17 de agosto de 2015

Fondant de limão com calda de Limoncello para uma pergunta sem resposta.

If the sun don’t shine on me,
I’ll look to the stars ahead
And send a message from the sea.
If the moon don’t rise again,
I watch the water beneath my feet
And the world to bring you to me.

The clouds are all around me,
The water's still below me
And the ground may never be found.
If only I could build a bridge of bones,
With every bone in my body,
So many bones in my body.

So I will float to find my love,
So shine your light,
Show me a way, show me a way to forever.

Crystal Fighters




Sempre que me encontro com os meus amigos internos fazemos algo a que carinhosamente apelido de 'a medição das pilas' e que consiste em discutir sobre quem trabalha mais horas, quem tem piores condições de trabalho e quem tem uma especialidade mais deprimente. Desde que entrámos na especialidade que isto parece ser algo incontrolável, e é assim que as nossas conversas parecem dominadas por chorices, resmunguices várias e chafurdices na autocomiseração.

Um dia, eu percebi que todos os meus amigos achavam que eu ganhava.


Como já disse aqui várias vezes (possivelmente demasiadas, mas lamento informar que também cedi à chorice) eu não tenho uma especialidade fácil. Lido com crianças e jovens com as mais variadas patologias psiquiátricas. Tenho casos muito difíceis do ponto de vista social e legal. Faço consultas longas e cansativas. Já me gritaram e já me agrediram.

Sinto-me frequentemente desmotivada, mas pensei que fazia parte desta maratona exaustiva que é a especialidade. E nunca me tinha questionado se esta infelicidade que sentia em relação ao meu trabalho não era normal neste ponto do percurso.


Até ao dia em que as perguntas começaram. Vieram de todo o lado: dos meus amigos, da minha família, do Pedro e, eventualmente, de dentro do meu coração. Serei feliz? Deveria ter ido para Medicina Geral e Familiar? Fiz a escolha certa? Será que tenho o que é preciso para suportar isto? Será que quero ter o que é preciso para suportar isto?

Será que gosto do que faço?


Até então tinha assumido ser normal ter dúvidas. Até então tinha assumido ser suposto achar que o trabalho era uma seca, até porque tenho um monte de passatempos bem mais divertidos. Até então tinha assumido ser expectável que me sentisse assim: perdida, angustiada e nervosa. Fazia parte do primeiro ano da especialidade, dizia para mim. Tudo ia passar, dizia para mim. Amanhã ia ser melhor, dizia para mim.

Até ao dia em que a pergunta se cravou na minha alma: e se o problema fosse mesmo da especialidade que escolhi?


E no dia em que ganhei o prémio de maior pila numa conversa com os meus amigos, senti que tinha perdido algo dentro de mim. E temi que tivesse sido a minha alegria.

Fui de férias. Regressei. Voltei a ir de férias. Regressei. E hoje ainda não sei as respostas.


Tenho dias bons, tenho dias maus, tenho dias aceitáveis. Como toda a gente, digo a mim própria. Tenho momentos em que me sinto incrivelmente realizada e outros em que me sinto a pior bodega de sempre. Como toda a gente, digo a mim própria. Tenho alturas em que sinto uma angústia atroz e outras em que sinto uma serenidade calma. Como toda a gente, digo a mim própria.


A pergunta continua cravada na minha alma, mas não encontrei ainda a resposta. E enquanto olho para o meu mapa e penso no caminho a seguir agora, nada melhor do que um bolinho de limão para acalmar o meu coração angustiado.

Porque disso eu tenho a certeza que gosto.


Fondant de limão com calda de Limoncello (receita adaptada da revista 'Saveurs Especial Sobremesas')

Ingredientes (para dois fondants):

* 60g de manteiga derretida;
* Raspa e sumo de um limão;
* 60g de açúcar em pó;
* 65g de farinha;
* 4g de fermento;
* Um ovo;

Para a cobertura:

* Sumo de um limão;
* Duas colheres de sopa de Limoncello;
* 30g de açúcar.

Confecção:

* Misturar a manteiga derretida, a raspa e o sumo de limão, o açúcar em pó, a farinha, o fermento e o ovo e mexer bem;

* Colocar a massa em duas formas pequenas e levar ao forno pré-aquecido a 180º durante 20 a 25 minutos;

* Misturar o sumo de limão, o Limoncello e o açúcar e aquecer em lume brando;

* Deixar ferver durante dois minutos e retirar do lume;

* Desenformar os bolinhos e cobrir com a calda.





Até amanhã! :D

25 comentários:

  1. Acho que todos nós, temos esse mesmo dilema,...tantos anos de estudo e trabalho e depois bem essa mesma pergunta,.....mas a vida é mesmo assim e hoje em dia, temos que nos agarrar ao trabalho que temos, pois olhando para o lado é quem esteja mesmo mal, sem trabalho, sem dinheiro e nós ainda o vamos tendo e dêmos graças,...boa sorte!
    Adorei este fondant de limão com calda,...
    Beijinhos,
    Espero por ti em:
    http://strawberrycandymoreira.blogspot.pt/
    www.facebook.com/omeurefugioculinario

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    1. Não concordo Mary. Não acho que devamos sujeitar-nos a passar uma parte significativa da nossa vida contrariados e infelizes só pelo medo de arriscar. Mas reconheço que a segurança do conhecido é tentadora ;)

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  2. As duvidas assolam-nos durante a nossa vida toda, mesmo que nao encontremos respostas importa que nos sintamos bem. Belo fondant! Beijinhos

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  3. É uma comparação engraçada :P mas não percebi se o objectivo é ter as melhores ou piores condições. Claro que ninguém quer ser infeliz, mas a tendência é provar que se é o mais miserável, certo? «Ganhas» por ser a pior? Só para ter a certeza :P
    A tua especialidade não parece nada fácil, embora toda a gente se queixe quando começa a trabalhar. Parece ser uma coisa mesmo puxada... E nota-se quando falas dela... É uma assombração, esse tipo de escolha que se tem de carregar durante tanto tempo! Idealmente faríamos todos o que fossemos felizes a fazer, mas é tão difícil ter ideia do que se quer... Ou saber como será realmente... Também não é um parque temático, já se sabe, mas daí a ser tortura :/
    As férias não costumam ser grande coisa para dar respostas :P
    Deve ser uma situação terrível. Desculpa ajudar «à festa» :P é uma dúvida complicada (imagino). De certeza que vais chegar à resposta certa! Pronto, eu sei que isto não ajuda. Não falaste com alguém que já tivesse passado pela especialidade ou assim?
    Pelo menos há a constância do limão, já não é nada mau ;) e ainda mais nestes bolinhos, que aspecto tremendo! Ficam tão apetitosos com essa forma, a sério :D e parecem fofinhos até mais não! De laranja também devem ficar bons :) ando com saudades de bolo de laranja :P
    Espero sinceramente que corra tudo bem com o teu trabalho! Senão podes sempre desistir e abrir uma loja de queques?... ;)

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    1. Sim, ganha o mais miserável. Somos masoquistas ;)

      Na verdade todos nos queixamos, mas eu costumo ganhar com os relatos dos pontapés, gritos e pais malucos :P Não é uma tortura, mas tem momentos mesmo difíceis e desmotivantes que por vezes são contrabalançados por momentos felizes e fantásticos. Novamente concluo que devo ser masoquista para ainda estar aqui a insistir :P

      Toda a gente me diz que o primeiro ano é difícil e que depois nos ambientamos. Estou à espera que isto passe, portanto :) Por via das dúvidas, já ando a pensar no sabor dos queques :P

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  4. Como te compreendo...
    Espero com o meu comentário te ajudar de alguma forma.
    A tua história: um curso, um emprego, uma remuneração bastante aceitável, um sentimento de pouca realização, de vazio, de que falta algo, de não é bem isto que quero para mim. O teu coração já te deu a resposta à tua pergunta.
    A minha história: um curso, muito tempo sem emprego, quando o consegui senti-me realizada financeiramente e agora um contrato terminado (porque a empresa apesar de ter feito tudo para ficar comigo, ainda não apresentou resultados para poder ficar comigo) e agora sinto-me novamente sem chão, mas um chão pior do que o anterior pois já experimentei a minha área na vertente teórica e prática e chego à conclusão que nada me realizou... Não quero fazer a minha vida do que estudei. E agora? Farta de pensar, farta deste vazio dentro de mim, farta desta angústia, ouvi o meu coração...com 34 anos vou tirar um novo curso e agora sim tenho a maturidade suficiente para saber o que quero e me faz feliz. Não vai ser fácil, mas no fim, vai valer a pena!
    Resposta à tua pergunta: Continua a trabalhar na especialidade em que estás, tens o teu emprego que te dá dinheiro para viveres. Ao mesmo tempo, investe em ti, na tua felicidade, na tua vida! Ouve o teu coração que ele diz-te em que especialidade ele se sente feliz e te põe um sorriso na cara. :) E vai em frente e com força! Sem medos! ;)
    MM

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    1. Não é bem uma sensação de vazio. É mais uma angústia. De não saber nada disto, de não estar a fazer as coisas bem, de ter doentes à minha responsabilidade e não ser boa o suficiente, de não ter capacidade emocional para lidar com tudo isto, de não me conseguir separar dos meus doentes e do seu sofrimento... Enfim. Também gostava muito de tirar um curso e penso nisso várias vezes, mas sinto que devia terminar a especialidade primeiro para depois me lançar nessa aventura. Penso em tirar o curso em regime pós-laboral, mas não sei se consigo fazer isso neste momento... Ainda estou a decidir o meu caminho, no fundo.

      Mas tive vários colegas de curso bem mais velhos e reconheço que todos eles tinham uma serenidade diferente, como se tivessem a certeza de que aquele era o caminho correcto... Por isso acho que fazes muito bem em arriscar :)

      Boa sorte :D

      Beijinhos :)

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  5. O teu post assuta-me... Isto porque este ano passo pela decisão de escolher uma especialidade (sou IAC).
    Porque sempre senti o fascínio da Psiquiatria.
    Porque me fascina "tirar a folha" a cada um que ouço, e tentar ajudá-lo no melhor que sei.
    Porque tenho uma nota no harry que me permite escolher qualquer coisa e tenho medo de a "desperdiçar".
    Porque tenho medo de ter que voltar a repetir o tormento de voltar a estudar aquilo e ser novamente o interno mais novo de um serviço.
    Porque no fim de contas, o que sempre quis foi ser médico, e gosto de quase tudo (sim, é verdade! até a medicina legal acho piada!)
    Porque... Porque... Porque...
    E no fim de contas é já Agosto, e a escolha está aí à porta.

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    1. (Antes de mais, e tendo em conta a nossa experiência, ainda tens uns bons meses para pensar na escolha! Nada de desesperar!) ;)

      É uma escolha muito pessoal. No fim o Pedro estava indeciso entre psiquiatria e oftalmologia e optou pela segunda. Pensa no que teria acontecido se tivesse ido para psiquiatria? Sim. Arrepende-se de ter ido para oftalmologia? Não sabe. Na verdade, no primeiro ano ninguém sabe. A minha amiga Joana quer ser pediatra desde os quatro anos, e agora que está no primeiro ano sente-se perdida e angustiada.

      Em cima de tudo isto, a psiquiatria não é fácil. Lidar com as emoções dos outros não é fácil. Ouvir os problemas deles e ajudá-los a carregar a bagagem deles não é fácil. Mas é nobre, é bonito e é enriquecedor. E depois de ter escrito esta chorice toda, a verdade é que os 0.25mg de risperidona funcionaram na consulta seguinte e eu senti-me bem e feliz.

      Não sei se o meu futuro passa por fazer isto para sempre, provavelmente não. Quero demasiadas coisas da vida para passar quarenta anos a fazer a mesma coisa. Mas sei que agora estou aqui, e estes momentos sabem bem. Por isso se gostas de psiquiatria sugiro-te que arrisques :)

      Na pior das hipóteses conheces uns colegas porreiros :P

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    2. Estou na mesma situação. Mas a diferença é que não faço ideia do que quero.

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    3. Nada de desesperar. As opcionais são úteis nesse sentido :) Já as fizeste? :)

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    4. Pois, é uma verdade. Adoro Psiquiatria, o tipo de consultas, as formas de tratamento, a abrangência da especialidade. No entanto, experimentei como opcional e a conclusão a que cheguei foi que os Psiquiatras se distanciavam demasiado da prática médica mais generalista (tratar uma ITU, uma pneumonia, um simples distúrbio iónico) e que olhavam par a dicotomia orgânico-funcional quase como um Santo Graal, mas pela negativa: ou seja, um tremendo distanciamento por todas as formas de disturbio organico com manifestações mentais.
      Nesse aspecto, acho que estou mais inclinado para a Neurologia. Não sei, tenho medo de me enganar profundamente. Só o tempo o dirá se tomei uma boa decisão.

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    5. Concordo que há psiquiatras que se distanciam da medicina, mas não são todos. O meu orientador é pedopsiquiatra e pediatra e tem uma perspectiva bem mais abrangente, que de certa forma eu 'herdei'. Ver a criança como um todo é indispensável :) E o resto vai-se praticando e ouvindo com os amigos internistas ;)

      Eu cheguei a fazer um estágio opcional de Neuro nas férias de Verão e não gostei nada. Era só demências, epilepsias, AVCs no jovem e esclerose múltipla. E depois era do género 'ah e tal olhe tem 30 anos e tem esta doença rara que o vai matar de uma forma horrível, mas não há nada que possamos fazer, desculpe lá qualquer coisinha'. Mas gosto imenso de neuropediatria (provavelmente por causa dos autismos) :)

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  6. É mesmo como toda a gente Joana... como toda a gente que trabalha em contextos com crianças e jovens que têm problemas psiquiátricos ou passam por situações dificeis. Nunca me senti tão péssima profissional (e péssimo ser humano) como neste ano de estágio (estou em psicologia e fiz estágio num centro de apoio a famílias multidessafiadas - ou seja, familias que estavam prestes a terem os filhos retirados ou que já tinham sido retirados). Questionei tudo, e se era isto que eu gostava, principalmente. Até pensei em deixar tudo e abrir uma casa de petiscos (juro-te que é verdade que isto me passou pela cabeça!). A verdade é demasiado complicada e quem está nestas profissões lida com a verdade demasiado crua, e isso custa. Havia dias em que chegava a casa e desabafava "Passo o dia a ouvir misérias!..." Não foi nada fácil e por isso acho que te percebo.
    Mas olha, descobri que não é esse o meu caminho. Felizmente, o mestrado que tirei permite-me muita flexibilidade e posso trabalhar em vários contextos (haja quem me aceite para trabalhar...).
    Como disseste no comentário anterior, enquanto estás aí esses momentos sabem bem. E é tudo o que importa na vida, é estarmos bem neste momento. Quando deixares de estar, se deixares de estar, mudas :) sem dramas.
    Beijinhos e muita força!
    (ai estes fondants....)

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    1. Pois, trabalhar com estas situações não é fácil. Há uns tempos comentava com uns amigos que perdi a capacidade de ser surpreendida pela negativa. Já nada me surpreende honestamente. Em oito meses já ouvi coisas que achava serem impossíveis, por isso a partir daqui é só mesmo aguentar e esperar que a tal carapaça emocional que toda a gente fala se desenvolva ;)

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  7. É perfeitamente normal, Joana. Acho que nos passam a todos essas dúvidas pela cabeça quando começamos. Durante o curso parece que temos todo um mundo de escolhas à disposição. E quando entramos na especialidade parece que perdemos um bocadinho essa liberdade do "o que quero ser for grande?". Como se fôssemos obrigados a ser isso para o resto da vida. Coisa que, deves saber tão bem como eu, não é minimamente verdade. Conheço as histórias mais loucas de pessoas que desistiram no último ano de internato de especialidade para irem para outra especialidade, histórias de pessoas que fizeram o exame na fase B às escondidas e foram mudar sem dizer nada a ninguém... Enfim. Acho que ninguém merece ser infeliz e que devemos combater isso mesmo que a mudança exija muita coragem. Mas também acho que as dúvidas são normais. Provavelmente nenhuma especialidade é exactamente como a idealizamos. Para não falar das condições laborais e etc etc a que estamos sujeitos. Por isso, um beijinho e muita calma :)

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    1. Cat, eu lembro-me do teu blogue! Que especialidade escolheste?

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    2. Sim, eu também acho que as dúvidas são normais. Até porque nem sequer estão sempre cá, mas é cansativo andar sempre nesta bipolaridade de sensações do género 'adoro isto' 'isto é demasiado intenso para mim'. Mas não é nada que não se faça (espero) :) Na verdade isto não é como o idealizei, mas também sei que não há nenhuma especialidade para a qual gostaria de mudar ;) Obrigada :)

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    3. Parabéns às duas :)

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  8. Compreendo. Espero que as dúvidas sosseguem com o tempo. Ou, se não forem para sossegar, que a coisa pareça mais clara. Um beijinho

    Anónimo, sim, Gastro <3 :)

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    1. Bem, se não sossegarem posso sempre abrir a minha loja de queques :P

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    2. (Ainda por cima vários dos meus colegas de trabalho têm o plano de fazer outra coisa depois da especialidade, deve ser um problema da minha especialidade!) :P

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