3 de junho de 2015

Alimentação na obesidade infantil (Guest Post)

Segundo dados publicados pela APCOI (Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil), 155 milhões de crianças em idade escolar têm excesso de peso ou são obesas em todo o mundo. Em Portugal, uma em cada três crianças tem este problema de saúde. A associação entre nutrição e obesidade não é difícil de fazer, sendo a alimentação incorrecta um dos factores mais relevantes nesta patologia caracterizada pela acumulação excessiva de tecido adiposo no organismo.

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Actuam na obesidade vários factores para além da alimentação, dos quais destaco três:

* O rendimento familiar;
* A pressão da publicidade nos meios de comunicação social;
* O sedentarismo.

Uma das maiores dificuldades com que os pais se deparam hoje em dia assenta na alimentação que devem dar aos seus filhos, mantendo o orçamento da família. A verdade é que a indústria alimentar consegue aproveitar-se disto e cria produtos muito apelativos e saborosos, por vezes até mesmo direccionados para as crianças, a preços muito reduzidos. Somos diariamente bombardeados com publicidade e promoções em alimentos com teores elevados de açúcares e gorduras saturadas.

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Mas, apesar disto, existem algumas escolhas e estratégias que podem ajudar a melhorar a alimentação de miúdos e graúdos. Ficam algumas:

Leite achocolatado: apesar de não ser aconselhado o consumo diário deste produto, o leite achocolatado faz parte de muitas lancheiras. Por esse motivo, é necessário saber comprar: quando observamos os rótulos de quatro marcas disponíveis nos supermercados (tabela 1), podemos ver que a composição nutricional por cada pacotinho (200ml) da marca 2 se destaca. Esta apresenta praticamente metade do valor de açúcar e lípidos que as restantes, o que faz desta a melhor opção. No entanto, o consumo de leite achocolatado deve ser limitado, sendo mais recomendado o leite simples.


Iogurtes: as crianças adoram aqueles iogurtes com cereais de chocolate. Cada iogurte desses tem 140 kcal e 20g de hidratos de carbono, dos quais 17g são açúcar. Porque não comprar iogurtes naturais não açucarados e juntar duas colheres de sopa de cereais em casa? Transforma os valores iniciais em 101 kcal e 11g de hidratos de carbono, dos quais 6g são açúcar, uma redução significativa.

Ou podem fazer a vossa própria granola (como esta com amendoim e pepitas de chocolate negro)

Pão: opte por pão fresco e de mistura (trigo e centeio, por exemplo) ou integral, devido ao maior teor de fibra. Um pãozinho fresco (50 a 60g) tem o tamanho ideal e apresenta vantagem em relação ao pão-de-forma por não ter tantos (ou nenhuns!) conservantes adicionados.

Quando comparamos alguns produtos usados em sanduíches (tabela 2), o pão de mistura apresenta mais hidratos de carbono que os restantes produtos, mas apenas 1g de açúcar, o que significa que possui mais hidratos de carbono complexos, aqueles que são saudáveis para o nosso organismo. Quando comparado com o pão-de-leite ou croissant, apresenta um teor de fibras maior, o que é óptimo para o nosso funcionamento intestinal. Relativamente aos lípidos, há uma grande discrepância entre 0.7g de gordura do pão fresco e 4.6g do croissant, um valor bastante excessivo e desnecessário neste tipo de produtos.


Bolos industriais (donuts, napolitanas, entre outros): nesta categoria, é possível fazer o raciocínio anterior - muitos hidratos de carbono simples (os açúcares), e muitos lípidos, que tornam estes alimentos prejudiciais à saúde humana. Apesar de tão nefastos, são muito consumidos devido ao seu sabor agradável e aos preços apetecíveis que são praticados pelas empresas da indústria alimentar. Tente reduzir o consumo de bolos aos dias de festa e, se possível, que sejam confeccionados em casa. Os bolos industriais, para além do açúcar e gordura em excesso, estão também carregados de aditivos alimentares. Ao domingo, leve as crianças para a cozinha e façam um bolo juntos, dos mais simples, sem recheios ou coberturas.

E porque não uns brownies sem glúten e sem açúcar?

Legumes: a sopa e a salada podem ser um pesadelo para as crianças mas existem formas de contornar esse problema. Mascarar os vegetais é apenas uma estratégia de último recurso, pois só irá atrasar o processo de adaptação da criança a este tipo de alimento. Assim, aproveite as cores fantásticas e naturais de cada legume e brinque com a criança, criando formas no prato. Por exemplo, crie com a criança uma joaninha, explicando que a cabeça é uma azeitona, as asas são tomate e que esta está pousada sobre uma folha de alface, para que ela aprenda os nomes e os sabores característicos de cada vegetal.

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Fruta: é sem dúvida obrigatória na alimentação de todos. Se a fruta inteira não seduz as crianças, opte por fazer saladas, misturando várias frutas cortadas, ou espetadas com, por exemplo, bagos de uva, gomos de tangerina, morangos, entre outras. Tornam-se uma forma mais divertida de comer, e se forem eles a fazê-las, melhor! Os sumos também são uma boa opção, mas o seu consumo deve ser limitado porque processar a fruta diminui o seu conteúdo de fibra e, uma vez que são necessárias várias peças de fruta para fazer sumo, o conteúdo de açúcar fica aumentado. Uma sugestão para contornar este problema é utilizar apenas uma peça de fruta e diluir o volume obtido com água. É também recomendado que o seu consumo seja feito na hora.

Rainbow fruit kabobs from @choccoveredkt. Easy to make & kid-friendly snack. http://chocolatecoveredkatie.com/2015/05/15/rainbow-fruit-kabobs/
Espetadas de fruta do blog 'Chocolate-covered Katie'

Refrigerantes: são uma grande 'desgraça' na alimentação actual. Sabia que uma lata de cola tem 35g de açúcar? 'Pois, mas a cola zero já não tem!'. Verdade, mas conhece o 'aspartame'? O aspartame é um dos adoçantes mais utilizados para reduzir ou eliminar o açúcar, mas alguns estudos comprovam que está associado a obesidade, perturbação de hiperactividade e défice de atenção e alguns cancros, entre outras patologias. Continua a achar que a cola zero foi a melhor invenção de sempre? Eu não!

http://www.choosehealthla.com/wp-content/uploads/2011/04/Sugar-Loaded-Drinks_Soda1.jpg
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O contínuo aumento da obesidade infantil ameaça a saúde da população mundial de forma muito abrangente e rápida, uma vez que a obesidade infantil já existe tanto em países desenvolvidos como em países em vias de desenvolvimento. A intervenção passa pela promoção de hábitos e estilos de vida saudáveis, pela despromoção da alimentação incorrecta e do sedentarismo, por acções de educação para a população em geral e por regulamentação para as empresas produtoras de alimentos, de forma a atingir o nosso objectivo: livrar a população mundial de uma das maiores epidemias da história.


Marta Neves é estudante de Ciências da Nutrição na Universidade Atlântica.

4 comentários:

  1. Fui uma criança obesa, apesar de não ter sido uma criança sedentária. Eu usufruiria do escalão A e sinceramente para além da alimentação dos meus pais, culpo um pouco à alimentação que me davam na escola. Geralmente o lanche da manhã que lá me davam era o leite com chocolate da escola + um pão de leite misto + um iogurte de mousse de chocolate ou de pudim e com sorte as vezes vinha uma maçã no "cabaz"...

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    1. É verdade que antigamente as escolas não ajudavam muito (lembro-me que no bar da minha escola só havia bolos e folhados), mas creio que actualmente as coisas estão bem diferentes :)

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  2. Ultimamente os consumidores têm ficado bem mais atentos e exigentes sobre o que estão consumindo, por isso, artigos como este são muito importantes porque transformam os rótulos de alimentos em verdadeiras ferramentas para termos uma alimentação mais saudável e cuidarmos de nossas crianças.
    Parabéns pelo artigo e a Joaninha ficou demais hein... :-) muito bom!!!

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    1. Obrigada :) De facto saber ler os rótulos é cada vez mais importante :)

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