24 de março de 2020

Catorze dias de quarentena.

Namorávamos há seis meses quando decidimos começar a viver juntos. Tínhamos dezanove anos. Na altura, as minhas amigas mais próximas fizeram uma intervenção: diziam que dar um passo tão drástico era um grande erro, que nos íamos cansar e que éramos muito novos.

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Foi parecido com isto, mas estávamos no café
Depois disso passámos a estar 24h por dia juntos. Durante o dia estávamos juntos na faculdade (éramos da mesma turma, tínhamos as mesmas aulas), depois voltávamos juntos para casa. Ao fim-de-semana íamos a casa dos nossos pais. 

Sempre florescemos nesse contexto. Somos bons a estar juntos. Somos óptimos, na verdade. Somos uma equipa do caraças. Por outro lado, somos péssimos a estar afastados. Aos fins-de-semana morríamos de saudades, as férias eram difíceis, o estágio do Pedro em São Paulo foi um terror e o estágio em Barcelona pareceu demorar mil anos. 

Entrámos em especialidades diferentes, e pela primeira vez começámos a passar os dias em hospitais diferentes. A nossa rotina mudou e passámos a estar menos tempo juntos, mas continuámos a ter sucesso. Com a chegada do Matias sentimos que ficámos ainda mais fortes e mais apaixonados. Já com a Gabriela não foi tão linear (= foi péssimo), mas depois das primeiras semanas voltou a entrar tudo nos eixos.

Com as gravidezes e as licenças acabei por passar bastante tempo em casa, por isso para mim estar de quarentena não é 'estranho'. Não é algo que adore, claro, mas também não estou propriamente a fritar a pipoca. Tendo a ser muito resiliente em situações muito difíceis (o que é curioso porque muitas vezes faço dramas demoníacos com coisinhas de nada), e a minha preocupação inicial era como iria o Matias lidar com tudo isto. Quando ficámos em casa há catorze dias expliquei-lhe que não íamos poder sair 'durante uns tempos' porque 'havia adultos com febre', e ele nunca mais falou do assunto. Às vezes comentamos que continua a 'haver adultos com febre' e ele percebe.

De resto, tem andado felicíssimo em casa, aos pinotes, a brincar às apanhadas e às escondidas, a ver filmes, a construir com Legos, a brincar com os bonecos, a vestir os disfarces, a ouvir enquanto contamos histórias, a chatear a paciência da Gabi e afins.

E nós continuamos uma boa equipa. E enquanto nos parece que o mundo desmorona lá fora, saber que tudo está seguro cá dentro dá-nos uma tranquilidade imensa.

Tenho feito análises das evoluções de dezoito países em relação ao número de casos e à taxa de mortalidade, e sinceramente acho que para já as coisas cá estão a correr bastante bem. No mesmo dia de evolução do que nós a China tinha 5974 casos, a Itália 3089, os Estados Unidos 3497 e a Espanha 5232 e as taxas de mortalidade eram respectivamente 2.2, 3.5, 1.8 e 2.5 (contra a nossa de 1.3). Não quer dizer que possamos festejar no meio da desgraça dos outros, mas a mim dá-me alguma segurança sentir que, pelo menos para já, parecemos ter a situação relativamente controlada, também à custa de estarmos a cumprir bem as normas de segurança (eu sei que não faltam por aí vídeos e fotos de malta no passeio, mas também há milhares de pessoas fechadas em casa).

E pronto, por aqui a quarentena tem-se feito sem grandes dificuldades à excepção das obviamente inerentes à situação. Temos aproveitado para cozinhar, para fazer exercício, para ver séries, para jogar, enfim, para passarmos tempo juntos.

Para confusão já basta o mundo lá fora.
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