5 de junho de 2018

O silêncio.

No dia antes de partirmos para Svalbard fomos deixar o Mati ao Porto, onde ele ficou com os meus pais, o meu irmão e a minha avó. Enquanto o deitava, eles sentaram-se à mesa com o Pedro. E falaram.

Falaram, falaram, falaram, falaram, falaram. Juro, não fechavam aquelas matracas. E eu com o Mati aconchegado no meu colo, a dar-lhe beijinhos na cabeça, só queria um bocadinho de silêncio.

Quando o Mati adormeceu juntei-me a eles, e durante o jantar eles falaram, falaram, falaram, falaram, falaram. A dada altura perguntaram-me o que se passava: eu, sempre a exercitar o maxilar, estava agora estranhamente calada. Desculpei-me com o cansaço, mas sabia que não era isso. Só queria um bocadinho de silêncio.

Despedimo-nos, entrámos no carro e conduzimos durante uns vinte minutos, só com as músicas do mp3 a interromper os meus pensamentos. E eu percebi que ser pais nos fez isto.

Agora deitamos o Mati e ficamos em silêncio. Fazemos o jantar, numa dança já tantas vezes ensaiada, interrompida apenas pelo 'passa-me o sal' e pelo 'está bom'. Depois arrumamos tudo e eu deito-me no sofá com os pés por cima das pernas do Pedro, que vai trabalhando enquanto me faz festinhas. Em silêncio.

Antigamente aterrorizava-me pensar que um dia as relações chegavam a este ponto. Achava impensável não ter nada para dizer. Não tolerava a ideia de ficar horas em silêncio com alguém.

Agora eu sei que o silêncio diz muito. O silêncio diz 'amo-te'. O silêncio diz 'estou cansada'. O silêncio diz 'quero o meu espaço'. Acima de tudo, o silêncio diz 'passo o dia a ouvir malta, por isso agora quero exercitar a minha comunicação não-verbal, e já não preciso de mil palavras para dizer o que um olhar consegue dizer tão bem'.

Nunca dei tanto valor ao silêncio como agora. Nunca precisei tanto de silêncio como agora.

Será a velhice?

4 comentários:

  1. Verdade Joana....o silêncio diz ‘estou feliz!’

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  2. O meu namorado ia achar isso um estado de sonho. :)
    Cá em casa nem vários filhos me coloca nesse estado. Sou tagarela compulsiva. Acordo já cheia de coisas para dizer...
    Um destes dias fiquei tão constipada que fiquei sem voz. Só conseguia fazer gestos ou sussurrar. Não imaginas o pânico! Tanta coisa a matraquear na minha cabeça e eu sem as poder colocar para fora.
    Mas admito que o silêncio é muito bom e uma prática excelente para acalmar a mente. Cá em casa tenho que fazer um esforço enorme para pensar se o que vou dizer é útil ou pelo menos causador de alegria para quem vai ouvir, caso contrário, talvez o silêncio seja a melhor opção. É um exercício a que me obrigo para dar descanso à minha mente e à de quem está comigo.
    Acho que não é velhice, é maturidade e sabedoria. :P

    www.vinilepurpurina.com

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  3. Não é propriamente velhice, mas é amadurecimento. A próxima fase é adormecer no sofá mesmo que esteja a dar o episódio mais emocionante da tua série preferida...

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  4. Se é assim agora, imagina como te vai saber bem esse silêncio quando tiveres mais filhos...

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