Some people say that I'm not worth it.
I've made mistakes but nobody's perfect.
Guess I'll give it a try.
I've got one last chance to get myself together.
I can't lose no more time, it's now or never.
And I try to remember who I used to be.
I've got one last chance to get myself together.
James Morrison
Durante o estágio de Ginecologia e Obstetrícia do quarto ano do curso passávamos por várias valências da maternidade, nomeadamente a consulta da IVG (ou interrupção voluntária da gravidez).
Vi muitas coisas naquela consulta. Vi crianças de onze anos e mulheres adultas de quarenta. Vi raparigas felizes por se livrarem de uma gravidez não desejada, mas também vi mulheres destruídas pelo golpe do destino e pelo peso da sua própria decisão.
O caso que mais me marcou foi o da rapariga ruiva. Quando a rapariga ruiva chegou à consulta a gravidez já estava demasiado avançada para a IVG ser feita por via medicamentosa, e por isso ela foi encaminhada para a cirurgia. Nos breves (mas incrivelmente longos) minutos em que a rapariga ruiva esperou para entrar na sala de operações decidiu sentar-se numa cadeira no canto da sala, a tremer indefesa dentro da sua bata verde clara. E chorou. Soluçou num pranto sem fim, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelas bochechas pálidas até secarem.
Decididamente não nos ensinam a lidar com isto no curso, raios.
Sentei-me à frente dela e apertei-lhe a mão com força. Disse-lhe que não ia doer, e que ia ser rápido. Disse que nunca mais ia ter de voltar ali. Disse-lhe para ter calma e força.
A dada altura a rapariga ruiva começou a dizer que não estava a sentir-se bem, e foi uma questão de milésimos de segundo até vomitar para cima da minha bata da cirurgia. Depois começou a hiperventilar e a ficar ansiosa e irritada, e foi então que a anestesista achou melhor sedá-la completamente para o procedimento.
E depois a anestesista disse:
'Esta miúda fica sempre tão alterada, não sei porque raios continua a cá voltar.'
Demorei alguns segundos a digerir o que tinha acabado de ouvir. E foi então que fui ler a ficha da anestesista.
Rapariga ruiva, 16 anos, quarta IVG.
Gostava de vos dizer que foi a única rapariga que vi a fazer a quarta IVG, mas estaria a mentir-vos. No entanto, aquela foi a única com a qual eu me senti verdadeiramente enganada: afinal, tinha sentido empatia por ela, tinha-lhe dado a mão e tinha-a confortado.
Eu não sou ainda nem sequer uma amostrinha de médica, mas há dias em que juro-vos que só me apetece mandar tudo ao ar, virar as costas, sair da sala e nunca mais olhar para trás.
Mas não o faço. Em vez disso continuo a apertar mãos com força, continuo a dizer que não vai doer e continuo a levar com vomitado. Porque as bactérias limpam-se com a solução alcoólica, mas as marcas que as pessoas deixam no nosso coração não saem nunca. E ainda bem, porque nunca nos devemos esquecer de que todos merecemos uma nova oportunidade, por muito que supostamente tenhamos errado. Até a rapariga ruiva.
Por outro lado, já estava na hora do Estado obrigar as miúdas que fazem mais de duas IVGs a porem implantes, não? É verdade que é um possível problema ético, mas não seria melhor para proteger a saúde delas?
Chili vegetariano
Ingredientes (para duas pessoas):
* Um fio de azeite;
* Uma cebola picada;
* Três dentes de alho picados;
* Uma lata pequena de feijão vermelho cozido;
* Uma lata pequena de tomate pelado;
* Uma colher de chá de pimentão-doce;
* Uma colher de chá de paprika;
* Meia colher de chá de cominhos;
* Meia colher de chá de coentros;
* Uma colher de chá de salsa picada;
* Uma colher de chá de piri-piri (ou a gosto);
* Uma pitada de sal.
Confecção:
* Refogar a cebola picada e o alho picado num fio de azeite até a cebola ficar translúcida;
* Juntar o feijão vermelho e deixar refogar;
* Acrescentar a lata de tomate pelado (com o respectivo molho) e mexer bem;
* Temperar com o pimentão-doce, a paprika, os cominhos, os coentros, a salsa picada, o piri-piri e o sal;
* Deixar cozinhar até ficar apurado.
Ultimamente temos servido assim o chili, em versão sopinha. Fica tão reconfortante :D Experimentem! :D
Até amanhã! :)
"Por outro lado, já estava na hora do Estado obrigar as miúdas que fazem mais de duas IVGs a porem implantes, não? É verdade que é um possível problema ético, mas não seria melhor para proteger a saúde delas?".
ResponderEliminarUm problema ético, é o que está por trás de quatro IVG aos 16 anos. Sei que é fácil falar, mas há qualquer coisa de errado nesta história, e na minha opinião o estado "pode" obrigar as miúdas, mas não pode impedi-las de ter comportamentos de risco. Se calhar sou naive, mas não fazia ideia que isto acontecia (e se calhar com muita frequência, ou mais que a desejável!).
A ti, parabéns. Por seres capaz de manter a tua mão disponível, mesmo quando o teu coração e os teus princípios te dizem que toda a história está errada.
Beijinho grande!
4?! :O
ResponderEliminaracho que isso não estará muito certo mas quem sou...
IVG doi menos do que aborto.
ResponderEliminarSem nome, porque sim.
Até a mim me custa e não fui nem hei de ser a pessoa que estará lá para dar a mão..Acho que mais que implantes ou outra coisa, as mentalidades é que têm que mudar e perceber que não podemos ser negligentes conosco e com a nossa vida. Afecta nos, afecta outros e por vezes destroi tudo o que construimos, apenas porque a mentalidade continua fechada e sem ver para lá dos "desejos" e fantasias....Tenho 2 filhas e um filho , não sei o que vai acontecer, mas vou tentar tudo por tudo para que eles entendam que não se pode "brincar" ás casinhas que devem ter responsabilidade pela vida deles e pela dos outros....Posso estar a ser muito directa mas acho que o Estado até tem estado a desenvolver um papel favorável no caso da IVG, podia ser melhor ? podia, mas se houvesse mais esclarecimento e acompanhamento em casa podia-se evitar muita coisa. No caso das mulheres mais velhas, apenas acho que essas são casos de irresponsabilidade completa. Há casos e casos mas acredito que na maioria são actos irreflectidos e do chamado "depois-logo-se-vê".
ResponderEliminarDesculpa o testamento mas é uma questão que me custa ser politicamente correcta, mas dou te valor por seres assim uma "mão amiga" na altura em que precisam de ti.
Bjoka
Rita
A tua história deixou-me com um nó na garganta.. eu tenho uma filha com 16 anos, nem consigo imaginar o que é alguém na idade da minha filha já estar a passar pela quarta IVG! :/
ResponderEliminarA tua receita está fantástica!
Realmente, numa 4ª IVG algo está a falhar... e já nem se coloca a falta de informação ou a falha de meios preventivos... É uma questão delicada e acredito que nada fácil de lidar.
ResponderEliminarO outro assunto: chili versão sopa? Ora aí está uma coisa que não conhecia. :)
Beijinhos
Percebo perfeitamente a sensação de enganp que deves ter sentido... :( de facto chocante!
ResponderEliminarQuanto ao belo chili mais uma vez nos presenteias com uma bela refeição!
Beijinhos,
http://sudelicia.blogspot.pt/
Esse chili-sopa está com um aspecto delicioso! Ainda não almocei, agora comia uma tacinha :)
ResponderEliminarBeijinhos
Olá Joana,
ResponderEliminarQue história mas, sim eu trabalhei num centro de saúde, enquanto tirava o meu curso e também vi situações destas que me deixam completamente indignada... não percebo porque é que "nnguém" toma medidas para estes casos.
Bjs, Susana
Nota: Ver os passatempos a decorrer no meu blog:
http://tertuliadasusy.blogspot.pt/2013/11/1-aniversario.html
http://tertuliadasusy.blogspot.pt/2013/12/strudle-de-bacalhau-e-couve-com-chourico.html
Essa é uma questão muito delicada.
ResponderEliminarSou a favor da IVG e ainda bem que foi legalizada. Uma 4ª IVG aos 16 anos significa que algo não está ali certo. A minha humilde opinião é a de que a geração adolescente de hoje só engravida por desleixo. Há todo o tipo de informação, há preservativos, há planeamento familiar. Se já são "adultos" para ter relações sexuais, também o são para ter os cuidados inerentes ao acto. Mas a verdade é que cada vez mais se vê crianças a ter comportamentos de adultos, mas que no fundo não deixam de ser crianças.
Mas essa história e o comportamento dela, cheira-me quem tem outras coisas por trás e talvez bem mais negras :S
Chilli versão sopa: adoro! nhami nhami, vou roubar a ideia :P
beijinho*
Sinceramente não sei o que vai na cabeça da rapariga, um ou duas vezes ainda acredita-se em desleixo ou outra desculpa, mas quatro? Mas pronto, pode ser que desta vez, da maneira como estava, se aperceba das suas ações.
ResponderEliminarDe resto, bom chili :)
Joaninha,
ResponderEliminarAcho melhor não comentar o texto..., mas quando se passa muita vez a mão pela cabeça de alguém o efeito pode ser o contrário - em vez de ajudar e resolver - as pessoas ficam com a sensação que podem fazer tudo só porque sabem que há solução para remediar a coisa. E quem faz 4 vai continuar a fazer!
Adiante...sopinhas reconfortantes são tão boas para o Inverno. Boa sugestão :))
Joana, obrigada por continuares a dar a mão a todas as meninas e mulheres que vês e acompanhas. Obrigada!!
ResponderEliminarEstou a estudar para ser psicóloga clínica, e tenho a certeza, que essa menina ruiva nunca fui acompanhada... Porque o nosso sistema de saúde não esta preparado para isso, por isso, querida Joana, aperta-lhe ao menos a sua mão :)
(Obrigada pela partilha :))
Olá Joana!
ResponderEliminarVou discordar completamente com o teu último comentário. As pessoas não são (e desculpa a expressão) "gado" que para que seja o Estado a obrigar a colocar um implante. A questão é mais profunda. O problema é a desresponsabilização do aborto que a nossa lei permite. A tentativa de resolver um problema facilmente que depois coloca a descoberto outros 10 problemas, para os quais apenas um decreto-lei no Diário da República não resolve.
**A.
Para quem comentou e acha que a culpa só pode estar toda na menina... e se ela fôr abusada e tiver medo de denunciar quem o faz? Julgar sem conhecer alguém, é um acto muitas vezes cruel.
ResponderEliminarHonestamente eu acho que foi por isso que este caso me marcou tanto. Vi várias miúdas a fazerem a 3ª e 4ª IVG, mas não me recordo de nomes ou caras. Mas esta miúda sim: se fechar os olhos consigo vê-la na perfeição. E eu acho que isso acontece porque havia ali algo estranho - um componente de culpabilização muito grande, imensa vergonha e um grande sofrimento. Na altura falei nisso com a minha tutora, até porque a miúda era estrangeira e infelizmente hoje em dia o tráfego humano é uma realidade inegável. Mas há uma certa despersonalização dos cuidados de saúde: a pessoa está ali para fazer a IVG, faz-se e pronto.
EliminarEu tento sempre não julgar ninguém. Erros todos cometemos, e eu não sou melhor ou pior do que ninguém para andar a apontar dedos. Mas infelizmente é uma situação preocupante, ver todas aquelas miúdas de 12, 13 anos absolutamente relaxadas com uma situação que é grave. Nesse sentido, garanto que é muito fácil julgar. Mas depois é preciso pensarmos no apoio social das pessoas, na educação e até no meio em que se inserem.
Enfim, podia estar aqui todo o dia a falar disto. É uma situação extremamente complicada, porque não podemos desculpabilizar por completo as miúdas, mas também não podemos culpabilizá-las sozinhas.
Feliz dia de Natal!