23 de setembro de 2016

A culpa.

A viagem aos Açores, embora absolutamente extraordinária, foi tremendamente cansativa. Dormia pouquíssimo (o Matias acordava de duas em duas horas para comer, possivelmente num dos seus picos de crescimento), ainda estava a gerir toda a novidade de viajar 'sozinha' com um bebé de quatro meses e andámos sempre de um lado para o outro a conhecer coisas. Quando cheguei estava esgotada. Fisicamente esgotada. Mentalmente esgotada. Emocionalmente esgotada.




No fim-de-semana recuperámos ambos as energias e voltámos às rotinas. O Pedro entrou em acção, eu descansei bastante e o Matias voltou a dormir bem (com direito a soninhos de doze horas seguidas). Tudo ficou melhor. Eu sentia-me melhor. Cansada ainda, muito cansada. Mas melhor.

Na Terça-feira o Matias foi fazer as vacinas, o que cá em casa equivale a uma semana de 'não-quero-comer-não-quero-dormir-odeio-a-minha-vida'. Nunca percebemos porquê: o miúdo não faz febre, não fica com dores, simplesmente fica rabugento. Uma semana depois, volta ao normal.

Na Quarta-feira tive um problema com o carro e tive de ir à oficina duas vezes. À noite tive aula de canto. Cheguei a casa já depois do Matias estar na caminha. Cansada. Cada vez mais cansada.

Ontem acordei com uma reacção alérgica grave a uma picada de mosquito num olho (na verdade foram cinco mosquitos, coisa que sei porque os matei e todos tinham sangue). Estamos com uma qualquer praga de mosquitos em casa desde então. Estou a fazer corticóide.

À noite o Pedro teve futebol. Dei o banhinho ao Matias e deitei-o, mas pela primeira vez em muito, muito tempo ele não queria dormir. Demorei uma hora a conseguir adormecê-lo.

Hoje foi um dia muito, muito difícil. O Matias estava rabugento, eu também. O Matias não queria comer. O Matias não queria dormir. O Matias chorou uma hora depois do banho e do leitinho. O Pedro esteve doze horas de banco e depois foi ver o jogo do Sporting.

E eu estou esgotada. Fisicamente esgotada. Mentalmente esgotada. Emocionalmente esgotada.

A dada altura levantei a voz e implorei-lhe que se calasse, coisa que só o fez chorar ainda mais alto. E foi então que explodiu. A culpa. Aquela culpa horrível.

É impossível explicar a quem não é mãe o sentimento de culpa que nos destrói o coração quando perdemos o controlo e gritamos a um filho, que está certamente tão desesperado como nós (com a grande desvantagem de não conseguir expressá-lo de outra forma sem ser chorando). Sentimo-nos uma merda. Sentimo-nos as piores mães do mundo. Sentimo-nos más.

Hoje, pela primeira vez desde que o Matias nasceu, eu chorei agarrada a ele. Chorámos os dois, sentados na cadeira onde o embalo, no escurinho do quarto. Embalei-nos até ele adormecer e eu acalmar. E ele sossegou.

Mas a culpa continua cá. Aquela culpa horrível.

Amanhã ele vai acordar e vai sorrir para mim. Vai fazer aquele sorriso enorme, agitar os bracinhos e as perninhas e rir à gargalhada quando lhe mordiscar os pés. E eu vou pedir-lhe desculpa. Vou explicar-lhe que às vezes a mamã também fica rabugenta.

Sei que a culpa horrível vai embora. Sei que faz parte de toda esta viagem. Sei que o meu filho me acha a melhor mãe do mundo, até porque não tem outra e só conhece esta realidade. Mas também sei que hoje falhei. Hoje foi um dia mau.

Hoje estou esgotada. Fisicamente esgotada. Mentalmente esgotada. Emocionalmente esgotada.

(Posto isto, vou fazer um gin.)

(Desculpem lá a deprimência, mas isto também faz parte da maternidade.)

11 comentários:

  1. Falhaste?! Não falhaste nada! A isto chama-se ser humana, nada mais. Compreendo a culpa, ai como compreendo. Por isso te digo que tens de pôr para trás das costas e seguir. Precisas é de miminhos... beijinho

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  2. :)
    És a melhor mãe de todas. As melhores mães de todas gritam de vez em quando, e choram de vez em quando. As melhores mães de todas também ficam cansadas. E os bebés das melhores mães de todas não querem saber. Não guardam ressentimentos nem culpas. Os bebés das melhores mães de todas só sabem que a sua melhor mãe de todas o ama, sempre, sempre, sempre. Mesmo que grite e chore de vez em quando <3

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  3. Este texto fez-me sorrir bastante porque me lembrou das primeiras vezes que me senti assim. Fez-me lembrar exatamente o que eu senti (e sinto ainda) quando não consigo dominar os nervos.
    Vai acontecer mais vezes. É o que acontece às mães da nossa espécie: a espécie humana. E vai existir esse sentimento de culpa todas as vezes. Mas não vão ser tantas como isso. Vão ser poucas porque vamos aprendendo com o tempo e vamos "criando calo" em relação ao cansaço e ao stress. E, estranhamente (ou não) o facto de te sentires má faz de ti uma boa mãe. Faz mesmo. Mais tarde é possível que tenhas que te obrigar a fazer coisas que não queres e que te fazem sentir má, para o bem do teu filho (não estou a falar de palmadas :P).

    A última vez que fiquei esgotada física e emocionalmente, estava há vários dias sozinha com a Lara e a Maria (durante o dia). A Lara estava naquela fase engraçada das birras descomunais e estava em plena berraria. Eu estava esgotada de dar de mamar à Maria de hora a hora e de ter de andar sempre com ela ao colo (ela é bem gorduchinha). Ainda por cima a Maria tem muita dificuldade em dormir quando a Lara está em casa, o que a deixa irritadinha.
    Eu estava tão mal, tão mal, que fui esconder-me a chorar compulsivamente na casa de banho enquanto a Lara chorava e gritava como louca do lado de fora. A Maria estava sossegada na altura, no quarto (ou chocada com o barulho todo). Foram só uns segundos mas foi o suficiente para me recompor e perceber que precisava de ajuda. Pedi ao Milton para sair do trabalho mais cedo. Quando ele chegou já estava tudo sob controlo. O resto dos dias correu lindamente. Estruturei uma rotina para todas e planeei brincadeiras giras para fazer com a Lara que me permitissem ter a Maria ao colo ao mesmo tempo.
    Ainda estou a aprender como funciona isto da maternidade. E o saldo é sempre tão positivo! :)

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  4. Essa última frase diz tudo. Isso tb faz parte da maternidade. Não te sintas culpada, Joana :) Esses dias acontecem a todas as mães. E várias vezes ao longo dessa jornada. Força ;) beijinho

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  5. Não falhaste nada! Ser mãe é isso mesmo... é um mar de rosa e passaste por um espinho, nada mais. Beijinho e aproveita para descansar :-) Tudo vai correr bem.

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  6. Ainda nao sou mae, mas estou gravida. Serei mae com apenas 26 anos e confesso que uma das coisas que mais me assusta é perder o controlo. Sabes a minha mae é a melhor mae do Mundo e perdia o controlo às vezes. É normal. Somos Humanos. Sem filhos quando estamos cansados podemos descansar, simplesmente fazer uma pausa do Mundo à nossa maneira. Mas a partir do momento que somos maes ele esta la e precisa sempre de nos, mesmo quando nos só precisavamos de um pouco de descanso. Tenho certeza que para o Matias seras a melhor mae do Mundo, sempre. Falhar é Humano. Provavelmente ira acontecer mais vezes e um dia o teu filho ira perceber, assim como eu percebo perfeitamente quando isso acontecia à minha mae. Beijinho

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  7. Engraçado. "Ser mãe com apenas 26 anos". Como a realidade muda. Há uns anos atrás ja estaria perto do limite para ter filhos,muito mais para primeiro. Agora é-se muito jovem aos 26. Engraçado a evolução da humanidade e do ritmo alucinante em que vivemos. Isto não é uma crítica. É uma reflexão,até porque vou fazer 40 e ainda não sou mãe.

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    1. Engravidei aos 26 e fui mãe aos 27. Fui a primeira pessoa do meu grupo de amigos chegados a ter filhos. Na verdade, e agora que penso nisso, fui também a primeira a viver com o meu namorado (não foi difícil, começámos a viver juntos com 19 anos) e a casar (com 25). E sim, quando engravidei ouvi várias vezes que era nova, que tinha era que me divertir e viajar e blá blá blá. E ainda ontem pensei nisso: é estranho já ter esta vida aos 27 anos, quando a maioria dos meus amigos ainda anda a apanhar bebedeiras à Sexta e ao Sábado :P Mas as coisas mudam, faz parte. A minha mãe tinha 20 anos quando eu nasci. Já trabalhava, já era casada, já era independente... Teria sido impensável para mim ter filhos aos 20. Seria impensável para muitos amigos meus, com trabalhos precários e ainda a viver em casa dos pais, terem filhos aos 27. E nem é por uma questão de maturidade como tanto se apregoa por aí, mas sim porque hoje fazemos as coisas por etapas: primeiro estudamos, depois trabalhamos, depois vivemos juntos (ou não), depois casamos (ou não), depois temos filhos (ou não), depois compramos uma casa, depois compramos um carro e por aí fora. Precisamos de ter uma rede de segurança muito maior do que a que era necessária antigamente, creio eu. Temos mais medo de arriscar talvez. É só uma reflexão também :)

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  8. Como foi a logística de viajar com um bebé. Quero ir com a minha filha precisamente aos Açores, mas pensar em levar biberões e esterilizadores e leite, etc. E o carro e o ovo? Como correu?

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    1. O Matias tinha quatro meses e já não esterilizava os biberões. Actualmente já nem sequer se recomenda a esterilização dos biberões :) Mas se fosse uma questão para mim, provavelmente esterilizaria os biberões no microondas ou então numa panela com água a ferver e pronto :) O leite tive de levar óbvio, bem como os biberões. O carro aluguei lá e pedi um ovo à companhia de aluguer :) Levei o carrinho no porão do avião e depois andávamos com ele sem problemas! Correu tudo lindamente :) Na primeira publicação sobre os Açores falo mais sobre isso: http://omeubemestar.blogspot.pt/2016/09/sao-miguel-2016-1-lagoa-das-furnas.html :)

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