queques e cobrir com mais pepitas de chocolate;

* Levar ao forno pré-aquecido a 180º durante 25 minutos;

* Deixar arrefecer sobre uma grade.

Até amanhã! :D

10 comentários:

  1. Bem, não sei se conseguia viver em sobressalto! Desde que fui mae assusto-me com facilidade, ainda me dava uma coisinha má cada vez que a paz do meu sossego fosse interrompida por um "iiiiiii, pum"! Mas pensando bem talvez esses queques ajudassem! Beijinhos

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  2. Meu Deus, bater numa pessoa e fugir :(
    Fiquei curiosa com o sabor destes queques,....
    Beijinhos,
    Espero por ti em:
    http://strawberrycandymoreira.blogspot.pt/
    www.facebook.com/omeurefugioculinario

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  3. Não vivo perto de um cruzamento nem de nenhuma via de circulação muito relevante, mas ainda ouço às vezes esse barulho 'desagradável' :P quando vou de férias é que a casa é pequena e as janelas velhas, juntando uma estrada relativamente movimentada (pronto, não muito, o suficiente) parece que há terramotos (ou raptos iminentes de aliens) ao passar de cada veículo D:
    A curiosidade mórbida está assustadoramente disseminada, é cada foco de atenção que mais valia deitar foguetes :P
    Deve ser um bocado assustador... Não assustador, propriamente, mais despoletador de um ataque de nervos. Não? :P
    (Casaco com biscoitinhos soa bem :D)
    A descrição do percurso com toalhas lembrou-me imenso do 'The Pearl' do Steinbeck :P
    Mesmo assim fizeste o que pudeste... Já foi mais do que faria a maioria! Com o que sabes ou não. Aposto que se 90% se dirigisse à janela era em busca de entretenimento...
    Deve ser uma experiência 'chocante' e realmente é um peso no coração nem saberes se ele ficou bem :/
    É sempre desesperante, não se pode chegar a todo o lado e a fazer a diferença esta nunca é relativamente grande (de todo), mas uma pessoa não se pode afundar em comparações ou procura de absolutos... Já os queques, parece-me que uma coisa assim tem de tornar o mundo um sítio bocadinho melhor :D

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    1. Ainda pensei em pôr um anúncio do género 'procura-se moço que foi atropelado', mas acho que não ia adiantar de nada :/

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  4. Realmente morar num local adepto de acidentes não é algo nada agradável e ouvem-se diversas vezes os tais barulhos que nos fazem logo dirigir à janela (sem bem o que isso é) mas ver alguém realmente ferido à nossa frente não é algo que eu deseje ver e imagino a sensação que deves ter sentido. Já esses queques estão demasiado apetitosos, confesso que nunca pensei em juntar feijão aos bolos mas parece que vai ser mais uma experiência num futuro breve :)
    Gulosoqb

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  5. Impressionante como alguém é capaz de atropelar uma pessoa e continuar como se nada fosse! Não houve testemunhas? Ninguém viu o carro? Fiquei cheia de vontade que essa pessoa fosse apanhada! Espero que o rapaz tenha ficado bem. A dica das toalhas molhadas é boa, é sempre bom saber.

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    1. Era tardíssimo e só uma pessoa viu o carro. Mas vai dar um bocadinho ao mesmo, creio eu. É muito triste :/

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