3 de junho de 2014

Iogurtes de curd de maracujá para uma má notícia.

I guess I was trying to keep me alive,
But once I was dead there was nothing to do
Beside picking me up and lying me down,
Waiting for some angel to wake me and say to me:

Hello, don't be scared. 
I want you to know, you're not dead.

Silence 4


Aos 18 anos eu não sabia o que queria fazer para o resto da vida. Gostava de tantas coisas que era para mim impensável conseguir optar apenas por uma, e adiei até ao último momento o preenchimento da lista de candidaturas à faculdade.


Quando eventualmente tive de preencher o papel optei por escolher o que mais gostava de fazer: viajar. Mais do que tudo na vida eu amava viajar, e achei sinceramente que ir para medicina me iria permitir ter o conforto necessário para poder fazê-lo tão frequentemente como gostaria (estava enganada, mas adiante).

Na altura ainda não se ouvia falar da crise, do desemprego médico e de tantos outros temas que hoje assombram os estudantes do secundário. E por isso enchi-me de coragem, preenchi o papel com confiança e entrei em medicina.


Costumo dizer que entrei no curso apaixonada por viagens e saí apaixonada por pessoas. Nunca fui uma daquelas pessoas que quer ser médica desde os quatro anos, mas desde que meti o pé pela primeira vez na faculdade que fiquei irremediavelmente apaixonada pelo curso e pela arte. E por isso é que é tão difícil quando as coisas correm menos bem.


Em dois dias seguidos tanto eu como o Pedro tivemos que dizer a doentes nossos que tinham poucos meses de vida: o meu doente por causa de um tumor no pulmão, o do Pedro por causa de um tumor no pâncreas. Em ambas as situações o diagnóstico era inesperado e deixou-nos abismados.

Gostava de dizer aqui uma qualquer frase inspiradora, mas a verdade é esta: há dias em que o nosso trabalho é uma valente merda.


Dizem-me que com a experiência vou desenvolver barreiras emocionais. Dizem que me vou tornar mais fria e que vai custar menos. Dizem que só nos resta saber que fizemos o que estava ao nosso alcance para ajudar aquela pessoa. Mas eu não consigo evitar pensar que não há viagens no mundo que compensem isto.

Eventualmente continuamos a respirar. Continuamos a viver, continuamos a sorrir, continuamos a comer, continuamos a falar. Eventualmente a nossa vida continua, mesmo sabendo que aquelas não irão continuar. Eventualmente passa. Mas agora ainda dói.


Iogurtes de curd de maracujá (receita do curd adaptada do site da Donna Hay)

Ingredientes (para sete iogurtes):

Para o curd de maracujá:
* 175ml de polpa de maracujá;
* 150g de manteiga sem sal cortada em cubos;
* 180g de açúcar branco;
* Três ovos;
* Duas gemas.

Para o iogurte:
* Um litro de leite fresco meio-gordo;
* Três colheres de sopa de leite em pó magro;
* Três colheres de sopa de açúcar;
* Um iogurte natural.

Confecção:

* Juntar a polpa de maracujá, a manteiga e o açúcar e aquecer em lume brando até a mistura ficar homogénea;

* Numa tigela à parte bater bem os ovos e as gemas com uma vara de arames;

* Juntar em fio a mistura de maracujá, mexendo sempre com a vara de arames;

* Levar a mistura novamente a aquecer em lume brando durante sete minutos, ou até o molho engrossar;

* Deixar arrefecer e conservar no frigorífico;

* Noutro tacho colocar o leite fresco, o leite em pó e o açúcar e mexer com uma vara de arames;

* Levar ao lume até ferver e deixar arrefecer;

* Quando estiver morno juntar o iogurte, misturando com a vara de arames;

* Distribuir curd de maracujá pelos copinhos e cobrir com o leite;

* Levar à iogurteira durante cerca de dez horas;

* Transferir para o frigorífico durante pelo menos quatro horas.

  

A quantidade de curd que vos mostro dá para aproximadamente duas receitas: eu usei metade nestes iogurtes e a outra metade numa pavlova maravilhosa que vos vou mostrar na Sexta-feira :)

Até amanhã! :D

7 comentários:

  1. O sol volta todos os dias... e as tristezas de hoje, amanhã são passado!

    Beijinho e força, nessa sua profissão corajosa.

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  2. Medicina deve ser doloroso, exigente psicologicamente, absorvente. É verdade que acredito que dê conforto financeiro... mas ter a vida dos outros nas nossas mãos é uma cruz demasiado pesada.

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  3. Não digo que nós tornamos mais frios com o tempo...apenas nós habituamos e se pensarmos que um sorriso, um gesto ou uma palavra tornou o dia de alguém que sofre um pouco melhor isso já nós dá um Grande conforto. Agora que lidar com a morte não é fácil não é.....

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  4. Eu acredito que no dia em que esse tipo de notícias te deixarem de incomodar ou de pôr triste, aí tornaste-te numa pessoa fria, e fria demais para a profissão. É o que penso. As coisas poder-se-ão aligeirar, mas nunca deve ser fácil dar uma notícia dessas.

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  5. Concordo com o/a Dreamer - se te tornares fria ao ponto de não te deixares comover por uma coisa dessas, então já não és médica, és uma máquina qualquer a cumprir uma função. Infelizmente é uma das coisas que as pessoas se queixam dos médicos - a frieza e a incapacidade para lidar com as emoções dos doentes (e portanto, presumo eu, a incapacidade para lidar com as suas próprias emoções). A mim parece-me que a única saída para isso é saber lidar com as próprias emoções e aceitá-las, para poder ajudar os outros com as suas. E dito isto, felizmente nem todos os dias são uma valente merda!

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  6. Fiquei sem palavras. E acho que tu sabes omotivo.O meu maior medo sempre foi, nas consultas da minha mãe, que lhe dessem essa notícia.

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  7. Sinceramente não consigo criticar os médicos ditos "frios". Não compreendo e não consigo fazê-lo, mas é porque não estou na situação, mais nada. Não estou em posição para poder dizer alguma coisa de jeito. Talvez seja uma reação normal... Não dá para dizer nada sem saber o que realmente é. Porque deve ser mesmo, mesmo difícil. Só de ler histórias dessas, como a tua, fico angustiada, com borboletas (ou melgas) no estômago e até com calafrios. Quanto mais vivê-la.
    Chocou-me imenso uma "história" há alguns anos... Um médico a que fui disse que tinha acabado de ver um paciente. Tinha 2 dias de vida. A família dele não lhe tinha dito nada... Só consigo imaginar o desespero. Os sentimentos apressados... Por um lado permitiram-lhe uns dias de paz, por outro não sei se tinham direito. Devia haver uma espécie de acordo para isso, tipo "testamento"... É uma coisa em que é incrivelmente difícil decidir o que fazer (ou não). Se já para o próprio é difícil... Essa situação de que falei assustou-me mesmo. Faz pensar no quão "frágeis" são as coisas.
    E o vosso papel não deve ser nada fácil. Pelo contrário. Nem dá para imaginar.
    Bem, quanto aos iogurtes: que aspeto! Eu tinha pensado que não podiam ser assim tãão versáteis, mas esquece. Tive de engolir depois das tuas receitas. Era melhor se tivesse sido com um bocadinho de iogurte de mel e nozes :P Sinceramente também não tinha pensado em variar aquilo que se põe no fundo (e que tem impacto no iogurte todo :P). E, já agora, AQUELE iogurte com 2 cores! Que. Espetáculo. Ficou mesmooo giro :D
    (Mas se queres escrever um livro de iogurtes é melhor começares a ponderar seriamente sobre a aquisição de um mini frigorífico para transportares para a feira do livro :P haha)

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