26 de junho de 2013

Couve mineira à minha moda e uma reflexão sobre as origens :)

Lisboa cheira aos cafés do Rossio,
E o fado cheira sempre a solidão.
Cheira a castanha assada se está frio,
Cheira a fruta madura quando é Verão.

Amália Rodrigues


Eu cresci em Leça da Palmeira. Estudei em Matosinhos, depois em Leça da Palmeira e depois em Vila Nova de Gaia. Por fim, vim para Lisboa. 

Há seis anos que vivo nesta cidade pela qual, confesso, nutro sentimentos contraditórios. Se por um lado gosto do conforto de ter tudo relativamente perto de casa, por outro suspiro pela calma e pelo sossego de um local mais pequeno. Se por um lado não quero abrir mão da segurança de ter três hospitais a dez minutos de casa, por outro penso que a cidade faz mal à saúde. Se por um lado gosto da ideia de ter tantos locais interessantes para mostrar aos meus filhos no futuro, por outro recuso-me a criá-los num sítio tão inseguro e confuso. 

Apesar de tudo isto, Lisboa já é um bocadinho minha, e eu já sou um bocadinho de Lisboa. O sotaque do Norte teima em desaparecer, já me oriento de olhos fechados pelas ruas cheias de cruzamentos e já não tenho medo de andar na rua à noite. 


Mas sinto uma certa inquietação quando penso: e então, de onde serei eu? Serei de Leça da Palmeira, a terra que me viu crescer mas que nunca me tratou particularmente bem? Serei de Vila Nova de Gaia, a terra onde me senti verdadeiramente feliz pela primeira vez? Ou serei já de Lisboa, a terra que me acolheu de braços abertos e me fez encontrar-me a mim própria? 

Porque é que é tão importante para nós pertencermos a algum local? 


Cresci a ouvir chamar a esta couve a couve mineira. Depois vim para Lisboa, e descobri que na verdade se chama couve-galega. Tal como eu, esta couve também não pertence a nenhum local específico: é brasileira, é galega e é também portuguesa. 

Aposto que ela também se sente confusa. Aposto que ela também se sente muitas vezes desenquadrada. Aposto que também seria importante para ela pertencer verdadeiramente a algum local. 

Pelo menos por hoje, ela pertence à minha barriguinha. 

Couve mineira à minha moda

Ingredientes:

* 200g de couve-galega já cortada;
* Um quarto de chouriço de peru cortado em cubinhos; 
* Dois dentes de alho picados;
* Um fio de azeite.

Confecção: 

* Refogar o alho picado e os cubinhos de chouriço no fio de azeite;

* Juntar a couve-galega e saltear até ficar pronto. 


Até amanhã :D

19 comentários:

  1. bela proposta... quanto à reflexão sobre as origens... já andei por Vila Nova de Gaia, Aveiro, Coimbra... e acabei nas minhas origens: Maia! O apelo do coração é muito grande! Bjinhos

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  2. Es muy dificil adaptarse a un lugar, mas cuando en el anterior te han tratado divinamente, la verdad es que cuesta, pero al final si el recibimiento ha sido con los brazos abiertos te sientes a gusto, aunque siempre en un rinconcito de tu corazón estarán tus origenes, este plato tiene que ser riquisimo, precisamente ayer prepare uno con col, una delicia, besos
    Sofía

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  3. Eu confesso que não importa de onde ela é, é simplesmente a minha couve favorita. E da forma como a apresentas está simplesmente divinal :)
    Grande beijinho

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  4. Percebo a confusão e a contradição, mas é deveras engraçado imaginar uma couve mineiro-galego-portuguesa que não se sente enquadrada por não conhecer a verdade sobre a sua origem!

    Na verdade, tu sabes as tuas origens...sabes que terra te viu nascer e crescer, essas são as tuas origens. Isso não quer dizer, no entanto, que pertenças aí. Felizmente conheceste outros espaços pelos quais te apaixonaste, onde te sentes confortável (embora desconfortável) e por isso mais tarde ou mais cedo saberás decidir com naturalidade a terra onde queres ficar por ser a ela que pertences! :)

    E, no fundo, sejam quais forem as origens da couve que preparaste, ela pertence na perfeição a acompanhar esse delicioso rolo recheado!

    Um beijinho,
    Aida

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  5. Não sabia que a couve galega se podia chamar couve mineira! É uma couve do mundo :P
    E é também a minha 2ª couve preferida (a primeira é a bacalan!). Assim salteadinha, partida fininha... deixaste-me com água na boca! (então eu, que gosto de couves com tudo, de qualquer maneira...)
    Tenta não perder o sotaque do norte, uma das coisas que tornam Portugal interessante são os vários sotaques :)
    Beijinhos*

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  6. Eu amooooo o teu blog, estás de parabéns. É dos meus blogues preferidos e acho que é dos blogues que, em termos de culinária, está com a melhor apresentação!!

    Eu sou tão má na cozinha mas hei de experimentar alguma dessas receitas, mais uma vez, parabéns pelo blog ♡♡

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  7. Adoro couve salteada com alho! Também podem ser grelos ou espinafres, não sou esquisita. Mas couve é couve! :-) Quanto às origens, acho que podemos ser de vários sítios... mas não deixas de ser uma mulher do norte! (mesmo que percas o sotaque ;-) )

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  8. É uma couve que é de todos os sítios, tal como nós somos cidadãos do mundo :)
    Lisboa acolheu-me como se eu fosse de lá, adorei viver aí e partiu-me o coração vir embora! Trabalhar no Chiado e a vista para o Tejo da minha janela aquecia-me a alma todos os dias, mesmo os maus :)
    É um acompanhamento muito bom!!

    Beijinhos*

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  9. Ainda bem que gostas de Lisboa, apesar de eu ter nascido cá também gosto muito da paz do campo e compreendo perfeitamente o que dizes

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  10. Eu acho que podemos pertencer a vários sitios, já que fazem parte de nós e nenhum sítio é perfeito ;)
    Optima sugestão, adoro a couve salteada com alho

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  11. Home is where is heart is, não é o que dizem? Para mim, onde está a minha família, é a minha "casa". Onde um dia formar a minha, será a minha "casa".
    De resto, a familiaridade de um local, os conhecimentos que fazemos, ajudam a criar essa sensação quentinha de conforto, que também podemos associar a lar.

    Beijinhos e boa couve ;)

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  12. Joana querida,
    achei que a couve fosse em homenagem a Minas Gerais o meu estado,kkkkkk.
    Adorei a sua receita, aqui em casa consumimos muito couve!

    Bjs

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  13. I need to jump on the kale bandwagon...adding sausage is a delicious idea!

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  14. Couve galega , muito boa nutricionalmente :)*

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  15. Ficou muito apetitosa, Joana! Boa sugestão!
    bjs
    Paula

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  16. Raízes - o bom de já ter viajado bastante é teres uma percepção diferente do mundo.
    Sei que, se sentires o apoio da tua família e das pessoas que são importantes para ti, consegues ser feliz e bem sucedida em qualquer lugar, seja no Alentejo, no Norte, ou no Estrangeiro. Voltar aos lugares em que se foi feliz é muito bom, mas as memórias, os cheiros, os sorrisos...estão todos guardados dentro de nós.

    Couve - gosto muito da ideia! O pior é que, cada vez que compro ou trago de casa do pai, as couves acabam por ficar velhas no frigorifico porque vou sempre adiando...A tal procrastinação!!

    Já meti os comentários em dia :)

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  17. Olá,
    Sou brasileiro e morei em Lisboa por dois anos. Hoje estou escrevendo um livro dessa época da minha vida. Estava procurando o nome dado a couve mineira aí em Portugal, e com muito grado chego a esse blog.
    Parabéns a receita, ela é bem utilizada aqui, principalmente se o prato for uma feijoada.

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