15 de outubro de 2013

Croquetes de peru e salpicão no forno e a pressa de chegar.

Running, running, as fast as we can.
Do you think you'll make it?
We're running, keep holding my hand.
It's so we don't get separated.

No Doubt


Há uns sete anos eu e o meu namorado da altura fomos de comboio até à Régua, onde passámos um dia bem divertido.

A meio da viagem de regresso o comboio parou abruptamente, e dez minutos depois o revisor informou-nos que alguém se tinha atirado para a linha, pelo que teríamos de esperar algum tempo até que a situação normalizasse.


As reacções não se fizeram esperar: houve quem se tivesse precipitado para fora do comboio para ver o corpo (porque ver um corpo trucidado é super giro), houve quem bufasse de aborrecimento e houve quem verbalizasse frases do género 'que chatice', 'já bámos chigar tótil atrasados oblá' e 'realmente já não há respeito'.

Na altura eu e o meu namorado ficámos surpreendidos (e até chocados) com a frieza de quem, perante uma vida que termina de uma forma tão trágica, só consegue pensar na sua própria agenda.

Toda a gente vive cheia de pressa de chegar a algum lado.


Há quatro anos eu estava a caminho de casa dos meus pais. A meio da viagem de regresso o comboio parou abruptamente, e dez minutos depois o revisor informou-nos que alguém se tinha atirado para a linha, pelo que teríamos de esperar algum tempo até que a situação normalizasse.

Novamente, as reacções não se fizeram esperar: houve quem se tivesse precipitado para fora do comboio para ver o corpo, houve quem bufasse de aborrecimento e houve quem verbalizasse frases do género 'que porcaria pá, assim já vou chegar atrasado para almoçar!', 'espero que isto se despache depressa!', 'as pessoas não se podem matar em casa sem chatearem ninguém?' e 'a menina é estudante não é? Tenho um quarto para alugar ali para os lados de Benfica!'.

Toda a gente vive cheia de pressa de chegar a algum lado.


Há duas semanas voltava para Lisboa, quando a meio da viagem o comboio parou abruptamente. O revisor informou-nos que um enorme incêndio em Pombal estava a impedir a passagem pela linha, pelo que teríamos de esperar algum tempo até que a situação normalizasse.

Mais uma vez, e outra, e outra, os comentários de enfado atravessaram o ar: que chatice, que aborrecimento, realmente isto não tem jeito nenhum, já vou chegar atrasado, isto era quem os matasse a todos de formas-altamente-mórbidas-que-eu-não-vou-reproduzir-aqui, e outros do mesmo género.


Uma hora depois, o comboio recomeçou a andar. Quando passámos pela zona do incêndio o cenário estava negro, e era apenas interrompido pelos pequenos pontos que continuavam a arder. O cheiro a queimado invadiu as carruagens e demorou uns bons minutos a desaparecer do ar. Era desolador ver todas aquelas árvores queimadas. Era muito triste assistir a tudo aquilo.


Não ouvi ninguém expressar pena por todos os anos (independentemente das razões) o nosso país desatar a arder no Verão. Não ouvi ninguém expressar preocupação pelas centenas de bombeiros que diariamente arriscam as suas vidas para salvar algo que não é só deles, mas de todos nós. Não ouvi ninguém expressar tristeza por toda a natureza que estamos a perder, e que os nossos filhos nunca verão. Não ouvi ninguém expressar simpatia, compreensão, calma ou paciência.

Toda a gente vive cheia de pressa de chegar a algum lado.

Para essas pessoas, aqui vão estes croquetes. Simples, rápidos, bons, saudáveis. Para quem tem muita fome e pouco tempo disponível. Para quem vive cheio de pressa de chegar a algum lado.


Croquetes de peru e salpicão no forno

Ingredientes (para oito croquetes grandes):

* 500g de peito de peru picado;
* Três rodelas de salpicão;
* Meia cebola picada;
* Dois dentes de alho picados;
* Uma pitada de sal;
* Uma pitada pequena de noz-moscada;
* Meia colher de chá de pimentão-doce;
* Meia colher de chá de paprika;
* Meia colher de chá de salsa picada;
* Um ovo batido;
* Pão ralado q.b;
* Um fio de azeite.

Confecção:

* Juntar o peito de peru picado, as rodelas de salpicão, a cebola e os dentes de alho e picar na picadora até ficar uma mistura homogénea;

* Temperar com o sal, a noz-moscada, o pimentão-doce, a paprika e a salsa picada.

* Formar croquetes e passar pelo ovo batido e pelo pão ralado;

* Passar novamente pelo ovo batido e pelo pão ralado, se desejarem uma camada exterior mais crocante;

* Colocar num tabuleiro e regar com um fio de azeite;

* Levar ao forno pré-aquecido a 190º durante cerca de trinta minutos, virando os croquetes para que assem uniformemente.


Acompanhei os croquetes com migas, mas como ainda estou a desenvolver a receita não vou colocá-la aqui tão cedo! Aceitam-se sugestões sobre como fazer as melhores migas de sempre :)


Espero que gostem :D Até amanhã! :D 

17 comentários:

  1. Rapariga, as tuas viagens de comboio já dão para escrever um livro... lol.
    Realmente nos dias de hoje a pressa faz com que nos tornemos egoístas e só pensemos em nós (contra mim falo que, embora não ande de comboio, ando sempre à pressa e por vezes também sou egoísta).
    Os teus croquetes têm um ar super crocante e delicioso... quanto às migas, posta a receita rapidamente pois pela imagem parecem-me ser muito saborosas.

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  2. Realmente vivemos com pressa, e é uma pena, pk não chegamos a aproveitar as coisas boas da vida...
    Adorei esses teus croquetes, estão com um aspecto que só apetece roubar um :)
    Se quiseres espreitar estas migas, ficaram deliciosas: http://ratatuidospobres.blogspot.pt/2013/01/migas-de-bacalhau-e-caldo-verde.html.

    beijinhos

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  3. Os croquetes ficaram lindos e sendo de peru tem que estar uma delicia.
    Gostei do aspecto das migas
    bjs

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  4. Tão lindos estes croquetes. Devem ser muito saborosos. Também gostei muito do acompanhamento. bjs

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  5. enquanto lia o texto e ia vendo as fotografias, ia-me babando pelas migas... e no fim vejo que não há receita?!?!? oh não! elas têm tão bom aspeto que iam já de seguida!
    aguardo ansiosamente pela receita, maravilhosa como sempre!
    Alexandra

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  6. Joaninha,
    A pressa é um mal que se apoderou deste século! Parece que andamos todos com tanta pressa de viver que acabamos por nem o fazer devidamente...e cada qual só se preocupa com o seu umbigo (e sim! às vezes também sou afectada por essa moléstia);

    Estava à espera da receita das migas e afinal não há!
    Sugestão (se não o fizeste): demolhares o pão de milho em água morna. Fica mais incorporado com os legumes e menos rijo. Adoro migas!

    Beijos

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  7. Quando li este teu post, não pude deixar de me lembrar da "Estou além", do António Variações. :)

    "Não consigo dominar
    Este estado de ansiedade
    A pressa de chegar
    P’ra não chegar tarde..."

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  8. Adoro a apresentação dos teus pratos, o cuidado que colocas em todos os posts. parabéns!

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  9. Joana, realmente confesso que me ri, porque a maneira com contas faz o trágico ser mais leve.
    Eu gostava de dizer que não sou assim, e não sou, quase nunca... mas às vezes aborrece-me muito esperar, porque gosto de chegar a horas... mas sou uma pessoa de relax no geral.
    Adorei a sugestão.
    Apresentação brutal! :)

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  10. Joana, se aceitas um concelho, começa a andar de bicicleta, que já se viu que tu e comboios não se dão muito bem!
    Agora a sério uma vez mais um post excelente que nos faz reflectir e, ao mesmo tempo, querer correr para a cozinha fazer esses deliciosas croquetes :)
    Beijinhos
    http://sudelicia.blogspot.pt/

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  11. Excelente sugestão! Quanto ao resto... :) :) :)

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  12. Que receita tão tentadora! :) Vou tentar fazê-la no fim de semana!

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